Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 18, 2013

Novo ciclo de aperto - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 18/04


Um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa de juros dá o sinal de que será um ciclo um pouco mais longo. Melhor que fosse mais forte e curto para evitar o excesso de tensão pré-copom que houve desta vez. A boa notícia é que a inflação vai desacelerar ao longo do ano, após o pico em junho, mas ainda ficará perto do teto. Pior que a alta dos juros é o efeito da inflação sobre os endividados.

A desaceleração da inflação não será forte. Na expressão do economista Luiz Roberto Cunha, será "lenta e gradual", o que significa que os preços permanecerão altos, mas instalados num ponto mais confortável da faixa de flutuação permitida pelo sistema de metas.

- O tomate já está desabando, a carne está caindo, outros hortifruti vão reduzir o preço com a chegada das temperaturas mais amenas que são mais favoráveis à produção - afirmou o economista.

Alguns produtos continuarão com problemas, como o leite, por exemplo, que enfrenta o efeito combinado de uma seca forte na Nova Zelândia e uma explosão nas importações de leite em pó pela China.

Houve o adiamento do reajuste dos ônibus que têm um peso forte de 2,67 pontos no índice de inflação. As tarifas serão elevadas em junho. Mas o governo prepara para o dia primeiro de maio uma série de anúncios, um deles, a retirada de PIS/Cofins sobre diesel e pneus, para atenuar a alta do ônibus. Mesmo assim, o índice de junho pode provocar, de novo, o estouro do teto da meta porque no ano passado a inflação de junho foi de 0,08%.

- Mas, no segundo semestre do ano passado, a inflação foi alta quase todos os meses - agosto, 0,37%; setembro, 0,53%; outubro, 0,43%; novembro, 0,52%; e dezembro, 0,50% - e isso por causa da seca nos Estados Unidos, que não vai se repetir na mesma intensidade e que afetou os preços de várias commodities agrícolas - diz Luiz Roberto.

Este ano haverá uma pressão menor do câmbio. Ele tem subido nos últimos dias, mas no ano passado saiu de R$ 1,70 para mais de R$ 2,00, e isso teve um grande impacto nos preços.

O sócio-presidente da GoOn consultoria, Fernando Manfio, especializada em gestão de risco de crédito, acha que um aumento pequeno dos juros não terá muito efeito sobre a inadimplência porque o custo do dinheiro no Brasil continua muito alto, mesmo com a redução recente da Selic. Os juros oficiais tinham caído, mas as taxas cobradas pelos bancos subiram.

Por outro lado, ele explica que o aumento da inflação não estava no radar durante o ciclo de forte concessão de crédito e isso está tirando renda dos endividados e contribuindo para os atrasos no pagamento de dívidas.

- Se a gente olhar para o início do ciclo de forte expansão do crédito, ainda no governo Lula, a inflação alta não estava no radar de ninguém. Ela é um fator novo, que tem contribuído para a inadimplência, principalmente das classes de menor renda. Muita gente fez dívida pela primeira vez, com prazos longos de pagamento, como no caso dos veículos, e agora está tendo um gasto elevado com alimentação, e ao mesmo tempo continua tendo as parcelas para pagar - explicou.

A elevação das taxas poderia ajudar a afastar as dúvidas sobre o Banco Central, o que afetará positivamente as expectativas. Mas foi tão pequena que talvez não faça o efeito esperado. O Banco Central está de olho também na área externa, que, nos últimos dias, teve grande deterioração.

A decisão de ontem do Banco Central não resolve o problema da inflação, a desaceleração já prevista ajudará a reduzir a tensão em relação ao problema durante o ano. Mas as taxas de inflação continuam muito altas no Brasil e outros fatores atuam para que ela permaneça muito perto do teto da meta.

3 versus 30 - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 18/04

BRASÍLIA - Com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara fechada e 93% dos paulistanos defendendo a redução da idade penal, 29 moradores de rua e mais um viciado são mortos em Goiânia, como se fosse a coisa mais normal do mundo.


Com razão, o planeta está em choque com a morte de três pessoas na maratona nos EUA. E quem está em choque com a morte de 30 infelizes sem amor-próprio e sem proteção do Estado brasileiro?

Ontem, houve uma debandada de deputados da Comissão de Direitos Humanos e dezenas de pessoas continuaram gritando para afugentar o deputado e pastor Marco Feliciano. Nem a portas fechadas a comissão consegue funcionar.

Do outro lado, 40 evangélicos decidiram dar um troco e invadiram a Comissão de Constituição e Justiça para exigir a saída dos deputados José Genoino e João Paulo Cunha, condenados pelo mensalão.

Ao que se saiba, nem os deputados, nem os evangélicos, nem os manifestantes contra Feliciano estão discutindo o que realmente interessa nem a questão mais urgente de direitos humanos: um possível grupo de extermínio na capital de Goiás.

A única estridência partiu da ministra Maria do Rosário, pedindo à Procuradoria-Geral da República que a Polícia Federal entre em ação. A ministra é do PT, e o governador Marconi Perillo, do PSDB, mas a questão não é partidária nem apenas local.

Com tantas mortes há oito meses, não é absurdo supor que a polícia estadual esteja, no mínimo, lavando as mãos; no máximo, envolvida.

Os moradores de rua vêm sendo atacados a tiros, a facadas e espancados até a morte, um atrás do outro, e nada acontece. Até ontem, quando alguns suspeitos foram presos, não havia gritaria, nem manifestações, nem a presença do Congresso e nem mesmo operações diligentes.

É como se as vítimas, já tão punidas pela vida, não fossem nada, apenas um fardo, um acidente. E os direitos humanos, onde ficam?  

A decisão do BC sobre os juros - ROBERTO MACEDO

O ESTADO DE S. PAULO - 18/04

Quando ontem escrevia este artigo, ainda não sabia o resultado da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), com encerramento previsto para mesmo dia e voltada para decidir sobre a taxa básica de juros da economia, ou Selic. Até então ela era de 7,25% ao ano desde outubro de 2012, após quedas iniciadas em agosto de 2011.

Ao gerir a taxa Selic, o Banco Central segue um modelo de análise econômica, o de meta de inflação, o qual teoriza que ela varia inversamente com a Selic, dado o efeito desta sobre a demanda de bens e serviços e também sobre as expectativas de inflação. Hoje o centro dessa meta é de uma inflação de 4,5% no ano, com margem de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo. Ou seja, um valor entre 2,5% e 6,5%. Tanto o valor central como a amplitude desse intervalo são considerados altos. Os males da inflação e a dificuldade de lidar com eles e controlá-la recomendam meta centrada numa taxa menor e com intervalo mais estreito em torno dela.

Grande expectativa cercava a reunião de ontem do Copom. Desde julho de 2012 até janeiro de 2013 houve clara tendência de aumento da inflação, conforme medida pelo IPCA, o índice-meta da política do BC. A taxa mensal caiu nos últimos dois meses, mas para 0,60% e 0,47%, respectivamente, taxas bem superiores à média mensal de 0,37% que levaria ao valor central da meta em base anual. Ademais, a taxa dos 12 meses passados ao final de março chegou a 6,6% e, assim, acima do teto do referido intervalo.
Diante desse agravamento e da imobilidade da Selic desde outubro de 2012, a credibilidade do Banco Central e de sua política de metas sofreu danos no mercado financeiro e entre analistas econômicos em geral, inclusive dos meios de comunicação. Mas a vida do BC não é fácil e vinha indicando que ele se debatia quanto ao que fazer diante de uma inflação muito disseminada e pressionada por preços de alimentos - que no momento dão sinais de retroceder - e de uma economia que apenas ensaia uma recuperação depois de seu produto interno bruto (PIB) ter crescido à taxinha de 0,9% no ano passado. E, também, diante da falta de colaboração do governo ao executar a política fiscal e a de crédito, assunto ao qual voltaremos mais à frente neste artigo.

O resultado de reuniões do Copom é usualmente objeto de especulações ou apostas que se acirram perto de sua ocorrência. Com relação à de ontem, essas apostas mudaram nos últimos dias. Assim, no dia 12 último o jornal Valor publicou matéria mostrando que, ouvidas 37 instituições financeiras e consultorias, 29 previam que a Selic não seria alterada ontem, seis esperavam aumento de 0,25 ponto porcentual e duas, de 0,5. Contudo, após declarações mais incisivas do presidente do BC e do ministro da Fazenda, na sexta-feira passada, quanto à sua disposição de combater a inflação, pesquisa publicada ontem por este jornal, mais ampla e alcançando 83 instituições, mostrou que 53 previam aumento da Selic - 33, de 0,25 ponto porcentual e 20, de 0,50 -, enquanto 30 apostavam na estabilidade dela.

Se tivesse palpitado nessa pesquisa, eu teria ficado com esse aumento de 0,25 ponto porcentual. O leitor poderá conferir hoje se errei ou não. A notícia deve ter saído na primeira página deste jornal. Se errei, não terá sido a primeira vez; se acertei, espero que não seja a última.

Mas por que escolhi esse aumento? Ora, dada a obsessão da presidente Dilma Rousseff em ter mais um mandato, sua política econômica tem mais de política como tal do que de econômica no sentido de efetivamente resolver problemas dessa natureza. Nessa linha, o constrangimento que a inação causa ao BC teria chegado a um limite e ele seria liberado para esse pequeno aumento da Selic, que, aliás, não fará muita diferença se não tiver continuidade. Mas com isso ganharia um mês e meio até a próxima reunião, no final de maio, para refletir sobre o assunto sem as pressões do momento.

