quarta-feira, julho 27, 2005

Editorial de O Estado de S. Paulo As duas unanimidades




 27 de julho de 2005.


 

O presidente Lula conseguiu duas unanimidades nacionais. A primeira é que ninguém quer vê-lo fora do Palácio do Planalto antes de 1º de janeiro de 2007. Cada dia que passa sem que surja um indício veemente de peculato que possa justificar um processo de impeachment por crime de responsabilidade, antes provoca alívio do que frustração nas mesmas elites que, segundo ele, querem fazê-lo baixar a cabeça. 'Queremos evitar desestabilização. Não podemos deixar o Lula se afogar', assegura um parlamentar oposicionista que não quis se identificar, citado ontem pelo jornal Valor.


Símbolo perfeito desse estado de espírito comum a todos quantos, na política e fora dela, estão cada vez mais inquietos com os desdobramentos dos escândalos que não cessam de vir à tona, é a frase atribuída ao senador Antonio Carlos Magalhães, que apoiou o petista em 2002, mas rompeu com o governo por questões baianas. 'Eu sempre conspirei bem', disse, sem falsa modéstia. 'Mas não estou conspirando agora.'

 

A segunda unanimidade é que ninguém consegue ver o presidente conduzindo, como é apenas natural esperar de um homem de Estado, um país exposto à mais grave crise política desde a redemocratização, há 20 anos. O que mexe com os nervos dos mercados não são nem os fatos em cena e os nomes sob suspeita: são os efeitos possíveis da incompetência política do chefe do governo. É uma paráfrase do que se passou nos primeiros meses do ano da sua eleição, quando o dólar e o risco Brasil dispararam, e os investimentos e financiamentos externos praticamente cessaram - antes que os agentes econômicos adquirissem um mínimo de confiança em que Lula, na Presidência, não iria embarcar em alguma aventura de conseqüências catastróficas. Agora, o seu temor é de que o trem descarrilhe por incapacidade do maquinista de mantê-lo no rumo sob o furacão que se adensa ao redor de Brasília.


Dito de outro modo, não há, até agora, quem se apreste a imputar ao presidente da República a figura jurídica do crime de responsabilidade a partir do qual ele poderia sofrer um processo de impeachment. Mas não falta quem o acuse de estar cometendo como que um crime de irresponsabilidade política, ao fazer o que não deve e por não saber fazer o que deve. O que está fazendo é tentar mobilizar as suas bases sindicais não, como alega, para defendê-lo de inimigos que sabe serem imaginários, mas sim para fazer um comício eleitoral por dia no qual, invariavelmente, ataca o governo Fernando Henrique, para contrabalançar os efeitos dos escândalos sobre sua imagem pública. O que se esperava que fizesse, e não faz, porque não foi feito para isso, é mergulhar de corpo inteiro no trabalho de governar, deixando que as instituições sigam o seu curso natural para a identificação de culpas e culpados de corrupção na administração federal e no Congresso.


Antes de estourar a crise, o governo se movia apesar da ostensiva falta de vocação do presidente para gestor administrativo e condutor político. Preferindo viajar e discursar a liderar, nomeou primeiro-ministro o companheiro José Dirceu e czar da economia o companheiro Antonio Palocci. Apesar da guerra de guerrilha movida pelo primeiro contra o segundo, do aparelhamento da máquina e do deserto de operosidade em que se converteu a Esplanada dos Ministérios, o sucesso da política econômica garantiu a aprovação do governo e, pelo menos até o Waldogate, a política estava sob controle do Planalto. Nos subterrâneos, porém, a versão petista da 'gangue dos 4' da China de Mao - o próprio Dirceu, o ex-secretário geral Sílvio Pereira, o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-assessor da Casa Civil e ex-secretário de comunicação do partido Marcelo Sereno - agia com desembaraço e certeza de impunidade para aplacar o colossal apetite do PT pelo poder.


Tendo dado isso no que deu, o despreparo de Lula ('para governar o Brasil não é preciso diploma universitário, mas coração', disse ele no sábado) se converteu em componente central da crise. O sentimento de insegurança e de desorientação política que o levou a intensificar, no momento mais inoportuno, a campanha pela reeleição, partindo para a demagogia chavista, apenas deixou mais desacorçoados os políticos de diversas tendências, capazes, se tiverem a oportunidade, de ajudá-lo a completar a travessia do mandato, em condições estáveis. Os brasileiros não merecem reviver o medo de 2002. A esperança é que Lula desperte a tempo.

 

 

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