Entrevista:O Estado inteligente

domingo, junho 02, 2013

A porta de saída - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 02/06

A corrida desesperada de milhares de pessoas às agências da Caixa Econômica Federal para sacar dinheiro do Bolsa Família escancara uma realidade que parecia, pelo menos, atenuada com a ascensão de 30 milhões de pobres para a classe média: o grau de dependência financeira desse programa social para a população pobre é certamente maior do que têm avaliado estudiosos dos dilemas sociais do Brasil. Os números frios das pesquisas que realmente comprovam a redução da pobreza, desde o Plano Real, contrastam com cenas dramáticas, em 13 dos Estados mais pobres do País, de pessoas se atropelando, aos empurrões, para chegar a um caixa eletrônico, com pavor de perder R$ 70 da mesada do Bolsa Família.

A Polícia Federal apura a origem dos boatos que propagaram o cancelamento do programa pelo governo. Porém a cada dia fica mais claro que os boatos se espalharam, como um rastro de pólvora, a partir da atabalhoada decisão da Caixa Econômica Federal de antecipar a liberação dos pagamentos do programa sem esclarecer os motivos às famílias cadastradas.

Depois de 13 anos de sua criação, o Bolsa Família ampliou em valor e número de beneficiados, mas sofre de uma fatigada paralisação na sua concepção. É verdade que foi bem-sucedido como motor de distribuição de renda e ao exigir dos pais a contrapartida de manter seus filhos na escola e respeitar o calendário da carteira de vacinação. Mas parou por aí. Desde o início do governo Lula, especialistas reconhecem as limitações do programa e discutem o que chamam de "porta de saída". Ou seja, os governos (federal, estadual e municipal) oferecerem caminhos para os beneficiários buscarem e conseguirem seu próprio sustento financeiro.

Desde o ano 2000, quando o governo Fernando Henrique Cardoso o criou com o nome de Bolsa Escola, as primeiras crianças beneficiadas têm hoje entre 20 e 27 anos, com idade de inserção no mercado de trabalho. Mas o que foi feito delas? O que fazem hoje? Têm emprego garantido? Continuam cuidando da roça? Migraram para a cidade? Não se sabe, porque o governo não cuidou de fazer o básico de qualquer programa social: pesquisar seus resultados, mensurar sua eficácia, identificar falhas e acertos e avaliar se precisa ou não mudá-lo.

Com mais de 13 milhões de famílias cadastradas, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome tem as ferramentas e a estrutura para aplicar tal pesquisa, que seria de enorme utilidade para orientar e definir políticas públicas dirigidas a encontrar a "porta de saída" do programa. Ou até mesmo concluir que são dispensáveis porque a saída natural, o próximo passo, está em oferecer ao jovem um lugar no mercado de trabalho. Nesse caso a avaliação do programa seria útil para focalizar caminhos, estimular iniciativas localizadas de geração de empregos.

Grameen Bank. O economista e Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus, criador e ex-presidente do Grameen Bank, formulou proposta interessante ao governo brasileiro que poderia funcionar como indutor de saída para o Bolsa Família. A exitosa experiência de quase 40 anos operando com microcrédito para pobres de Bangladesh credencia Yunus e suas ideias para aplicação em outros países.

"Por que não criar um programa de televisão que mostre cinco ou dez pessoas que recebem dinheiro do Bolsa Família tentando criar negócios sociais para deixar de receber verba do governo? Mesmo que nem todos consigam, certamente empreendedores irão ver isso na televisão e poderão se interessar em investir nessas ideias", propôs Yunus em São Paulo, onde fez palestra na sede da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Como na pobre Bangladesh de 130 milhões de habitantes não havia programa social equivalente ao Bolsa Família, Muhammad Yunus resolveu aliviar a pobreza ali por meio do microcrédito, emprestando reduzidíssimas quantias para famílias muito pobres de produtores rurais. No início, em 1976, usou seus próprios recursos, cobrando juros e parcelando o crédito, de forma a não reduzir seu capital, ao mesmo tempo que enquadrava o empréstimo na capacidade de pagamento do tomador. Foi esse sistema de microcrédito que originou o Grameen Bank, a primeira experiência no mundo de um banco com foco na população de baixíssima renda, o que valeu a Muhammad Yunus o Prêmio Nobel da Paz de 2006.

Ele deixou a presidência do banco em 2011, mas o Grameen Bank continua operando com o governo de Bangladesh, seu principal acionista. Como no Bolsa Família, 97% dos 6,6 milhões de beneficiários são mulheres, não há exigências de garantias nos créditos e o índice de inadimplência é de 1,2%, bem mais baixo do que o de grandes bancos internacionais.

Em 2011 Muhammad Yunus deixou o banco e partiu para outra experiência: criou o Yunus Social Business, organização internacional voltada para fomentar o conceito e a prática do "negócio social" e presente no Japão, Coreia, Itália, Alemanha, Estados Unidos, França e Turquia. Seu maior "negócio social" foi criar uma empresa em Bangladesh em parceria com a multinacional fabricante de iogurte Danone, que tem todo o retorno do capital investido, mas não se apropria do lucro, usado para reduzir o preço dos iogurtes enriquecidos vendidos de casa em casa para a população de baixa renda.

Yunus esteve no Brasil em 2008, conversou e tirou fotos com o ex-presidente Lula. Mas, aparentemente, suas ideias não sensibilizaram o interlocutor. Quem sabe a presidente Dilma Rousseff pensa diferente? E reconhece que os milhões de reais que seu governo gasta hoje com propaganda e autopromoção em TV gerariam resultados sociais importantes se aplicados em inserções na televisão - como sugeridas pelo bengalês - voltadas para incitar o instinto criativo e empreendedor do brasileiro comum.