Falo do resultado da reunião, e não de minha preferência pessoal quanto ao que fazer. Concordo com o governo no seu objetivo de trazer para valores civilizados a taxa básica de juros, e estes em geral. Mas não pode buscar esse objetivo com a política fiscal e a de crédito que pratica, fortemente expansionistas, que deveriam ser mais comedidas para sustentar de forma compensatória essa busca de juros mais baixos, de modo que a inflação não fosse estimulada. E não vejo disposição do governo para mudar isso, pois só pensa naquilo: a eleição presidencial de 2014.

Assim focado, todavia, não está isento de riscos políticos em face de desdobramentos econômicos. A inflação hoje está disseminada, e é questão macroeconômica que não se resolve com medidas específicas voltadas para conter preços de bens e serviços em setores específicos, como faz o governo. As causas da inflação estão nessas outras políticas expansionistas, como a fiscal e a de crédito, e numa pressão de custos e de demanda que vem de salários que crescem acima da produtividade do trabalhador. A oferta de bens e serviços também cresce pouco, pois os investimentos são fracos.

Nessas circunstâncias, a inflação poderá até cair um pouco nos próximos meses, quando se espera que os preços dos alimentos aumentem menos do que até recentemente, e poderão até retroceder, como os do tomate e do feijão. Mas sem um ataque às suas causas mais amplas e profundas a inflação poderá ressurgir com renovada força já mais perto da eleição presidencial. Esse risco poderá materializar-se, mas tampouco vejo o governo adotando então medidas consistentes e efetivas para combatê-lo. Ao contrário, o maior risco é do Brasil, o de contemplar um circo eleitoral em que o governo recorreria a passes de mágica anti-inflacionária, mais uma vez iludindo o presente em prejuízo do futuro do País.

quarta-feira, abril 17, 2013

Banho-maria - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 17/04


Na última reunião de seu diretório nacional o PT anunciou o lançamento de campanhas para recolher assinaturas em apoio a duas emendas constitucionais: uma para instituir o financiamento público eleitoral e outra para ver se consegue criar alguma forma de controle estatal sobre o conteúdo produzido pelos meios de comunicação.

À primeira, o partido acrescentou dois ou três detalhes e deu o nome de "reforma política". A segunda batizou de "democratização dos meios de comunicação" e manteve o espírito do projeto de controle social da mídia que vem tentando tirar do papel desde que ganhou a primeira eleição presidencial e anunciou a criação de um conselho para fiscalizar a imprensa.

Por que recorrer à iniciativa popular se o governo tem maioria ampla no Congresso e, em tese, poderia ganhar a parada no voto?

Porque o partido já percebeu que ambos os debates são perdidos na sociedade e, assim, não pode contar com ajuda do Planalto nem com apoio dos partidos aliados no Parlamento.

Campo onde há interesses conflitantes não é seara em que governos gostem de transitar. Alguns ainda enfrentam brigas e delas é que resultam avanços. De um modo geral não compram todas elas. Mesmo Fernando Henrique Cardoso, que comprou a da abertura da economia iniciada no governo Collor, a dos monopólios, a da reforma do Estado e parte da Previdência, deixou outras pelo caminho.

Veio o PT e não só retrocedeu em importantes avanços da época de FH, como abandonou outros contenciosos. Estão aí por fazer a complementação da reforma previdenciária e a totalidade das reformas política, tributária e trabalhista. E para que não fosse importunada por cobranças, logo ao assumir a presidente Dilma Rousseff anunciou que deixaria esse desconforto de lado. Oficializou o abandono das reformas e assunto encerrado.

Se o tema é vencido qual a razão de voltarmos a ele? A seguinte: insistência do PT não deixar a questão do controle da imprensa sair da pauta em contraposição à decisão do governo deixá-lo dormir em berço esplêndido.

No meio disso, há a necessidade incontestável de se regulamentar artigos da Constituição de 1988 sobre o funcionamento dos veículos comunicação, além da premência de se organizar legalmente os meios que se disseminaram de lá (quando, por exemplo, não existia internet) para cá.

A última manifestação da presidente Dilma Rousseff a respeito, para o ministro das Comunicações Paulo Bernardo, foi dizer a ele que estava "conduzindo muito bem o assunto" quando recentemente concordou com a necessidade de se debater o chamado marco regulatório, mas acrescentou que isso seria feito no "momento adequado".

Como o governo não vislumbra essa adequação no horizonte, a presidente quis dizer ao ministro que a coisa é para ficar assim mesmo, em banho-maria. Até quando? Sabe-se lá.

E justiça seja feita: não se deve apenas àquele grupo do PT que tem um chilique autoritário a cada vez que é publicada uma denúncia envolvendo o governo ou o partido.

Deve-se a isso também, mas há a outra face da moeda: os interesses conflitantes entre partidos e empresas de comunicação, notadamente as proprietárias de canais de televisão. Os políticos não querem mexer no assunto porque grande parte ou tem emissoras (rádio ou TV) ou é, de alguma forma, ligada a elas.

As grandes redes puxam cada qual para a respectiva sardinha e já deixaram isso muito claro às autoridades competentes. Exemplo de temas em torno dos quais reina a discórdia: aluguel de horário para programas independentes (aí incluídos, e principalmente, os espaços ocupados por igrejas de todo tipo) e obrigatoriedade de um determinado porcentual de programação local.

É um tiroteio. E dele o governo fica distante para não levar uma bala perdida.

Maioria a serviço - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 17/04

A intensa movimentação governista nos bastidores do Congresso para impedir que novos partidos tenham direito ao Fundo Partidário e, principalmente, ao tempo de propaganda eleitoral de rádio e televisão proporcional a sua bancada, só demonstra o temor do Palácio do Planalto com candidaturas alternativas de oposição, como a da ex-senadora Marina Silva ou a do governador de Pernambuco Eduardo Campos.

Será vergonhoso caso a maioria governista obtenha êxito na tentativa de neutralizar a ação política desses novos partidos - há ainda o Solidariedade, do líder da Força Sindical Paulo Pereira da Silva - pois meses atrás o governo ajudou no que pôde o então prefeito de São Paulo Gilberto Kassab na formação do PSD, que desidratou o partido de oposição DEM.

O partido de Kassab teve que ir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para garantir seu direito ao tempo de televisão, que o DEM queria vetar, e o assunto acabou sendo decidido pelo Supremo Tribunal Federal(STF) "em abstrato", isto é, tratando o assunto de maneira abrangente, sem se referir ao caso específico do PSD. Na ocasião, vários ministros se manifestaram sobre o que seria um efeito deletério da decisão.

O ministro Joaquim Barbosa disse que a consequência não seria boa, enquanto Cezar Peluso e Marco Aurélio Mello, antevendo os perigos para a democracia que a decisão poderia produzir votaram pela igualdade na disputa eleitoral, com o tempo da propaganda sendo dividido igualmente entre todos os candidatos.

Os votos do Ministro Marco Aurélio Mello são exemplos evidentes da confusão instalada no quadro partidário. Ele votou no Tribunal Superior Eleitoral contra a formação do PSD, mas, diante da aprovação da sigla, viu-se na obrigação de votar a favor do direito do novo partido de receber sua parcela proporcional do Fundo Partidário.

Para não se comprometer com o erro, votou no Supremo pelo fim da distribuição do tempo de acordo com as bancadas da Câmara, pois considera que esse sistema de divisão provoca a formação de partidos de aluguel que vivem de seus tempos de propaganda eleitoral.

Os ministros que concordaram com a tese de que os partidos formados dentro da legislação da fidelidade partidária, que abre uma janela para a mudança de legenda para a formação de um novo partido, têm o direito ao tempo de seus membros basearam- se na realidade criada pela legislação. Mesmo que jamais tenha disputado uma eleição, esse partido teria que ter meios de subsistir até a próxima eleição e tempo de propaganda eleitoral correspondente à bancada que formou - no caso do PSD, uma das maiores da Câmara, com 52 deputados.

Na verdade, essa decisão do Supremo significou a institucionalização da venda do tempo de televisão e criou um pretexto para que os partidos já estabelecidos, como PT e PMDB e inclusive o PSD, tentem agora barrar novos entrantes sob a alegação de que estão combatendo as legendas de aluguel, e não este ou aquele partido específico. O problema é que essa decisão tomada agora, quando as forças políticas estão se organizando para as eleições presidenciais, ganha uma dimensão de prepotência que lhe tira toda a autoridade moral, colocando a maioria do Congresso a serviço da candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Mesmo que a fusão do PPS com o PMN consiga se viabilizar antes da entrada em vigor da nova lei, haverá uma insegurança jurídica que dificultará a troca de partidos para apoiar a candidatura de Eduardo Campos. E os partidos de Marina e Paulo Pereira da Força Sindical estarão comprometidos. O mais sensato parece ser a proposta do governador de Pernambuco Eduardo Campos: que as novas regras só valham para depois da eleição de 2014. Mas não estamos propriamente num terreno em que atuem cavalheiros.

As bases trincadas - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 17/04


Não é o tomate a questão. Produtos de horta, pomar, granja ou pasto têm suas sazonalidades e costumam subir muito nesta época do ano. Depois, caem. O problema é que o governo Dilma tem minado a estabilidade monetária. O efeito pode ser retardado, mas ele será sentido. Nas áreas fiscal, monetária e nas declarações das autoridades, a inflação tem sido alimentada.

