sábado, abril 01, 2006

"Confissão sob tortura não vale"

"Confissão sob tortura não vale"

Ana Maria Pacheco Lopes de Almeida (01/04/06 12:22)

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Do blog do Alon sobre Serra e o papel que foi forçado a assinar: "A desmoralização desse tipo de coação fará bem à imprensa e aos jornalistas. (...) Seria mais honesto se o jornalista simplesmente escrevesse: "Eu, Sicrano de Tal, acho que o melhor para São Paulo é eleger alguém do PT". O leitor sairia ganhando. Melhor do que esse espetáculo de farisaísmo, esse desfile de políticos e jornalistas falsamente compungidos com a "falta de palavra" do adversário posto a assinar uma "confissão" pendurado de cabeça para baixo num cavalete."

Confissão obtida sob tortura não vale
Blog do Alon (01/04)

Não sei se José Serra (PSDB) vai ganhar ou perder a eleição de governador em outubro em São Paulo. Ele está na frente nas pesquisas, mas Marta Suplicy fez um bom governo na capital e Aloizio Mercadante conseguiu a proeza de escapar das labaredas da crise em Brasília. Vai ser mais uma luta dura e sangrenta entre o PT e os tucanos. De todo modo, pelo menos um serviço Serra já prestou à democracia brasileira (e por que não à imprensa brasileira?), ao recusar a chantagem dos que cobravam e cobram dele "o compromisso com a palavra dada" de permanecer no cargo de prefeito até o último dia do mandato.

Vamos ao ponto: um compromisso obtido naquelas circunstâncias (no meio de uma entrevista pública) vale tanto quanto uma confissão arrancada sob tortura em cima de um pau-de-arara numa delegacia de bairro. Ou seja, não vale nada. O então candidato Serra ou assinava ou perdia a eleição para Marta Suplicy em 2004. Ele assinou. Como o preso que prefere confessar a morrer ou ficar aleijado. Quem irá condená-lo? Eu não. Ainda mais se a cobrança parte dos torturadores.

A desmoralização desse tipo de coação fará bem à imprensa e aos jornalistas. Imaginem o seguinte cenário. O sujeito vai fazer um debate no jornal durante a campanha para presidente e lhe apresentam o questionário fatal:

1. Você promete que não vai aumentar impostos?

2. Você promete que não vai aumentar a idade mínima de aposentadoria?

3. Você promete que vai dobrar o valor real do salário-mínimo?

4. Você promete que vai criar dez milhões de empregos?

5. Você promete que vai reduzir ano a ano a proporção da dívida pública sobre o PIB?

6. Você promete que vai reduzir pela metade a população abaixo da linha de pobreza?

7. Você promete que não vai entrar em guerra com ninguém?

O candidato decide não assinar. Ganha, em troca, uma semana de manchetes:

Segunda-feira: Fulano admite aumentar imposto

Terça-feira: Fulano admite aposentadoria só aos 70

Quarta-feira: Fulano não garante aumento real do mínimo

Quinta-feira: Fulano descarta criar dez milhões de empregos

Sexta-feira: Fulano admite que dívida pode aumentar em seu governo

Sábado: Fulano não assume metas contra a pobreza

Domingo: Fulano acena com ameaça de guerra

A palavra dada só tem valor nas situações em que haja um mínimo de livre-arbítrio. Se Giordano Bruno morreu na fogueira, Galileu Galilei preferiu um bom acordo com a Igreja e resmungou intimamente que, apesar de tudo, a Terra se move (na tela de Cristiano Banti, de 1857, Galileu enfrenta a Inquisição romana). Penso que a imprensa erra quando se imagina o próprio Tribunal do Santo Ofício. A confissão obtida sob tortura é coisa da Idade Média. O abuso no exercício do poder enfraquece o poder democrático.

Seria mais honesto se o jornalista simplesmente escrevesse: "Eu, Sicrano de Tal, acho que o melhor para São Paulo é eleger alguém do PT". O leitor sairia ganhando. Melhor do que esse espetáculo de farisaísmo, esse desfile de políticos e jornalistas falsamente compungidos com a "falta de palavra" do adversário posto a assinar uma "confissão" pendurado de cabeça para baixo num cavalete.