O microcrédito ampliado e com capilaridade para alcançar regiões pobres constituiria o braço financeiro a apoiar iniciativas desses pequenos empreendedores. Sem paternalismos de vida curta, com empréstimos a juros baixos (como os do BNDES) e parcelamento da dívida, como fez Yunus em Bangladesh, seria um bom caminho para abrir uma porta de saída e dar continuidade ao Bolsa Família.

No limite - FERREIRA GULLAR


FOLHA DE SP - 02/06

Matam mesmo quando o assaltado não oferece resistência. Matam para matar, por nada, para nada


O que, afinal, está acontecendo? Em três meses, milhares de motocicletas são roubadas em São Paulo, centenas de residências e transeuntes são assaltados, trabalhadores, mulheres e pais de família são assassinados com uma frequência assustadora. Viver em São Paulo tornou-se risco de morte, é isso? Quer dizer, então, que a cidade está em guerra?

Pior: a cidade está ocupada por bandidos armados que surgem a qualquer momento e em qualquer ponto dela, empunhando fuzis, armas automáticas, decididos a tirar a vida de qualquer um.

Pelo modo como agem, parecem particularmente empenhados em matar, como se isso lhes desse especial satisfação. Matam mesmo quando o assaltado não oferece resistência. Matam para matar, por nada, para nada.

Mas por que razão agem assim? Uma hipótese é a de que estejam drogados, por ser difícil admitir que sejam todos homicidas natos.

Sou da teoria de que o cara nasce poeta e nasce homicida. Digo isso porque sei de gente que em hipótese alguma admitiria tirar a vida de alguém, enquanto outros, a primeira coisa em que pensam, se alguém os ofende, é acabar com ele. Felizmente, raras pessoas são assim.

Daí levantarmos a hipótese de que, se tantos assaltantes matam gratuitamente, é por estarem fora de si, drogados.

Aliás, a droga é um dos motivos que levam aos roubos e assaltos. Com frequência, a polícia, quando prende assaltantes, encontra drogas com eles. Isso explica parte do terror que assusta a cidade, mas não explica tudo.

Não explica, por exemplo, ações criminosas levadas a cabo por verdadeiras equipes de bandidos, munidos de armas pesadas, sofisticadas, obedecendo a um plano minuciosamente traçado.

Quando a polícia chega à sede da quadrilha, depara-se com vasta quantidade de armas, munições e até planos de ação cuidadosamente elaborados.

Esses dados parecem indicar que, fora os bandidos comuns e os drogados, há organizações criminosas, diferentes das antigas quadrilhas do passado: estas de agora se valem de novos recursos teóricos e tecnológicos, que fazem delas organizações eficazes.

Além dos novos meios de comunicação e um conhecimento detalhado do aparelho repressivo, de que dispõem, parece-me haver, em algumas delas, pelo menos, a ação organizada e planejada, apoiada em uma infraestrutura capaz de acumular o produto roubado para vendê-lo, mais tarde, dentro de um esquema que inclui o comércio legal.

Do contrário, como se explica a descoberta frequente de galpões e armazéns cheios de mercadorias roubadas, numa quantidade que tornaria inviável comercializá-las, a não ser com apoio num sistema legal de comércio?

Ou seja, nestes casos, legalidade e ilegalidade se confundem, ou melhor, o comércio legal se alia ao crime e lucra com isso. Trata-se, portanto, de um tipo de criminalidade bem mais ameaçadora, porque capaz de minar a estrutura social e corromper setores inclusive responsáveis pelo combate ao crime, incluindo aí os aparelhos policial e judicial.

Estas são algumas considerações e especulações de alguém que não é especialista no assunto, mas que foi levado a refletir sobre o problema.

Não tenho dúvida de que as autoridades responsáveis pelo combate à criminalidade, em São Paulo e no país, estão igualmente preocupadas e buscando solução para tão grave problema.

Mas isso não basta para tranquilizar as pessoas. Ouvi, outro dia, na televisão, um cidadão afirmar que nem ele nem qualquer membro de sua família sai mais à noite, seja para ir ao cinema seja para jantar num restaurante.

Significa que os cidadãos são agora reféns dos bandidos? Isso se torna tanto mais assustador quando se sabe que o Brasil mesmo, como país, é um dos mais violentos do mundo. Li que se mata mais gente aqui do que na guerra civil da Síria.

É hora, portanto, de o governo, em suas diferentes instâncias, buscar com seriedade a solução desse problema.

Não por acaso, faz poucos dias, o governador de São Paulo admitiu quanto é grave a situação, tanto que anunciou um programa de combate à criminalidade, prevendo bônus aos policiais que mais se empenharem no combate ao crime, além da ampliação do efetivo policial. Tais medidas não solucionarão o problema, mas, pelo menos, implicam o reconhecimento de quão grave ele é.

Cangaço no Leblon - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 02/06


'Eu não aguento ouvir falar no Bolsa Família! Eu fico à beira de uma síncope! A legalização do jogo do bicho ia contribuir bastante para desbastar o Bolsa Família. Era só botar gente atualmente viciada em Bolsa Família para trabalhar anotando bicho'



Começo de tarde ameno, atmosfera quase modorrenta no boteco. Até o pessoal que se posta nas mesas de fora, para melhormente apreciar a graça e o encanto da aplaudida e famosa mulher leblonina — a qual, no dizer inspirado de Dick Primavera, é o sorriso de Deus e o único consolo neste vale de lágrimas — está meio devagar. O desfile parece um pouco fraco, tudo indicando que as moças e senhoras, em vez de ir à praia, preferiram dormir até tarde, para consternação geral. E, no setor de debates sobre a complexa realidade nacional, o ambiente carecia da presença sempre estimulante do comandante Borges, que não apareceu no último domingo, reunido alhures com sua turma da velha guarda, para juntos rememorarem os tempos gloriosos em que desbravavam os ares daqui e d'além-mar, em aviões de todos os tipos e tamanhos. Recordar é viver, devia estar tirando o atrasado e ia faltar novamente.