Um dos pontos é a credibilidade do Banco Central. A confiança de que ele está livre para agir dentro das variáveis que avalia nestas reuniões periódicas é parte da estabilidade. Ele pode errar ou acertar, mas é fundamental para a formação das expectativas que se tenha confiança na autonomia do Banco Central. Declarações sucessivas feitas pelas mais variadas autoridades - e de forma preocupante até pela presidente Dilma - foram erodindo nos últimos meses a confiança de que o BC pudesse elevar os juros.

Nas últimas semanas, depois da desastrada declaração presidencial na reunião dos Brics, o governo começou a afinar o coro. Ele tem estado menos dissonante agora.

A política de relaxamento monetário tem seus limites e efeitos colaterais. Além de incentivo ao endividamento excessivo, liberação de compulsório para compra de bens específicos, o Banco Central alterou o indicador de inadimplência para reduzir a taxa. Em outras medidas, o que se vê é aumento do calote, seja qual for o critério que o BC use.

Outro ponto é a política fiscal. Ela pode ser contracíclica, mas tem que ter coerência e transparência. Em anos mais difíceis, gastar mais é natural, desde que se compense com menos gasto em anos de maior crescimento. Mas o que tem sido feito é um desmonte das medidas do desempenho fiscal através de mudanças de regras, fórmulas de cálculo, empréstimos cruzados entre entes estatais para tentar dar a impressão de que as metas foram cumpridas. Agora, houve o anúncio de relaxamento fiscal mais forte este ano. Haverá mais gastos. Que pelo menos haja menos truques para esconder o que a elevação dos gastos representa.

Desoneração fiscal a setores escolhidos não é reforma tributária. É desejável uma redução geral da carga de impostos do país, mas o melhor é fazer isso de forma consistente. A escolha arbitrária de setores que pagarão menos impostos só aumenta a confusão numa estrutura tributária já cheia de confusão. E ela não pode ser arma para reduzir a inflação. Em algumas dessas desonerações fica evidente a tentativa de mascarar a alta dos preços.

O governo tem criado estatais ou ampliado as funções das estatais sem que isso tenha um propósito específico. É apenas a ampliação do tamanho do Estado pela convicção ideológica de que o Estado é que deve conduzir o maior número de setores possíveis.

Empresas privadas são tuteladas pelo Estado: ora através da sociedade com o BNDES, ora pelo enorme grau de endividamento com os bancos, ora pelo fato de que quando entram em dificuldades são socorridas com dinheiro público.

O governo tem tratado de forma casuística cada obstáculo do caminho. O Conselho Monetário Nacional permitiu que o BNDES não registre ações pelo valor de mercado para assim atenuar a queda do lucro do banco. Houve elevação de alíquotas de importação quando os empresários foram reclamar, em Brasília, da competição de produtos importados. A Fazenda pediu a prefeitos para adiarem a elevação de tarifas de ônibus para não subir a inflação.

Para vencer a hiperinflação foi preciso lutar contra a falta de transparência nas contas públicas, o excesso de estatização, as barreira à importação, o relaxamento fiscal e monetário, a falta de autonomia do Banco Central. A inflação do tomate vai cair. Mas a demolição das bases da estabilidade vai cobrar sua conta mais tarde.

Como descobri o rádio - ROBERTO DAMATTA

O GLOBO - 17/04


Pertenço ao século do rádio, da revista semanal, do bonde e de uma praia onde o banho de mar era obrigatório. Íamos só de "calção de banho" e não comíamos nada. As "meninas" levavam as "barracas", que os mais bem apanhados "armavam" vendo de perto o espetáculo gracioso e "casual" de observar como elas despiam as suas "saídas de praia", revelando corpos impecáveis. A praia parava para ver a chegada de certas moças, como a irmã do Nilton. Ou a mãe do Manuão, especialista — diziam — em freudianamente desvirginar os amigos do filho.

A ponte entre a fantasia do sexo real e a irrealidade do romance ideal que invariavelmente terminava na confissão arrependida era preenchida pelo rádio, no canto de um Tony Bennett quando ele entoava "Stranger in Paradise" ("Estranho no Paraíso"). O paraíso representado pelo corpo desejado, mas ainda desconhecido, de uma mulher — esse outro do qual saímos e ao qual, numa hora encantada, voltamos inventando a nossa masculinidade. Lembro que a belíssima canção era uma versão americanizada das Danças Polovitisianas da ópera "Príncipe Igor", de Alexandre Bodorin, popularizada num musical da Broadway chamado "Kismet", que os mais grosseiros chamavam de "quis meter" numa falta de gosto que feria a sensibilidade dos mais cultos e puros de coração.

Tudo era construído pelo rádio e foi pelo rádio lá de casa que testemunhei o poder do drama no choro aberto de mamãe e nas lágrimas contidas de meu pai ao ouvirem religiosamente a novela "O direito de nascer". Deste mesmo rádio, ouvi o final da Segunda Guerra Mundial, o suicídio de Vargas e aprendi a imaginar campos de futebol e seus jogos maravilhosos pela voz de Oduvaldo Cozzi. Ao lado de suas pilhas chorei quando vencemos a Copa em 1958 e ouvi o programa humorístico "Balança mas não cai", que os mais velhos censuravam com o eterno "este mundo está perdido", no que eu, hoje mais velho que eles, reitero que sempre esteve e vai estar.

O rádio era o meio e o mundo brasileiro (falado, ouvido e cantado), a mensagem.

Naquele Brasil de "80% de analfabetos de pai e mãe", conforme era banal dizer com um certo gosto e, às vezes, superioridade, quem não tinha rádio não estava no mundo.

Jaz aqui na minha frente a caixinha retangular de um velho rádio Sharp de duas bandas e dez transistores que comprei em Marabá no dia 3 de outubro de 1961, quando — em meio ao meu trabalho de campo com os índios Gaviões — alienei-me dos acontecimentos políticos nacionais deflagrados pela renúncia de Jânio Quadros. O comerciante sírio-brasileiro que me vendeu o aparelho disse que o "bichinho pegava tudo". As estruturas eletrônicas do rádio iam me tirar das tais "estruturas sociais" tocadas a Lévi-Strauss que eu perseguia com tanto ardor.

Voltamos para a aldeia com o rádio. Queríamos notícias, mas os nossos constrangidos anfitriões, pois fomos nós que nos intrometemos autoritariamente em suas vidas, queriam música. E música sertaneja, naquela época representada pelo baião.

Uma noite, quando ouvíamos o noticiário político, o nosso mais dedicado instrutor, Aproronenum — conhecido entre os sertanejos pelo nobre apelido de Zarolho — pediu música. Girei o indicador para satisfazê-lo e em torno do rádio formou-se uma alegre plateia.

Logo descobri que a novidade não era bem a música, mas o fato de ouvir e ver uma caixa cheia falante. Quando a música terminou, um índio que eu mal conhecia, um sujeito mal encarado, demandou exprimindo o desejo do grupo:

— Manda ele cantar de novo!

— Não posso — respondi atônito diante do radiozinho falante, mas surdo diante do meu problema.

— Mas como não pode? Se ele fala, ele ouve! — disse o Gavião, que havia chegado na aldeia durante os dias que estive em Marabá.

Recordando muito mal o que sabia de transmissores, tentei explicar o rádio. Esse rádio que havia permeado a minha vida e que eu descobria não saber sobre como ele funcionava. Vi então que sabia pouco do meu próprio mundo. Eu simplesmente, como Weber denunciou faz tempo no seu "A ciência como vocação", era moderno. Nada sabia das entranhas dessas entidades mágicas que constituíam o meu mundo.

Inflação, tomates e outros pepinos - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 17/04


O pepino não é o tomate, mas ambições de continuidade política sem preocupação genuína com o bem-estar


O carnaval em torno do preço do tomate pode levar alguns a acreditar que o vegetal em questão seja o grande vilão da escalada inflacionária. Não é o caso.

Embora seja verdade que seu preço tenha subido mais do que 120% nos últimos 12 meses, justificando a ira dos consumidores, seu peso é pequeno no orçamento médio considerado pelo IBGE. Há um ano era apenas 0,18% (ou seja, de cada R$ 100 gastos, apenas R$ 0,18 era destinado ao tomate); hoje, é R$ 0,33 a cada R$ 100.

Assim, da inflação de 6,59% registrada nos últimos 12 meses, considerando participação média do tomate no orçamento familiar, sua contribuição foi de 0,22%.

Por outro lado, a redução de 16% das tarifas de energia elétrica no mesmo período contribuiu para reduzir o índice de preços em 0,52%, já que esse item representa cerca de R$ 3,30 para cada R$ 100 gastos.

Há, portanto, produtos que empurraram o índice ladeira acima, assim como outros que agiram no sentido oposto. Se quisermos determinar se o IPCA mais alto é mesmo o resultado de uns poucos aumentos pontuais de preços ou se, ao contrário, reflete desequilíbrios mais profundos, não faz sentido destacar apenas os primeiros, desconsiderando o efeito dos segundos.

Precisamos, portanto, analisar medidas de inflação que atenuem o efeito dos preços mais voláteis, os chamados núcleos de inflação.

Caso os núcleos contem uma história muito diferente da inflação "cheia", por exemplo, mostrando taxas de inflação muito inferiores à registrada pelo IPCA, há boa chance de a aceleração inflacionária ser resultado de um choque localizado, como preços de alimentos.