Em razão dessa perspectiva, não foi sem algum alvoroço que o perceberam chegar, apear de sua admirada bicicleta elétrica de última geração e dirigir-se ao lugar de costume, sobraçando, com o semblante carrancudo, uma pasta cheia de papéis. Estabeleceu-se imediata curiosidade entre os presentes. O queixo empinado e o ar quase beligerante talvez significassem que aqueles papéis continham novos pormenores sobre o Plano Borges, que ele certamente ia expor e defender com o habitual vigor, como já fizera anteriormente. Mas não era nada disso, o que ele mesmo explicou, depois de notar que sua pasta havia chamado a atenção de todos.

— Isto aqui — disse ele — é a papelada que eu estou juntando para meu contrato com a empregada. Não vou deixar nenhuma brecha, comigo eles vão se dar mal, nenhum deles vai me tirar o couro.

— Eles quem, comandante?

— Eles! Todo mundo conhece a figura do advogado de porta de xadrez, não conhece? Esse é manjado, se bem que quem ganha dinheiro mesmo hoje em dia é advogado de porta de ministério, mas aí já é para o alto coturno. Pois muito bem, agora temos o advogado de porta de cozinha! Já deve haver umas quinze a vinte quadrilhas desses pilantras pelo Brasil afora, é um grande negócio, porque todo mundo sabe que a Justiça do Trabalho nunca dá ganho de causa ao empregador. Já deve existir uma quadrilha no Leblon, que dá uma gruja aos porteiros dos edifícios, para saber quem demitiu a empregada recentemente. Aí eles prometem muita grana à empregada que for na deles, desencavam tudo quanto é lei, regulamento e portaria e levam as calças do infeliz! Aqui pra eles! Comigo é tudo no papel e ainda vou montar uma central eletrônica para monitorar a empregada o dia todo! Eles não me pegam, chega de bandidagem! Voltem para a porta do xadrez, que lá não falta serviço, vão advogar para os traficantes, vão advogar para os bicheiros, a ilegalidade do bicho está ai mesmo, para todos se servirem.

— Não entendi bem.

— Deixe de ser burro, todo mundo ganha com o jogo do bicho na ilegalidade, aqui é assim. Tem jogatina patrocinada em tudo quanto é canto, só não pode o jogo do bicho. Está na cara por que não pode. Fica mais barato para o bicheiro, que não tem que pagar custos trabalhistas nem registrar ninguém e é uma boa fontezinha de renda para advogados, delegados, detetives, PMs e talvez mais outros. Todo mundo ganha, é por isso que o jogo do bicho é ilegal.

— Quer dizer que você é a favor da legalização.

— Eu sou. Mas não tanto para acabar essa mamata e, sim, para ajudar a amenizar outra mamata, o Bolsa Família. Eu não aguento ouvir falar no Bolsa Família! Eu fico à beira de uma síncope! A legalização do jogo do bicho ia contribuir bastante para desbastar o Bolsa Família. Era só botar gente atualmente viciada em Bolsa Família para trabalhar anotando bicho. Trabalho leve, na medida certa para o freguês do Bolsa Família, que não se dá bem pegando no pesado, que é que você me diz dessa ideia? Eu sei, você está discordando de mim. Falar em trabalho aqui no Brasil é uma falta grave! Vencer na vida é conseguir uma mamata! Emprego bom aqui é o de vigia, que recebe adicional de trabalho noturno e de periculosidade para dormir no emprego! Vida boa quem tem aqui é ladrão, bandido e cangaceiro!

— Ladrão e bandido, certo, mas cangaceiro não tem mais.

— Onde é que você mora? Eu sei, mora aqui mesmo no Rio. Mas não pense que, por morar no Rio, você está livre do cangaço, o cangaço agora é nacional, não é só no Nordeste, você vai ver. E já viu na Paraíba, faz uma semana. Os cangaceiros entraram numa cidade e tomaram conta de tudo, pior que no tempo de Lampião, com tiroteio, roubos de bancos, invasão de prédios públicos e tudo mais a que o cangaço tem direito. Cangaço moderno, com armas pesadas, carros poderosos, tudo coisa fina, ou melhor, coisa grossa. Daqui a pouco, entra definitivamente na moda, aqui essas coisas entram na moda. Nós somos muito adiantados e nossa legislação é ainda mais adiantada.

— Isso é pessimismo em demasia, não é, não?

— Pelo contrário, eu estou otimista! Eu acho que, quando o cangaço chegar aqui, não vai conseguir fechar o Leblon por mais que uns cinco dias, mesmo fazendo reféns. O Leblon, você sabe, é fácil de fechar, isto aqui é uma ilha. Eles fecham as saídas e…

— Comandante, isso é delírio, não pode acontecer.

— Claro que pode e só deixará de poder se chegar a guilhotina, que todo mundo sabe que é o melhor método porque não precisa de energia e os órgãos podem ser doados! Guilhotina! Robespierre! A cabeça deles!

O mundo não é culpado - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 02/05
Esta semana se soube que Brasil e Estados Unidos cresceram no mesmo ritmo no primeiro trimestre de 2013. Nós, 0,6%, e eles, 2,4%. É a mesma coisa. A diferença é apenas a forma como se calcula: eles apresentam o índice de forma anualizada e nós temos o hábito de olhar o dado do trimestre em relação ao anterior. Mas ficou claro que o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil.

Para eles, o número significa a continuação da recuperação. Para nós, sinal de que estamos perto da estagflação: crescemos pouco com inflação alta. Eles são a maior economia do mundo, vivem ainda uma crise sistêmica e fizeram um forte corte de gastos públicos. Nós estamos aumentando os gastos e desidratando o superavit primário. Eles estão demonstrando dinamismo econômico. O Brasil tem perdido competitividade.

Nós sentimos os abalos da crise, mas o Brasil estava mais bem preparado do que em outros eventos de crise externa. O problema é o ponto em que estamos agora. O país não consegue sair do baixo crescimento. Os cálculos apontavam números mais robustos mas eles definharam novamente. Tem sido assim desde o começo de 2011.

Se o Brasil não é o centro da crise e se está mais forte do que em outros eventos internacionais, por que não consegue crescer? E, se não está crescendo, por que não consegue derrubar a inflação?

São as inquietações do momento. Elas é que fazem o 0,6% de crescimento no primeiro trimestre parecer pior do que é. Esperava-se mais, porque nada nos impede de crescer em ritmo maior a não ser a gestão confusa da economia.

O governo anunciou uma sequência tão grande de pacotes de estímulo que nem é necessário parar para contar. Seria perda de tempo. Todos viram a hiperatividade sem rumo com a qual o governo administrou a economia nos últimos dois anos e meio. Foram vários pacotes, desonerações, R$ 400 bilhões transferidos para o BNDES, estímulos ao consumo, bancos oficiais oferecendo dinheiro aos clientes para alavancar as compras, subsídios a vários setores industriais, subsídios ao uso da gasolina. Ao fim disso, o país colheu... PIBs pequenos e minguantes.

Talvez seja porque o governo está no rumo errado. Menos hiperatividade e mais estratégia trariam os resultados esperados. Ao intervir demais na economia, criou incertezas e distorções. O governo concedeu benefícios fiscais a setores industriais para incentivar o consumo. Conseguiu no máximo antecipar decisões de compra. Estimulou o consumo das famílias através do endividamento. Aumentou seus gastos. Desta forma, foi alimentando a inflação, que tirou capacidade de consumo das famílias.

Aos investidores, o país tem emitido sinais erráticos. A intervenção na energia descapitalizou o setor. Para cobrir o custo da decisão de reduzir o preço da energia, o governo tem inventado fórmulas que caem abruptamente sobre as empresas. Um desses aparecimentos repentinos foi a resolução do Conselho de Política Energética estabelecendo que todas as geradores, mesmo as de fontes limpas, tenham que pagar pelo custo extra do uso das térmicas. Algumas já entraram na Justiça contra a decisão estranha.

O setor de petróleo ficou cinco anos sem fazer leilão de concessão porque o governo argumentava que era necessário mudar o modelo. Acabou retomando as rodadas no modelo velho. Nesse meio tempo, a produção e área prospectada diminuíram. O governo baixou regras para privatizar os aeroportos que afastaram operadores internacionais experientes e incentivaram os grupos menores a darem grandes lances. Por uma razão nunca explicada, não incluiu o Galeão na primeira etapa da privatização. Agora, o Galeão será licitado, mas as regras já mudaram. Decidiu-se criar normas que evitem grupos com pouca experiência em administração de aeroportos. Mas os atrasos nos colocam na marca do pênalti. O governo quer que o grupo que ganhar a licitação - que ainda não feita - garanta que vai melhorar a situação do aeroporto até a Copa do Mundo. Difícil ter mudança importante em tempo tão exíguo.

Para controlar a inflação - da forma errada - subsidiou o uso da gasolina e com isso desorganizou o setor de biocombustíveis. Fez anúncios preparados por marqueteiros sobre obras e licitações na área da infraestrutura que ainda não deslancharam. Olhando bem, o baixo crescimento brasileiro tem razões internas. O mundo não tem culpa.

Na base da gambiarra - DORA KRAMER

ESTADÃO - 02/06


O descompromisso do governo com os princípios republicanos de fato, não os usados como figuras de retórica para efeito de disfarce, assume uma nitidez espantosa quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, é quem dá à presidente da República lições sobre o funcionamento das instituições. Nesse ponto a gente vê que há mais que "algo errado", para usar a expressão do presidente da Câmara, Henrique Alves (correligionário de Calheiros), na concepção de República dos atuais locatários do poder. Está certíssimo o senador quando informa à ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que o Executivo não dá ao Legislativo a sua devida dimensão e que, embora desafine, não é assim que a banda toca na ordem natural das coisas. Pura verdade.

Mas é fato também que o limite não foi ultrapassado à força. O Planalto não arrombou; simplesmente avançou por uma porta que o Congresso deixou aberta. Comportou-se como armazém de secos e molhados; o governo, em seu desapreço aos parceiros e na certeza de que o PT tem o monopólio da virtude e o respaldo eterno das pesquisas e opinião, sen­tiu-se à vontade para tratar o Parlamento como objeto de sua propriedade com salvo-conduto para qualquer tipo de uso.


Pior: assim continuaria sendo se a presidente Dilma Rousseff soubesse pilotar com habilidade a sua maioria e tivesse noção do que seja diá­logo. É necessário, portanto, dar o devido peso à altivez temporã assegurada ao Senado pelo presidente da Casa. A atitude é consequência do estilo da chefe da nação: rude e crente de que é a mais sabida de todos. Em sua presumida sapiência, conseguiu transformar uma imensa base aliada em enorme e inesgotável fonte de problemas. Talvez para surpresa da presidente, não se resolvem com liberação de emendas ao orçamento nem com gestos de intimidação.

Vamos ver agora se o Senado fica firme em sua posição, se a Câmara acompanha ou se tudo não passou de um soluço. Muito em breve, nesta semana mesmo, já vai ser possível perceber. É quando se confirma, ou não, uma das hipóteses aventadas pelo governo para contornar as dificuldades decorrentes da tramitação das MPs. Assim como se fosse coisa mais natural do mundo, fa­la-se em transferir o conteúdo de uma medida com prazo de validade vencido para outra que versa sobre assunto diferente. A prática é conhecida como "contrabando" no Congresso. É ilegal, mas sempre foi aceita.