Já se as histórias são semelhantes, fica difícil justificar a inflação mais alta apenas como fruto do preço do tomate.

Entre essas medidas, uma das mais simples consiste no expurgo dos preços de alimentos (justamente para eliminar os efeitos de choques de oferta), assim como dos "preços administrados", na prática determinados por contratos de prazo mais longo e decisões governamentais (combustíveis, por exemplo). De acordo com ela, os preços dos produtos que não são alimentos nem "administrados" subiram à velocidade média de 6,46% nos últimos 12 meses, apenas marginalmente inferior à inflação "cheia".

Há outras medidas de núcleos de inflação (são cinco!), mas a conclusão é essencialmente a mesma. A média delas aponta para inflação de 6,11% em 12 meses, sugerindo que, ao contrário da versão oficial, a aceleração não se deve a alimentos ou a nenhum grupo de produtos em particular.

De fato, complementando a análise acima, podemos utilizar outra medida, o "índice de difusão", que mede simplesmente a proporção de produtos entre os 365 componentes do IPCA cujos preços tenham aumentado no mês.

O raciocínio é semelhante ao exposto acima: caso a aceleração do IPCA resulte de um punhado de produtos, enquanto a maioria registra estabilidade ou queda, o índice de preços provavelmente estará capturando o efeito de um choque localizado; já indicações que os aumentos de preços são disseminados sugerem que o problema é mais profundo.

Ocorre que, desde julho de 2012, o indicador de difusão tem registrado valores recordes em todos os meses (desde 2005, quando a meta de inflação foi fixada em 4,5%), também uma indicação que não se trata da elevação de uns poucos preços afetando a medida de inflação, mas de um aumento generalizado.

Os números acima desmentem, portanto, a narrativa oficial, que insiste em atribuir aos alimentos o protagonismo na aceleração da inflação. As causas são mais profundas, refletindo políticas incompatíveis com a inflação na meta.

Lendo, porém, que no Planalto se considera que crescimento de 3% e inflação ao redor de 6% bastam para garantir a reeleição, fica claro que o verdadeiro pepino não é o tomate, mas ambições de continuidade política sem preocupação genuína com o bem-estar da população.

terça-feira, abril 16, 2013

Derrota moral - MERVAL PEREIRA

GLOBO - 16/04

A vitória por menos de 2% dos votos não apenas dá margem à desconfiança sobre a lisura do resultado na Venezuela como garante ao candidato oficial Nicolás Maduro apenas os primeiros três anos de mandato, e olhe lá. Isso porque no meio do mandato há a possibilidade de convocação de um "referendo revogatório" que pode tirá-lo do poder, caso o governo não esteja agradando à maioria dos venezuelanos.

Sem a presença física de Chávez, não tendo surtido efeito o anúncio de que ele reencarnara em um passarinho, a revolução bolivariana, apesar de controlar os meios de comunicação e as instituições oficiais que organizam a eleição, perdeu, pelos números oficiais, cerca de 700 mil eleitores, enquanto o candidato oposicionista Henrique Capriles recebeu cerca de 600 mil votos a mais do que na última eleição presidencial, quando Chávez venceu o mesmo Capriles com uma vantagem de 12% dos votos.

Maduro venceu em 16 estados, e Capriles em apenas 8, mas, como a diferença entre os dois ficou abaixo dos 2%, isso indica que o oposicionista venceu nos estados mais populosos. Mesmo os chavistas mais ferrenhos admitem que parte de seu eleitorado absteve-se de votar, e outros passaram para a oposição.

O resultado mostra que Chávez já governava na base da retórica revolucionária e que sem o seu carisma não foi possível impedir a explicitação de um descontentamento não apenas com os métodos revolucionários do chavismo, mas com os resultados do governo, vendidos como expressivos por seus áulicos, mas na verdade insuficientes para manter eternamente a população atrelada aos interesses do governo.

Se é verdade que a desigualdade foi reduzida e a pobreza combatida através das missões chavistas, também é verdade que a economia venezuelana sofre as consequências de uma política populista que é incapaz de manter os gastos sociais sem provocar efeitos colaterais terríveis como a altíssima inflação - cerca de 30% ao ano -,desabastecimento, déficit público e uma violência descontrolada nas grandes cidades, especialmente Caracas.

Além de sustentar as políticas assistencialistas, a estatal de petróleo PDVSA também garante uma política de subsídio do preço da gasolina que consome 10% do PIB, isso em uma empresa que sofre com o aparelhamento governista que lhe tira a competitividade e reduz a sua produção, que caiu 25% em relação ao que produzia há 14 anos, quando Chávez assumiu o poder.

A gasolina quase de graça fez com que o consumo tenha aumentado mais de 60% no período, o que obriga a Venezuela a importar o combustível, mesmo tendo uma das maiores reservas de petróleo do mundo. A escassez de mercadorias nos supermercados e a falta de energia elétrica e de água ora são atribuídas a um boicote das oligarquias, ora a atentados terroristas, quando não surge uma visão cor de rosa que "culpa" o aumento do poder aquisitivo dos mais pobres. Na verdade, trata-se de uma economia disfuncional.

Como a base de sua pregação política é não fazer acordos com a oligarquia, seguindo os passos de seu chefe, Nicolás Maduro vai ter dificuldade de montar um governo eficiente, ainda mais que enfrentará dissidências dentro da própria aliança chavista. Ele queria vencer por uma diferença maior que a que Chávez conseguiu na última eleição para se impor a seus adversários internos, mas obteve nas urnas uma derrota moral que o prejudicará tanto em relação à oposição, que sai fortalecida do confronto, quanto a seu próprio grupo político.

Assim como aconteceu entre a ausência de Chávez e o anúncio oficial de sua morte, Maduro governará sendo tutelado por um conjunto de forças no qual se destacam os militares. E a derrota moral do chavismo terá repercussões em toda a América Latina, onde o socialismo bolivariano estava deitando raízes. Não é à toa que foram esses os primeiros governos a acatar os resultados oficiais da Venezuela, inclusive o brasileiro.

Atenção, concentração - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 16/04


Ministro da Educação, economista, ação valorizada na bolsa de apostas para possíveis candidatos do PT ao governo de São Paulo e ultimamente presença constante junto à presidente Dilma Rousseff em atos públicos ou reuniões privadas (não necessariamente relacionados à sua pasta), Aloizio Mercadante é um homem confiante.

E, sobretudo, otimista. Enquanto todas as versões sobre o estado de espírito predominante no Palácio do Planalto e adjacências dão conta da preocupação crescente em relação aos efeitos eleitorais da chegada da inflação à mesa das pessoas, Mercadante diz que o governo "está seguro" de que seus principais ativos para a disputa de 2014 estarão preservados.

Trunfos estes amplamente conhecidos: emprego e renda. O que se desconhece é em que medida, e quando, a queda na produtividade, a alta de preços, o baixo crescimento acabarão por afetar esse patrimônio.

A maioria dos analistas alerta que sem uma reação enérgica e amarga do governo, dias piores na economia inevitavelmente virão. Com eles, o aumento da probabilidade de notícias menos alvissareiras que as atuais para a reeleição da presidente Dilma.

Não é o que pensa Mercadante nem, segundo ele, o que prevalece nas análises de governo. Conforme afirmou em recente entrevista ao Estado, o ministro considera que os números do PIB não serão determinantes para abalar o bom humor da população até agora registrado nas pesquisas.

"Na percepção do cidadão em geral" - sejamos claros, do eleitorado -, "a tradução para PIB é emprego e renda". Enquanto esses dois indicadores estiverem altos, alta também será mantida a popularidade da presidente. "É isso que dá apoio social ao governo", diz o ministro, que no quesito abalo da economia não enxerga no horizonte tempo ruim em termos políticos, muito menos céu de brigadeiro para a oposição.

Em verdade, não vê abalos atualmente. São, na visão dele, "desconfortos" passageiros a serem resolvidos antes que possam se transformar em potenciais prejuízos eleitorais.

O ministro chega a fazer uma comparação irônica: "O PSDB está parecendo o PT no tempo do Plano Real". A ironia está no fato de Aloizio Mercadante ter sido um dos conselheiros petistas que garantiram ao partido que o real não tinha chance de dar certo.

De desafio para o governo mesmo Mercadante só vê a necessidade de investimento em qualificação de mão de obra como forma de o País fazer frente a um crescimento maior.

Ele não tem dúvida alguma de que o índice do produto interno será maior em 2013 (façanha não muito difícil diante do menos de 1% em 2012) nem manifesta maiores preocupações com um possível descontrole no combate à inflação.

"Não haverá e vai baixar. Aliás, já está baixando, pois a alta dos alimentos decorreu de problemas na safra agrícola cujo pico foi em outubro." De acordo com ele, a rigor não há razão para maiores temores diante do estouro da meta e do acumulado de 6,59% nos últimos doze meses.

"Desde a instituição do sistema de metas só em 2006, 2007 e 2009 a inflação esteve abaixo de 5,5%."

Carestia.

A alta dos preços deu à oposição um mote. "Inflação de alimentos" é o nome do jogo, repetido frase sim outra também pelo senador Aécio Neves, candidato a oponente de Dilma pelo PSDB.

De margens. 

A ínfima margem de vantagem com que Nicolás Maduro foi eleito deixa-o com pequena margem de manobra para governar a Venezuela a partir dos instrumentos de manipulação chavista. Por si insuficientes e, sem o criador, ineficientes para lidar com a dura realidade da inflação, do desabastecimento e da criminalidade crescente.

Prisão dos mensaleiros refunda a República - MARCO ANTONIO VILLA

O GLOBO - 16/04


O epílogo do processo do mensalão é o começo do fim dos 'homens-pulhas' e a abertura da política para quem quer servir ao Brasil



O julgamento do mensalão está chegando à sua etapa decisiva. O processo, na verdade, começou quando da instalação da CPMI dos Correios, em maio de 2005. A brilhante produção do relator Osmar Serraglio e das sub-relatorias permitiu, depois de muitos meses de trabalho e inúmeras pressões vindas do Executivo, aprovar, numa sessão muito conturbada, devido à ação dos petistas, seu relatório em abril de 2006. Foi, sem sombra de dúvidas, a mais importante e eficiente CPMI da história do Congresso.

Juntamente com o trabalho dos congressistas, foi aberta em Minas Gerais investigação pelo Ministério Público Federal para apurar as denúncias, pois dois braços do mensalão, o publicitário e o financeiro, tinham lá sua base inicial. A somatória dos dois excelentes trabalhos permitiu que, em agosto de 2007, o inquérito 2.245 fosse aceito pelo STF e se transformasse na Ação Penal 470. Deve ser recordado que não foi nada fácil o recebimento do inquérito. Foram 4 sessões de muito debate, porém o STF não se curvou. Registre-se o triste papel do ministro Ricardo Lewandowski, que, em um restaurante de Brasília, após a última sessão, foi visto falando ao celular, muito nervoso, que não tinha sido possível amaciar (a expressão é dele) as acusações contra José Dirceu. Falava com quem? Por que tinha de dar justificativa?

A terceira — e mais longa — batalha do processo foi o trabalho desenvolvido entre agosto de 2007 até julho de 2012 para a confecção da Ação Penal 470. Foram dezenas e dezenas de depoimentos, documentos, laudos, registrados em milhares de páginas organizadas em mais de duas centenas de volumes. Deve ser destacado o importante papel do Ministério Público Federal, que permitiu apresentar o conjunto das provas e a acusação efetuada com ponderação e argúcia pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Mas, é óbvio, nunca é demais ressaltar o papel central em todo este processo do relator, o ministro Joaquim Barbosa. Não é exagero afirmar que, se não fosse a sua determinação — apesar de tantas dificuldades —, os trabalhos não teriam chegado a bom termo. Deve ser lembrada ainda a lamentável (e fracassada) tentativa de chantagem contra o ministro Gilmar Mendes efetuada pelo ex-presidente Lula.

Em 2 de agosto de 2012, finalmente, teve início a quarta batalha, o julgamento propriamente dito. Foram 53 sessões. Centenas de horas de debates. Com toda transparência, o Brasil assistiu a um julgamento único na nossa história. Não foi fácil chegar ao final dos trabalhos com a condenação de 25 réus. Algumas sessões foram memoráveis, especialmente no momento da condenação do núcleo político liderado por José Dirceu, sentenciado por formação de quadrilha — considerado o chefe — e nove vezes por corrupção ativa, além de mais três membros da liderança petista.

A quinta — e última — batalha é a que estamos assistindo. Depois da publicação do acordão e com os recursos apresentados pelos advogados, inócuos, pois não foram apresentadas novas provas que pudessem justificar alguma mudança nos votos dos ministros, teremos finalmente o cumprimento das sentenças. Mas, até lá, serão semanas tensas. Já vimos várias tentativas de desmoralização do STF. A entrevista do quadrilheiro e corrupto José Dirceu, condenado a dez anos e dez meses de prisão, acusando o ministro Luiz Fux de traidor, foi apenas uma delas. Os advogados de defesa, pagos a peso de ouro, vão tentar várias manobras, mas dificilmente obterão algum êxito. Outra tentativa de desmoralização foi a designação dos condenados José Genoíno e João Paulo Cunha para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. É neste momento que cresce a importância dos dois ministros mais antigos do STF: Celso de Mello e Marco Aurélio. Devem servir de escudo contra a tentativa golpista do petismo de pressionar os ministros mais jovens da Corte para conseguir, através de algum subterfúgio, a revisão das penas.

A sociedade não pode silenciar. Muito menos perder o foco. É no STF que está sendo jogada a sorte do estado democrático de direito. Os mensaleiros golpistas sabem que perderam, mas os democratas ainda não perceberam que ganharam. No momento que os condenados ao regime fechado estiveram adentrando o presídio, a democracia brasileira vai estar obtendo umas das suas maiores vitórias. Era muito difícil, quase impossível, encontrar alguém que, no início do processo, imaginasse a condenação dos mensaleiros. E mais, que eles fossem (como irão) cumprir suas penas. A satisfação não advém de nenhum desejo de vingança. Longe disso. É sentimento de justiça. Quando José Dirceu estiver cruzando o portão de entrada do presídio — certamente com um batalhão de jornalistas aguardando sua chegada — isto deverá servir de exemplo para todos aqueles que continuam desrespeitando a legalidade, como se estivessem acima das leis, cometendo atos que violam o interesse público, a ética e a cidadania.

Estamos há mais de cem anos procurando homens públicos republicanos. Não é tarefa fácil. Euclides da Cunha, em 1909, numa carta ao seu cunhado, escreveu que "a atmosfera moral é magnífica para batráquios". E continuou: "Não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes". A confirmação das sentenças e o cumprimento das penas podem ser o começo do fim dos "homens-pulhas" e a abertura da política para aqueles que desejam servir ao Brasil. Iniciaremos a refundação da República.

Eu tive um sonho - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 16/04


Adormeci e comecei a sonhar. Sonhei que o espírito de Thatcher havia reencarnado na presidente brasileira. Imediatamente, ela fez uma coletiva de imprensa para anunciar, sem rodeios, que era uma liberal convicta, defensora das liberdades individuais e do livre mercado.

O grande inimigo era o coletivismo, a ideia de que a "sociedade", esse ente abstrato, é mais importante do que indivíduos de carne e osso, transformados, em todo regime socialista, em meios sacrificáveis para o "bem geral". Seu foco seria, a partir de agora, preservar a liberdade no âmbito individual, com sua concomitante responsabilidade.

O "Estado Babá" seria coisa do passado. O paternalismo daria lugar a um modelo com ampla liberdade, onde cada um assume as rédeas da própria vida e arca com os riscos de suas escolhas. A Anvisa, por exemplo, teria seu poder arbitrário drasticamente reduzido. O poder seria transferido para cada um de nós.

Uma guerra foi declarada contra as máfias sindicais, que mantinham o povo refém de suas ameaças e greves. Em vez de recuar na primeira tentativa tímida de reformar os portos, ela enfrentava os sindicatos e abria as fronteiras para a concorrência, beneficiando milhões de consumidores.

A inflação seria outro alvo prioritário. Ameaçando sair de controle, ela seria combatida com uma forte redução dos gastos públicos, assim como da farra creditícia dos bancos estatais. O espírito de Thatcher focava nas próximas gerações, não nas próximas eleições.

A presidente sabia que o setor privado é infinitamente mais produtivo e eficiente. Os mecanismos de incentivo fazem toda a diferença. A busca pelo lucro é uma força propulsora sem igual para a inovação e excelência. Foi anunciada a retomada de um amplo programa de privatizações, começando pela Petrobras, cujas ações seriam pulverizadas, e cada brasileiro receberia a sua parcela de fato.

Poucos anos após essa medida, a Petrobras não precisava mais importar gasolina, o país era autossuficiente e tinha combustível mais barato. Os cofres públicos ficaram abarrotados com tantos impostos pagos pela maior lucratividade, e sobravam recursos para segurança e infraestrutura. A empresa deixara de ser cabide de empregos para aliados políticos.

A presidente repetia que o país precisava de mais milionários e mais bancarrotas. O mercado deve funcionar sem tanta intervenção estatal. O governo não usaria mais o BNDES como hospital de empresas, nem para selecionar os "campeões nacionais". Quem planejou mal e investiu errado tinha que ir à falência mesmo. Faz parte do capitalismo. Mesmo se tiver X no nome da empresa!

A postura geopolítica mudara radicalmente também. Era chegada a hora de não ser mais negligente com governos vizinhos que burlavam acordos e contratos. Os interesses partidários e ideológicos dariam lugar aos verdadeiros interesses do povo brasileiro.

Os "bolivarianos" não teriam mais no governo brasileiro um cúmplice de seus projetos socialistas fracassados. Afinal, a presidente, graças ao espírito de Thatcher, havia aprendido que o problema do socialismo é que você eventualmente acaba com o dinheiro dos outros. Como ele não é capaz de criar riqueza, as punições impostas a quem efetivamente produz acabam afugentando os responsáveis pelo progresso da nação.

Quando os jornalistas a chamaram de "presidenta" e tentaram associar sua coragem ao fato de ela ser uma mulher, a presidente interrompeu, rejeitando o uso da cartada sexual. O que importa é o mérito, não o gênero ou a cor da pele. Ela estava cansada da "marcha das minorias oprimidas", sedentas por poder. Até porque seu novo espírito era o de uma filha de quitandeiro humilde, que nunca precisou usar isso para chegar ao poder.