No ano passado, porém, quando o Supremo Tribunal Federal determinou que o Legislativo cumprisse a Constituição e passasse a examinar todas as medidas em comissão mista, o então presidente da Câmara, Marco Maia, anunciou que não poderiam mais ser incluídos itens estranhos ao objeto original da MP em plenário, depois da passagem pela comissão.

Caso aceite o estratagema do "contrabando", o Congresso estará dando aval a que o governo continue atuando por intermédio da mão do gato. Na base da gambiarra.

Tempo quente

No dia seguinte à confirmação de que a MP das tarifas de energia não seria examinada pelo Senado foi ouvida com clareza a expressão "partido de mercadores", no segundo gabinete mais poderoso do Palácio do Planalto. O assunto era o PMDB.

De prontidão

Se as condições objetivas para a reeleição de Dilma sofrerem os efeitos da deterioração nas relações entre ela e os partidos aliados, o ex-presidente Lula estará posicionado na linha de largada. Nesse caso, a presidente alegará razões pessoais para desistir. A justificativa será a família, não a política. Para não passar recibo.

Sinais Merval Pereira


O Globo - 02/05/2013
 


As vaias que a presidente Dilma levou em Mato Grosso do Sul e a faixa estendida ontem na manifestação do dia 1º de Maio em São Paulo, pedindo a volta de Lula, informam que os dias de bonança podem estar chegando ao fim e que ela terá, daqui para frente, maiores dificuldades no caminho para a reeleição, que ainda lhe é amplamente favorável, mas começa a se mostrar pelo menos mais árduo.

Lula navegou com os bons ventos da economia internacional e contou com seu inegável carisma pessoal para amealhar popularidade inigualável, num contexto de total fraqueza das oposições, divididas, fragmentadas e sem força alguma, sem discurso e sem alternativas. O Bolsa Família, o uso da máquina pública, e o contato direto com as classes menos favorecidas foram instrumentos essenciais à governança do período Lula, e também para a eleição de sua sucessora.

Dilma, diferentemente de Lula, enfrenta períodos mais difíceis na economia internacional, além de ter herdado os gastos do governo Lula, muitos dos quais dedicados à continuidade de um projeto de poder que teve como beneficiária a própria Dilma.

Tendo chegado ao poder como a grande gestora, Dilma não consegue destravar a agenda de desenvolvimento. A inflação começa a bater no bolso do eleitorado, e a oposição, com Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva, saiu de um torpor paralisante, prometendo um horizonte de muita luta e dificuldades à candidata favorita, especialmente num eventual segundo turno nas eleições de 2014, onde forças significativas podem aparecer unidas pela primeira vez nos últimos anos.

As pesquisas eleitorais, que hoje demonstram o favoritismo de Dilma, já começam a emitir sinais de que os reflexos da inflação podem ser sentidos na redução dos índices positivos, que continuam majoritários, mas em tendência de baixa. Se em algum momento explicitarem uma queda de popularidade, os desdobramentos políticos podem ser inevitáveis, quando até mesmo na base governista começam a se fortalecer dúvidas sobre o governo de Dilma.

"Quem viver verá", sentencia Eduardo Campos, cada vez mais convencido de que é capaz de causar grande estrago no eleitorado do governo. A ex-senadora Marina Silva caminha para ter uma vitória política na sua luta pelo novo partido, e é provável que ganhe do Supremo as mesmas garantias dadas ao PSD, permitindo que parlamentares que saiam de partidos levem consigo para a REDE um percentual do tempo de propaganda e do Fundo Partidário.

O senador Aécio Neves, futuro presidente do PSDB e seu candidato potencial, é muito mais leve, e tem mais credibilidade como negociador e fiador de acordos. A decisão do eleitor vai depender muito da economia, mas outros fatores, como o desgaste de certas figuras no Poder, podem pesar.

Embora a presidente Dilma esteja empenhada na divulgação de uma trapizonga chamada "caxirola", nada indica que vencer uma Copa do Mundo influa no resultado de uma eleição. Só para ficar nos resultados mais recentes: em 1998, o Brasil perdeu a Copa e Fernando Henrique se reelegeu. Em 2002, o Brasil foi campeão do mundo e Lula derrotou Serra, o candidato oficial. Em 2006, o Brasil perdeu e Lula se reelegeu, o mesmo acontecendo em 2010 com Dilma, que se elegeu apesar da derrota do Brasil. Mas uma eventual derrota dentro do próprio país pode ter repercussão no ânimo do eleitorado, ainda mais se houver problemas com nossas combalidas infraestruturas de aeroportos e transportes nas cidades da Copa.

O jogo começou cedo, o que normalmente não é bom para o governo, permite que as oposições se organizem com maior vigor. No campo governista, a faixa de um manifestante da Força Sindical, onde se lia "Volta Lula, eu era feliz e sabia", parece resumir o estado de espírito de muita gente importante neste momento em que a inflação já entrou até mesmo no palanque.

A defesa do "gatilho salarial" pelo sindicalista Paulinho da Força é populismo dos mais deslavados, e foi repudiado pelo tucano Aécio Neves. Mas é sinal de que o cenário pode estar mudando.

O governo não acredita em dietas - Carlos Alberto Sardenberg


O Globo - 02/05/2013
 

 

Vamos supor que você se coloque como meta manter os 70 quilos. Estando abaixo disso, está beleza, não é mesmo? Mas não significa que você pode largar os exercícios e cair na farra. Significa apenas que você não precisa de sacrifícios. Basta levar a vida - e os vinhos, as comidas, com temperança.

É o contrário, claro, se você estiver acima da meta, mas sua reação depende de quão longe está e há quanto tempo. Aos 80 quilos, depois de alguns meses de progressiva expansão, você tem que fazer alguma coisa drástica para inverter a curva, como se diz em economia. Ou, se confia na sua perseverança, pode optar por uma dieta de resposta gradual, lenta e segura.