Eu já tinha um largo sorriso estampado no rosto durante esse sonho, quando uma voz começou a invadi-lo. No começo, era um som baixo e incompreensível, mas aos poucos ele foi aumentando e se tornando mais nítido. Por fim, percebi do que se tratava: um discurso na TV da presidente Dilma.

Ela estava justificando o baixo crescimento, a alta inflação, a desistência da reforma dos portos, a falta de eficiência da Petrobras, a ampliação das cotas raciais, o aumento do programa de esmolas estatais para os mais pobres, o resgate de grandes empresas quase falidas. O sorriso logo de desfez, e uma lágrima escorreu pelos meus olhos.

Aquilo era apenas um sonho. Thatcher estava morta, e seu espírito nunca nos deu o ar de sua graça. Como eu desejei regressar àquele sonho! Restava-me lutar para transformá-lo em realidade. Algum dia...

Bolhas e pânicos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 16/04


O mundo está no sexto ano de dinheiro muito barato e muita expansão monetária. Isso dá as condições para um dia como o de ontem, em que dois dados negativos na economia, um da China e um dos Estados Unidos, e uma explosão em Boston fizeram com que tudo despencasse. O ouro teve a maior queda em 30 anos, as bolsas caíram, as commodities cederam no mundo inteiro.

Claramente não foram apenas dois indicadores econômicos que produziram o pessimismo. As bombas que explodiram numa das mais tradicionais maratonas do mundo, a de Boston, alimentaram o ambiente ruim, lembrando o risco sempre presente do terrorismo. Mas, determinante para o movimento forte de queda dos ativos é que um mundo com tanta liquidez é ambiente propício para altas e quedas dramáticas mesmo sem muita ligação com os fundamentos. Em uma palavra: especulação.

No Brasil, a bolsa caiu mais do que em outros países. Aqui, o Ibovespa cai quando caem as bolsas do mundo, mas não sobe tanto quando outros mercados sobem. Mesmo com a queda de ontem, várias bolsas estão com alta acumulada durante o ano. Algumas operam no vermelho, mas o nosso vermelho é maior do que o de vários outros.

Nesse contexto, o Banco Central vai começar a sua reunião para decidir a taxa de juros. Se o nível de atividade com números fracos e a inflação em alta já formavam um dilema para ao BC, maior será a dificuldade de tomar decisão com a
perspectiva de uma piora do quadro global.

O Brasil tem problemas específicos. Uma parte da queda da bolsa se deve ao grupo do empresário Eike Batista, que diariamente tem tido quedas fortes. 

Ontem, as ações da OGX acentuaram a queda no meio da tarde e fecharam com -12,9%. É mais um dia do mar vermelho que se fechou sobre as ações do grupo de Eike. 

Há muita dúvida sobre a condução da política econômica. Depois de erros sucessivos em várias áreas — excesso de estatismo, manipulações fiscais, baixo investimento — há pouca confiança na capacidade de o país crescer.

Na economia mundial, o que aconteceu ontem foi a divulgação de dados menores do que se esperava nos Estados Unidos e na China. Isso, somado à explosão, provocou fatos como a queda de 200 pontos no Dow Jones. Uma reação ao medo do terrorismo e uma revisão de preços de ativos diante de um cenário de recuperação econômica mais lenta. A queda do ouro já vinha de sexta-feira e é natural depois de alta exagerada durante longo tempo. O ouro em uma década teve seu valor multiplicado por sete vezes. Ele sobe quando há risco inflacionário. E ainda que pareça distante o risco inflacionário nas maiores economias do mundo, o fato é que uma temporada tão longa de liquidez alta pode acabar alimentando bolhas e inflação.

Tudo isso tornou mais difícil a decisão do Banco Central. No mercado, não há consenso sobre se o Banco Central vai subir juros esta semana, e, se subir, se será 0,25% ou 0,5%. A complicação de ontem pode ser o motivo que leve o BC a dizer que precisa cautela, adiando a decisão de elevar as taxas.

domingo, abril 14, 2013

Inimigos cordiais - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 14/04


A amabilidade que a presidente Dilma Rousseff confere no trato a Eduardo Campos em sua rota de dissidência para uma possível candidatura presidencial em 2014, dissimula o clima de tensão pré-eleitoral que o governo e o PT criam em torno dele.

É possível detectar a mesma dualidade no governador de Pernambuco: reafirma sua aliança com o Planalto e ao mesmo tempo tensiona a relação com um discurso crítico. Mas aqui vamos tratar de Eduardo Campos apenas da perspectiva do governo, como é vista a possibilidade de candidatura, se ameaça a reeleição de Dilma, se haverá retaliação ou se ainda há espaço para um "meia volta, volver".

Atuar com mãos de ferro calçadas em luvas de veludo é um conceito difundido por Napoleão Bonaparte sobre a eficácia da combinação de gestos cordiais com atos firmes na política, que define bem o espírito da estratégia governista enunciada no primeiro parágrafo.

O governo não vai brigar - a não ser quando, e se, a luta for necessária - com Eduardo Campos, mas também não vai deixar de fazer suas escaramuças para dificultar-lhe a trajetória em direção à candidatura.

A mais explícita, e exemplar dó que virá adiante, aconteceu em recente visita da presidente a Pernambuco, onde fez discurso cobrando lealdade de aliados e ressaltando que o crescimento do Estado deve-se aos inúmeros e vultosos (R$ 60 bilhões, segundo dados do Planalto) investimentos federais.

Com isso, atua no campo seguro - por ora o único - do possível desafiante com sua fórmula "dois em um": Dilma e Lula.
O governo tenta limitar seu discurso de eficácia administrativa a Pernambuco e também esvaziá-lo transferindo o êxito para a esfera federal, vale dizer, o PT.

O jogo talvez não sei a assim tão combinado, mas fato é que parte do PT alimenta a tensão cobrando que o governo o trate desde já como adversário e outro grupo faz o papel moderado para manter a porta aberta para o caso de recuo.

E por que Eduardo Campos recuaria depois de avançar tantas casas, mais não seja para acumular forças para disputa futura (2018) da Presidência?

Na visão do governo, por causa das enormes dificuldades práticas que terá de enfrentar. Uma delas, a ambiguidade do discurso, forçosamente de oposição e pragmaticamente de situação. "Haverá o momento em que terá de se definir e aí é que começarão as pressões dos governadores, dos deputados e dos ocupantes de cargos federais", argumenta um ministro do PT.

Ele vislumbra obstáculos intransponíveis na formação de alianças regionais, na fragilidade da máquina do PSB em comparação às estruturas do PT, PMDB, do PSDB; e na disputa por uma vaga no segundo turno com o tucano Aécio Neves.
Outro ministro do PT, como o citado acima com ótimo acesso à presidente, considera que na hora das definições ainda prevalecerá a tradicional disputa de petistas contra tucanos. E acrescenta: "Nos últimos anos quem tentou ser terceira via saiu das eleições menor do que entrou: Anthony Garotinho, Ciro Gomes, Heloisa Helena, Marina Silva e Cristovam Buarque".

"Na opinião dele, por mais que digam que a disputa entre PT e PSDB cansou o eleitorado, a alternativa não tem sido um espaço político consistente".

Ambos apostam (torcem?) que Eduardo Campos pensará melhor e concluirá pelo benefício do passo atrás. Acreditam que, na hipótese de um segundo turno entre Aécio e Dilma - nesse momento, no governo, a palavra de ordem é dizer que o mineiro tem anos luz de vantagem sobre o pernambucano - o governador ficaria necessariamente com a presidente.

Apontam dois motivos. Um: porque a disputa da vaga do segundo lugar definirá o nome mais forte da oposição em 2018. Outro: se Aécio ganhar teria a vantagem da reeleição, em tese adiando os planos de Eduardo Campos para 2022.

Momento decisivo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 14/04


Fez bem a presidente Dilma em antecipar o lançamento de sua candidatura à reeleição, pela boca do ex-presidente Lula. Se naquela altura havia necessidade de esvaziar uma crescente corrente dentro do PT que queria ver Lula como o candidato de 2014, imaginem o que não estaria acontecendo hoje com a situação econômica do jeito que está.

Cada vez fica mais claro que o que vai definir a eleição de 2014 é a economia, assim como o que define a alta popularidade de Dilma é a sensação de bem-estar que ainda domina a população, embora a inflação já esteja chegando ao bolso do cidadão comum, como mostram os dados mais recentes de queda de consumo.

Assim como as mais recentes pesquisas de opinião foram realizadas em momentos propícios ao governo, como logo depois da fala em rádio e televisão anunciando a redução das tarifas elétricas ou a desoneração dos alimentos da cesta básica, talvez uma pesquisa realizada nos dias de hoje, com a alta do custo de vida voltando a ser tema de conversas das donas de casa, pudesse avaliar a repercussão dessa nova situação nos índices de popularidade da presidente.

As medidas pontuais lançadas pelo governo para estimular o consumo não conseguiram alavancar a economia, que continua patinando, um mês bom e outro ruim. E a redução das tarifas, e também da cesta básica, acabou tendo efeito efêmero, corroídas por outros efeitos da inflação. Não há informações sobre pesquisas mandadas fazer pelas oposições, mas é sintomático que tanto Eduardo Campos quanto Aécio Neves estejam convencidos de que a situação econômica só piorará até a eleição.

O governador de Pernambuco, em seu périplo pelo país que só fortalece a sensação de que está mesmo disposto a concorrer à Presidência em 2014, garantiu outro dia que a crise econômica que assola a Europa e os Estados Unidos ainda chegará ao país, e o governo não está preparado para enfrentá-la devidamente.