Ou então pode simplesmente decretar: quer saber? Esse oitentinha já está muito bom.

E tocar a vida da mesma maneira que antes. Sabe o que vai acontecer? Você vai estourar a nova meta, pois esta terá sido fixada não por virtude, mas por preguiça, falta de vontade e até uma ignorância oculta.

É a mesma coisa que o governo federal está fazendo com suas duas principais metas econômicas, a de inflação e a do superávit primário (a economia feita para pagar despesas de juros e financiamento de dívida).

Na verdade, é até um pouco pior, pois o governo está se enganando ou está tentando enganar a gente. Nos documentos oficiais, as metas estão mantidas, de 4,5% ao ano para a inflação e de R$ 155,9 bilhões para o superávit primário (equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto -PIB).

Ao mesmo tempo, porém, autoridades da área econômica distribuem comentários cujo sentido é o seguinte: as metas estão aí, mas não são obrigatórias, pelo menos não para este ano nem para o próximo; além disso, os números atuais, embora fora do alvo, já são suficientes.

Ou seja, 80 quilos está mais que bom, não é preciso mudar a política econômica e nem as metas, pois um dia, quem sabe, a gente chega lá. E, se não chegar, qual o problema?

Se fosse o marido dizendo para a mulher (ou, ok, o contrário), a crise estaria instalada: afinal, a gente faz o quê? Alguma dieta para salvar os 80 ou deixa tudo como está? É grave, mas é doméstico.

Imaginem a dúvida dos chamados agentes econômicos -nome que se dá a todo mundo que toma decisões, do consumidor ao empresário, passando pelo líder sindical que negocia salários e pelo comerciante que fixa seus preços. Então, para compensar a inflação, preciso reajuste de quanto? Qual aplicação vai bater a inflação?

A inflação é facilmente percebida pelas pessoas. E isso está acontecendo. Recentes pesquisas - como as que medem a confiança do consumidor - mostram que a alta de preços, a velha carestia, já é a principal preocupação, com expectativa de alta.

O superávit primário, claro, é tema mais restrito, mas não menos impactante na vida das pessoas. O gasto público maior significa que o governo continua comendo sem controle e que isso vai levar a mais inflação.

Ora, se isso tudo é verdade, por que o governo não reage com uma dieta rigorosa, no caso, com o Banco Central elevando a taxa básica de juros com mão pesada e com o governo, no conjunto, controlando seu desejo de gastar mais?

É por que o governo, a começar pela presidente Dilma, não acredita no atual regime de política econômica, que vem desde o tempo do Plano Real. Sabe aquele sujeito que não acredita em dietas, porque seu metabolismo é diferente, seus ossos são pesados, sua digestão é especial?

Pois, então, o pessoal do governo, no fundo, não acredita que metas de inflação e de superávit primário - bases da política macroeconômica lançada por FHC e mantida em boa parte por Lula - formem a teoria mais adequada para o país.

Isso cria um baita problema cognitivo. Sim, porque, no oficial, a meta de inflação, por exemplo, continua sendo de 4,5%, mas no paralelo pode ser 6,5% ou até mais. Ora, pensam as pessoas de fora: a gente incorpora os 6,5% ou será que em algum momento o governo vai apertar os cintos para buscar os 4,5%, como o Banco Central às vezes diz que vai fazer?

Por que, então, a presidente Dilma não muda tudo? Por que não anuncia as bases de uma nova política, dizendo que a prioridade é expandir o consumo, que isso é o caminho do crescimento, e que a inflação será o que der? Que o governo vai gastar e que o superávit primário, se der, será o que vier?

Seria oficializar o neodesenvolvimentismo, inclusive com as políticas protecionistas e real mais desvalorizado. Tem teoria e teóricos para isso.

De certo modo, algumas autoridades têm dito isso, mas fica assim meio no provisório, informal. Talvez não oficializem por medo da repercussão negativa. Ocorre que, apesar de todo o debate econômico mundial, os fundamentos são os fundamentos: a inflação tem que ser baixa e controlada (até 3% para os emergentes), e a dívida total, bruta, não deve estar em tendência de alta insustentável.

Não é fácil mantê-los. Mais difícil é não respeitá-los e dizer que os cumpre. 80 quilos não são 70.

Agora, corremos o risco de ficar fora do jogo - Luiz Felipe Lampreia


O Globo - 02/05/2013
 

Émuito difícil encontrar, em toda a história da diplomacia brasileira, uma candidatura tão credenciada a um posto internacional de primeira grandeza quanto a de Roberto Azevedo à direção geral da Organização Mundial do Comércio. Não por acaso, ele chegou à lista final de apenas dois candidatos a diretor-geral. E a OMC é uma das maiores prioridades brasileiras entre os organismos multilaterais

Mas o presente artigo não visa a ser o panegírico de um amigo. Pretende, sim, é sublinhar a importância da OMC para o Brasil e para os países emergentes, no momento em que começa a grassar um pessimismo insidioso sobre o futuro da Organização. Diz-se que, sem avanços na liberalização do comércio e sem perspectivas de novas rodadas de negociação internacional, a OMC vai murchando e ficando restrita ao sistema de solução de controvérsias, ou seja, aos litígios entre Estados-membros sobre o cumprimento das normas em vigor. Estas alegações são tão mais perigosas porque têm alguma base.

A estratégia que vai tomando corpo é a seguinte:

1) a OMC permaneceria como está, em estado "vegetativo". Constituiria assim uma retaguarda onde as únicas oportunidades estariam em vencer litígios, removendo entraves, e assim abrir algum mercado para exportações dos vencedores;

2) as grandes potências do comércio internacional buscariam celebrar entre si acordos de última geração que vão além da redução de tarifas e incluam novas normas sobre serviços, propriedade intelectual, investimentos, além de novos convênios sobre temas como tecnologia da informação, comércio eletrônico e diversos outros temas de interesse primordial dos países mais avançados;

3) estes acordos apenas obrigariam os países que deles quisessem fazer parte, embora estivessem abertos à adesão posterior de países que não formassem parte do grupo fundador.