Na sexta-feira foi a vez de o ex-governador José Serra fazer críticas ao governo Dilma, dizendo que a economia está no chão, e que a perspectiva é piorar, embora sua participação no seminário do PPS, depois de ter faltado ao encontro na véspera, quando Aécio Neves discursou, tenha trazido a confirmação de que o PSDB continua rachado em São Paulo, aumentando as especulações de que Serra pode até deixar o partido para apoiar Eduardo Campos.

O Palácio do Planalto conta com essa divisão na oposição para facilitar seu trabalho para a reeleição e tem uma receita bastante simples para ganhar a eleição. Bastaria conter a inflação dentro das metas - este mês a inflação anualizada estourou o topo da meta - e crescer pelo menos a 2% este ano para ter a garantia de que em 2014 poderá manter os programas sociais e a sensação de bem-estar da população.

Difícil entender como, com a economia crescendo tão lentamente, será possível manter o nível de emprego e também os gastos com a máquina estatal, aí incluídos os programas sociais, fundamentais para a manutenção dos altos índices de popularidade da presidente Dilma. Mas, assim como a oposição tem bastante tempo para se organizar internamente e montar uma estratégia de unidade de ação na campanha presidencial, é também verdade que a presidente Dilma terá ainda prazo suficiente para recolocar a economia em funcionamento até chegar a hora da definição do eleitorado.

Mas o cenário atual é de tomar medidas impopulares, como a alta de juros que está se tornando inevitável, para reassumir o controle da economia. E, para quem estava acostumada a só distribuir bondades através de cadeia nacional de rádio e televisão, admitir que não deu certo uma de suas principais estratégias não deve ser fácil.

Degringolou de vez - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADO DE S. PAULO - 14/04


A popular expressão é geralmente usada para traduzir bagunça, caos, confusão, falta de bom senso. Um palmeirense reclama com um co-rintiano para que baixe a bandeira da torcida organizada Gaviões da Fiel, que tampa sua visão do jogo. Xingamento vai, xingamento vem. Torcedores dos dois clubes abrem um bate-boca. O torvelinho descamba em pancadaria. Zorra total. Esse roteiro ajuda a declinar o verbo degringolar, que tem sua aplicação bastante intensificada em estádios de futebol, peladas e botecos da periferia quando emoções etílicas extravasam, deixando escapar os ares da razão. O que dizer, porém, quando o título deste artigo aponta para um dos três Poderes da República? E se este for o Judiciário, considerado o mais sagrado, o mais admirado, o mais aplaudido, por abrigar a função de distribuir a justiça?

Pois essa é, infelizmente, a impressão causada pela acusação que as três principais entidades de juizes fizeram ao (nada mais, nada menos) presidente da Corte Suprema do País, ministro Joaquim Barbosa, a quem acusam de agir de forma antidemocrática, "desrespeitosa, premeditadamente agressiva, grosseira e inadequada para o cargo". O destampatório adjetivado lapidou uma resposta a Barbosa, que ao receber os presidentes das entidades que representam a magistratura - AJUFE, AMB e ANAMATRA - insinuou que juizes saem com pires na mão em busca de promoção na carreira, chamou de "líder sindical" um deles, acusou-os de atuar de maneira sorrateira para aprovar novos Tribunais Regionais Federais ("uma irresponsabilidade"), arrematando: "Os senhores não representam a Nação, são representantes de classe. Não vim para debater com os senhores". O presidente do STF é uma figura sem papas na língua. Chicoteia a torto e a direito, intensificando o clima belicoso entre ele e operadores do Direito, principalmente juizes e advogados, nos quais enxerga "conluios" para troca de favores. A fogueira está alta. Ao correr da história do Judiciário nunca a locução que emana da cúpula e de suas bases chegou a patamar tão baixo.

A linguagem de feição grotesca, que nestes tempos de espetacularização da política passou a ser ouvida nos (ex)solenes ambientes do Judiciário, tem que ver com a intenção desse Poder de se aproximar da sociedade. Mesmo assim, causa surpresa o destempero verbal de atores a quem cabe interpretar as leis e contribuir para a harmonia social. Vale lembrar o preceito de Bacon: "Os juizes devem ser mais reverendos que aclamados, mais circunspectos do que audaciosos".

A liturgia do poder, que tem na palavra um dos seus eixos, esta em descenso. Expliquemos. Tradicionalmente, a liturgia abarca o conjunto de formas adotadas nos ofícios eclesiásticos. Nas últimas décadas o ordenamento litúrgico deixou de ser exclusividade de igrejas e credos, ingressan-. do nos altares profanos da política, na agenda dos Poderes do Estado e na própria vida social. A liturgia do poder confere a mandatários - seja nas democracias ou em outros sistemas, como as monarquias - o cetro da autoridade. Presidentes, reis, rainhas, príncipes, representantes no Parlamento, magistrados e celebridades que habitam o Olimpo da cultura de massas (artistas, cantores, escritores) exibem uma aura litúrgica sob os holofotes fosforescentes da mídia.

Apalavra carrega o dom de desvendar a condição do interlocutor. Retrata a índole da fonte, deixando ver o território em que atua. Flagrar a rainha da Inglaterra cometendo gafe (por palavras) é episódio fora do comum. Do papa Francisco espera-se apalavra do mensageiro de Deus. Piadas com argentinos ficam por nossa conta. O que não impede Sua Santidade de discorrer sobre futebol e torcer para o San Lorenzo. As circunstâncias propiciam a nobres e plebeus falar de coisas comuns. Sob essa perspectiva, altos dignitários, em instantes de descontração, chegam a empregar expressão menos pomposa.

Do alto de sua autoridade, o ministro Joaquim Barbosa não é obrigado a discorrer em jurídiquês o tempo todo, da mesma forma que a presidente Dilma deixa de lado o politiquês ou o governes para apresentar sua receita de omelete no programa de Ana Maria Braga. Os problemas ocorrem quando o verbo ultrapassa o limite de educada conjugação. Ou seja, quando mexe com os brios de outros, em forma de crítica, combate, denúncia, gerando prejuízo ético/moral. Ou quando adentra "o perigoso terreno da galhofa". Nem sempre os poderosos escolhem a melhor forma de dizer as coisas de acordo com padrões litúrgicos inerentes ao poder que detêm.

No mais, muitos oradores se esforçam para conferir eficácia à palavra, por saberem que ela tem o poder de cooptar, criar rejeição, exprimir autoridade e buscar a conformidade social. Há casos de muitos políticos que, sem ferir a liturgia, foram bastante criativos no uso da linguagem. Um exemplo: Jânio Quadros transmitia autoridade sem perder a compostura. Mestre no uso da palavra certa, no lugar certo, no momento adequado. Em 1985 chamou Delfim Netto a um comício. O professor, já famoso, iniciou a peroração: "A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário". Jânio torceu a cara. Logo depois, deu a lição. "Olhe para a cará daquele sujeito, Delfim. O que você acha que ele entendeu? Não sabe o que é processo, não sabe o que é inflacionário, muito menos o que é déficit. E não tem a menor ideia do que é orçamentário. Da próxima vez, diga: a causa da carestia é a roubalheira do governo."

Lula também é afeito à palavra que cala fundo. Às vezes exagera na dose. Uma das suas: "O vermelho da bandeira do partido é a cor do sangue de Cristo". Até o ético Franco Montoro caía na rede das gafes. Visitando cidades inundadas do Vale do Ribeira, não resistiu: "Que lindo. Parece Veneza! ". No Judiciário, a ex-corregedora Eliana Çalmon não escapa à linguagem ferina: juizes "decentes" não podem ser confundidos com "meia dúzia de vagabundos". Churchill dizia: "Somos mestres das palavras não ditas, mas escravos das que deixamos escapar".

Duas damas - SUELY CALDAS

O ESTADO DE S. PAULO - 14/04


Há algumas semelhanças e muitas diferenças entre Margaret Thatcher e Dilma Rousseff. Nas semelhanças, o papel de Thatcher cresce por ter sido a pioneira, a principal responsável pela introdução mundo afora de uma bem-sucedida agenda econômica liberal hoje aceita e praticada até em países comunistas (China, por exemplo). Com as privatizações e redução de impostos de seu governo, Dilma Rousseff reprisa parte da agenda que Thatcher criou e aplicou no Reino Unido, nos anos 80, e que o rival Partido Trabalhista condenou na época, tachando-a de neoliberal. Aliás, foi quando a palavra neoliberal - simplesmente uma doutrina econômica -passou a ser pronunciada como xingamento pela voz da esquerda.

As diferenças se dão principalmente no terreno político. A começar pela aversão ao paternalismo de Estado que Thatcher professou desde o primeiro dia de seus 11 anos de governo, por considerar que todo homem é responsável por si mesmo. Dilma acredita no Estado provedor e não só para os pobres, mas também para empresários escolhidos a dedo que encontram no BNDES um caixa generoso para seus negócios. Enquanto a inglesa eliminou subsídios, favores e privilégios de empresas viciadas em depender do Estado, a brasileira distribui facilidades com recursos públicos para grupos empresariais eleitos.