4) haveria assim um somatório dos acordos já vigentes como, por exemplo, Nafta, Estados Unidos-Coreia do Sul, mais aqueles que estão em negociação (União Europeia- Estados Unidos), a Parceria Transpacífica (TPP) entre diversos países do Pacífico (entre os quais Peru, Colômbia, México e Chile).

Esta estratégia não é um tema de debates acadêmicos, ao contrário, já está em pleno desdobramento. Tem como maior incógnita a decisão da China - um dos maiores players globais - que ainda não sinalizou conclusivamente como vai se posicionar. Mas não há dúvida de que a estratégia vai adiante com ou sem a China.

E o Brasil nisso? No momento, estamos metidos na camisa de força do Mercosul, que só nos permite negociar em bloco, ou seja, com a Argentina - hoje a campeã mundial do protecionismo -, o que inviabiliza qualquer negociação mais relevante com países de maior peso. Nossa lamentável situação consiste em ter acordos (mesmo assim nem sempre já em vigor) apenas com um pequeno número de países de importância reduzida, a saber, a Autoridade Palestina, o Egito, Jordânia e Israel. Além disso, há acordos limitadíssimos com a Índia e a União Aduaneira da África do Sul (Sacu). Creio que esta fotografia nos desfavorece e que é maior interesse nacional reavaliar nossa posição e conduzir uma análise profunda de alternativas. Hoje estou convencido que deveríamos flexibilizar a regra da negociação conjunta do Mercosul e até mesmo avaliar sua transformação em zona de livre comércio. Isto por si naturalmente não bastaria, já que estamos cada vez mais embrenhados, nós mesmos, em rumo protecionista. Gostamos de falar mal, com razão aliás, do protecionismo alheio. Mas, como no diálogo do grande filme de Alain Resnais ("Hiroshima mon amour"), moralidade duvidosa é a moralidade dos outros.

O quadro que se vai desenhando pode levar o Brasil a perder espaço não apenas no comércio internacional, mas também na integração de cadeias produtivas que, em última análise, é o objetivo da estratégia em marcha, como acima descrevi. Uma etapa fundamental para nós é o relançamento da OMC como foro central das negociações internacionais de comércio. Aí entra a eleição de Roberto Azevedo, como a melhor chance de conseguir um resultado favorável.

Nada é tão ruim que não possa ficar pior-Everaldo Maciel


O Estado de S. Paulo - 02/05/2013
 

Todos os especialistas sobem que temos um precário modelo de tributação do consumo - possivelmente o mais complexo do mundo. Nele, têm especial destaque as distorções provocadas pela guerra fiscal do ICMS, que decorre de combinação de fatores que vão desde a renúncia do governo federal à indispensável tarefa de coordenação de um imposto de vocação nacional até o fracasso das políticas de desenvolvimento regional, daí passando à obsolescência  das sanções às entidades que concedem benefícios em desacordo com as regras estabelecidas pela Lei Complementar n.° 24, de 1975.

Ao exacerbar-se, a guerra fiscal gerou um confronto aberto entre os que não admitem a competição fiscal lícita e os que proclamam a necessidade de concessão de benefícios fiscais, sem nenhuma restrição. As intervenções do Judiciário, invariavelmente declarando a inconstitucionalidade da guerra fiscal, foram sempre respondidas com mudanças formais na lei impugnada, preservados os meios para dar curso às concessões ilícitas. Para reverter esse quadro, o governo federal apresentou vários projetos.

A guerra dos portos, inacreditáveis benefícios à importação, foi enfrentada pela Resolução n.° 13, do Senado. Essa via, contudo, afrontou o preceito, constitucional que remete à lei complementar (art. 155, § 2º, inciso XII, g) o    disciplinamento de concessões e revogações de benefícios âmbito do ICMS. Ademais, o recurso à resolução representou flagrante desvio de finalidade da competência do Senado, pois a fixação das alíquotas interestaduais do ICMS pretende tão somente procede à partilha horizontal de rendas.

Ao reduzir para 4% as alíquotas das operações interestaduais subsequentes à importação de mercadorias, a resolução admitiu casuísticas exceções, à exemplo das mercadorias com conteúdo local superior à 40%, as sem similar nacional, as destinadas às indústrias de automação, informática e TV digital, as importadas pela Zona Franca de Manaus e o gás natural importado. A indeterminação dos conceitos e as extravagâncias dos requisitos estão promovendo um festival de liminares, sem falar das acumulações de créditos de dificílima liquidez.

Para os demais casos de guerra fiscal, foram propostas medidas que incluem um projeto de lei complementar (PLC) abrindo exceções ao requisito da unanimidade, a "uniformização" das alíquotas interestaduais do ICMS e a criação de fundos para compensar perdas dos entes federativos.

O PLC pretende sustar, até 31/12, a exigência da unanimidade nas decisões dos secretários da Fazenda, reduzindo o quorum para 3/5, para permitir a convalidação de benefícios concedidos ilegalmente, desconhecendo completamente a vedação constitucional de a União conceder isenções de tributos estaduais (art. 151, inciso III) e o requisito de aprovação por lei estadual específica que regule exclusivamente a matéria (art. 150, § 6.°). A regra, de resto, inviabilizará investimentos futuros, que não lograrão concorrer com empreendimentos incentivados.