As diferenças também se acentuam na política social: ao concentrar esforços em recuperar a combalida economia inglesa quando se tomou primeira-ministra, em 1979, Thatcher eliminou programas sociais e reduziu verbas para saúde e educação, ainda hoje mantidas sob controle do Estado. Já Dilma aumentou os repasses para o Bolsa-Família, criou outros programas sociais, mas manteve intacta a porção de política social que privilegia os ricos e pouco investe em saneamento básico e combate à violência. Dilma dá ênfase ao ideal de igualdade e Thatcher, ao de liberdade

Mas entre elas há uma diferença fundamental, que transcende seus mandatos, ganha dimensão e cresce para ocupar lugar na História: independentemente de erros e acertos, Thatcher trouxe para sua gestão um Programa de Governo com letra maiúscula, políticas com rumo certo, com as quais assumiu compromissos e se manteve coerente até seus últimos dias de governo. Mérito reconhecido até por rivais políticos históricos. Centrado na desregulamentação do setor financeiro, flexibilização do mercado de trabalho e privatização de estatais, o programa de Thatcher modernizou a Inglaterra, tirou a economia do atoleiro, derrubou a inflação de 13% e impulsionou o crescimento.

E exatamente o que falta a Dilma. No governo Lula, mal ou bem, ela ensaiou um plano de governo com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Mas, ao chegar ao Palácio do Planalto, ela se desorientou, perdeu o rumo, vive de apagar incêndios, não sabe para onde ir. De início, acreditou que bastava aumentar o emprego, a renda e o consumo que investimento e crescimento viriam a reboque. Não vieram. Aí despertou para expandir a infraestrutura, mas sua equipe não consegue preparar licitações capazes de atrair investimento. Além disso, as miúdas interferências do governo, freqüentes mudanças de regras e agências reguladoras fracas e submissas ao poder político acabam por assustar e afastar os melhores investidores. O País passou a conviver com inflação em alta e crescimento em baixa. Para onde ir? É pergunta sem resposta.

Nos 32 anos que separam o início das gestões de Thatcher e de Dilma, o mundo mudou, o sonho socialista desmoronou com o Muro de Berlim, posições ideológicas também mudaram. Tanto é que a autonomia do Banco Central -bandeira da direita atacada pela esquerda nos anos 80 - não teve a adesão de Thatcher e chegou à Inglaterra pelas mãos do trabalhista Tony Blair, em 1991. Também no Brasil o PT sempre fez oposição estridente às tentativas de discutir essa questão no Congresso. Pois não é que agora o jovem senador petista Lindbergh Farias (RJ) virou defensor da ideia e promete levá-la à votação na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado!

E agora BC? - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 14/04


Até agora o Banco Central não saiu da moita. Em todas as suas manifestações, apenas deixou claro que estava especialmente preocupado com a mudança de patamar de inflação, com seu grau de espalhamento (índice de difusão) e com sua resistência. Mas o que fará para enfrentar o novo quadro ainda não ficou claro. O que ficou entendido é que manteria sua posição de vigilância e cautela até maio, para, só então, de posse de novos dados, elevar os juros básicos (Selic) - se fosse o caso.

Essa atitude pareceu coerente com a disposição da presidente Dilma Rousseff de não puxar pelos juros, a não ser em último caso, para não prejudicar a recuperação da atividade econômica (avanço do PIB) - objetivo que ela mais valoriza.

Como esta Coluna apontou em outra oportunidade, os novos números da inflação carregam certa dimensão política. Há hoje a percepção de que a alta dos preços passou dos limites - algo que transpareceu não só da perfuração do teto da meta anual (4,5% mais 2 pontos porcentuais de área escape), mas também da reação da opinião pública. O tombo nas vendas do mercado varejista, de 0,4% em fevereiro, também sugere que a corrosão do poder aquisitivo pela inflação vai gerando impacto relevante na atividade econômica. É provável, ainda, que a necessidade de usar uma participação maior do orçamento doméstico nas despesas com bens e serviços de primeira necessidade esteja não somente derrubando a capacidade de endividamento das famílias, mas também incentivando a inadimplência (calote das dívidas).

Ainda subsiste dentro do governo e fora dele a opinião de que a mídia está turbinando a inflação. Não há risco de descontrole, diz essa gente; é deixar que a trajetória natural das coisas esvazie a inflação. É um ponto de vista que não leva em conta nem as novas incertezas provocadas pela alta dos preços nem a atividade remarcatória dos agentes econômicos (fator inércia), que passarão a prevalecer se não vier o contra-ataque.

Um dos traços do governo Dilma é a complementação de políticas. A política monetária não é um instrumento independente de outros. Muito provavelmente, a atitude de esperar para ver a decisão tomada pelo Banco Central, conduzido pelo presidente Alexandre Tombini, está relacionada à espera de definições dentro do governo sobre o manejo de outras alavancas, como a política fiscal (receitas e despesas do governo) e a velocidade com que serão tocados os investimentos em infraestrutura.

Novas altas dos juros, por exemplo, poderiam ser dispensadas caso o governo se dispusesse a ser mais austero na condução de sua política fiscal e se deixasse valorizar mais o real (baixa do dólar) - hipótese improvável.

Isso leva a crer que a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), agendada para esta terça e quarta-feira, tem tudo para ser decisiva para redefinir o comportamento da economia nos próximos dois anos.

O Banco Central necessita de recuperar um mínimo de credibilidade que seja para reassumir a condição de gerenciar as expectativas do mercado. O melhor que se pode fazer é dar um tranco na economia por meio de uma alta significativa dos juros básicos. E o que tem de ser feito é melhor que venha o quanto antes.

Olhar imediato - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 14/04


O Brasil tem olhado muito para o imediato e pouco para as tendências. Olha o saldo comercial de cada mês esperando que ele volte para o azul, sem ver que o mundo inteiro está negociando alianças comerciais poderosas. Acredita que o investimento virá com os pacotes do governo, e há uma crise de confiança sobre as empresas brasileiras e do empresariado em relação ao crescimento.

O número da inflação estourou o teto, e o governo diz que é alta sazonal de alimentos. Existem preços que vão cair, mas o mundo está atravessando o nono ano consecutivo em que fatores climáticos extremos afetam safras de commodities. Os alimentos têm ficado mais caros na média. Além do mais, a inflação subiu estruturalmente do centro para o teto da meta. O país está sem espaço para acomodar choques. E eles sempre acontecem.

O governo comemora a revisão que fez nos contratos de energia elétrica, que foi o grupo que mais puxou a inflação para baixo. Como não comemorar uma conta de luz mais baixa? É ótima notícia. As más noticias que ninguém quer ouvir são as várias pressões elevando estruturalmente o preço da energia, a opacidade dos subsídios públicos na construção das hidrelétricas, e o uso das térmicas que anulará parte do efeito da queda dos preços. Pior, as empresas elétricas, sejam estatais ou privadas, ficaram sem capacidade de investir.

O grupo de Eike Batista foi tão celebrado como exemplo do capitalismo brasileiro e hoje está rondando o governo atrás de socorro. Tomara que ele supere os problemas que estão transformando em pó suas ações, mas ele se alavancou com IPOs em que prometeu o que não estava preparado para entregar e em empréstimos do BNDES para os quais deu como garantia ações cujo valor está se desfazendo.

Do laboratório do governo saem pacotes frequentes e, mesmo assim, o país está crescendo cada vez menos. Os dados mostram que o crescimento anual desenha uma escadinha que desce. O pibinho de 2012 não foi um ponto fora da curva, é o país que não tem conseguido crescer. Os dados de investimento desenham a mesma descendente: o país teve no ano passado queda da taxa de investimento.

No comércio exterior o mais sério não é o fato de que no primeiro trimestre de 2013 houve déficit, depois de termos nos acostumado com superávits. É que o volume de comércio não cresce e as escolhas que o Brasil tem feito são erradas ou estão atrasadas.

Há quem admita no governo que o comércio exterior anda mal. Os Estados Unidos negociam acordo com a Europa, a Ásia se une a países do pacífico do lado de cá do mundo, a China negocia acordos com os seus vizinhos da Ásia e com a África. O mundo gira, a lusitana roda, mas o Brasil não sai do lugar. Os Estados Unidos negociam acordos bilaterais com vários países da América do Sul. O Mercosul está hoje na mão da Argentina: um país em crise cambial, com ágio no dólar paralelo. O controle do câmbio na Argentina espanta até as empresas brasileiras; como podemos nos manter atados a eles nas negociações de comércio internacional?

As cinco estatais criadas em dois anos e quatro meses de governo Dilma fizeram algo pelo crescimento? Foram apenas mais cadeiras a serem oferecidas aos integrantes da aliança governamental, como se 39 ministérios não fossem o suficiente. O governo tem olhos apenas para as eleições de 2014 - tipo ideia fixa, obsessiva -, não o olhar para o horizonte à frente, necessário para agir preventivamente.

A oposição permanece dividida e mais interessada nas brigas intestinas e na administração das ambições do que em saber o que propor como alternativa diante do quadro de dificuldades do país. Uma nova candidatura apareceu dentro da órbita governamental. Parece, na sua ambiguidade, estar cunhando moeda de troca, e não oferecendo uma alternativa. Enquanto isso, o Congresso se esforça em bases diárias para perder a confiança do cidadão.

As projeções da maioria dos economistas do mercado financeiro só conseguem acertar se forem de curtíssimo prazo. A série histórica revela erros crassos. É o que preocupa, e não o fato de que na semana passada a inflação estourou o teto da meta. Este é apenas um dos sintomas do mal nacional: a falta de visão de para onde afinal de contas se quer ir.

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