O projeto de resolução visando a "uniformizar" as alíquotas interestaduais, em relação à matéria, é o mais complexo modelo já concebido pela mente humana. Afora o longo processo de redução das alíquotas, o projeto é pródigo em exceções: Zona Franca de Manaus, áreas de livre comércio, gás natural, transporte aéreo, produtos agropecuários, situações alcançadas pela malsinada Resolução n.° 13 e mercadorias sujeitas a um enigmático "processo produtivo básico" a ser aprovado pela União (sic). Assim, as duas alíquotas atuais se converterão em várias, a pretexto de "uniformização"!

Isso posto, a guerra fiscal continuará, por ausência de sanções legais, a tributação ficará mais complexa e mais créditos se acumularão. Ao contribuinte restará pagar uma conta superior a R$ 400 bilhões a serem destinados aos fundos compensatórios nos próximos 20 anos. A despeito das evidências, sou cético quanto à possibilidade de elaborar-se algo pior.

quarta-feira, maio 29, 2013

Muito barulho por pouco Josef Barat

Muito barulho por pouco

Josef Barat - O Estado de São Paulo 25/5/13

À semelhança da peça de Shakespeare, a discussão da Medida Provisória (MP) 595-A, que visa a disciplinar a exploração direta e indireta de portos e instalações portuárias, teve muita conversa e muitas idas e vindas. Parlamentares esgrimiram com palavras (nem sempre elegantes) para, ao fim e ao cabo, aprová-la com muito barulho por pouco.
Na verdade, houve alguns avanços na concepção do novo marco regulador. Primeiro, a possibilidade de os terminais privados situados fora dos chamados portos públicos operarem cargas de terceiros. Outra inovação: liberar os portos privados de contratar trabalhadores sem a vinculação aos Órgãos Gestores de Mão de Obra dos portos públicos, que monopolizam a contratação. Tais medidas removem obstáculos que inibiam investidores e operadores portuários privados de implantar novos terminais e ampliar escalas de operações. O aumento da oferta de serviços portuários e um ambiente de maior competição reduzem significativamente os custos das operações. Isso significa, por fim, maior competitividade das exportações brasileiras e redução dos altos custos do abastecimento do mercado interno. Mas, ao remover obstáculos aos portos privados, como lidar com os portos públicos?
Como se sabe, o processo de concessões, a partir das reformulações introduzidas pela Lei n.º 8.630/93, optou por fragmentar as concessões nos sítios portuários, contemplando as operações por tipos de cargas. Ou seja, não foram feitas concessões para o sítio portuário como um todo. Com prazos diferentes de concessão, operações especializadas e frágeis gestões do porto em seu conjunto - herança do jogo político partidário da gestão estatal -, o sítio portuário passou a ser palco de recorrentes conflitos de interesse. Conflitos que ficaram patentes nas discussões no Congresso, onde grupos de parlamentares se entrincheiraram em frentes de defesa de interesses fragmentados nos sítios portuários.
Nesses embates, perdeu-se a chance de encaminhar soluções mais abrangentes e efetivas para os portos públicos, que sofrem de deficiências históricas e crônicas em termos de layout das instalações e interfaces com ferrovias e rodovias. São deficiências que comprometem o funcionamento dos portos e encarecem as operações.
Alguns aspectos exaustivamente mostrados pela mídia se sobressaem, como o longo tempo de espera de caminhões e trens para entrar no sítio portuário e a crônica incompatibilidade entre as infraestruturas de transporte terrestre e as de acesso ao porto. São recorrentes os congestionamentos de caminhões nas rodovias em períodos de escoamento de safras, bem como a utilização de vagões ferroviários para estocagem nas longas esperas.
Outro fator restritivo da produtividade dos portos é o longo tempo de rotatividade de caminhões e vagões ferroviários nas operações de transferência de cargas e contêineres. Restritiva também é a carência de áreas de retroporto que possam regular os fluxos terrestres, reduzindo os congestionamentos no sítio portuário. Por fim, cabe lembrar as frequentes deficiências nos canais de acesso por falta de dragagem, o que limita consideravelmente o acesso de navios e a competitividade dos portos.
Há ainda um longo caminho a percorrer para os portos do País ingressarem no século 21. O mais importante é introduzir modelos de gestão mais coordenados e reduzir a fragmentação das concessões portuárias. Grandes complexos portuários não são mais meros polos de carga e descarga de navios, mas elos cruciais de complexas cadeias de suprimento em escala mundial. A competitividade de um porto depende cada vez mais de atores exógenos à gestão portuária e ganharam importância novos fatores de gestão de custos em ambiente competitivo. Os portos tornaram-se empreendimentos comerciais, com gestão altamente profissionalizada e forte influência no desenvolvimento regional. Melhor afinar o barulho com esta realidade.
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Josef Barat – Economista, consultor de entidades públicas e privadas, é Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo.




quarta-feira, maio 22, 2013

Compra de tempo- CELSO MING

 O Estado de S.Paulo
Desta vez, a divulgação do recorde de contratações de pessoal ficou menos importante do que o movimento da presidente da República. Ela antecipou em um dia a divulgação dos resultados e deu-lhes boa turbinada política, pois os números não foram tudo isso que sugeriu: as 197 mil contratações no mês passado perfizeram o pior mês de abril desde 2009.
Em todo o caso, o comportamento do emprego é o único indicador econômico que o governo se permite comemorar. Não consegue entregar um pujante crescimento econômico porque os pibinhos vão se sucedendo. Também não é capaz de apresentar a inflação na meta, porque a pressão do consumo está mais forte do que a capacidade de oferta da economia. Não pode manter a desvalorização da moeda nacional (alta do dólar) para melhorar a competitividade do setor produtivo em relação aos produtos importados, porque a inflação vai comendo o câmbio real. Não conseguiu continuar a derrubada dos juros básicos (Selic) "para níveis civilizados", porque foi necessário tirar dinheiro do mercado (alta dos juros) para combater a inflação. Enfrenta a virada para o vermelho das contas externas. E ainda não pode sustentar o superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) combinado, de 3,1% do PIB, ou cerca de R$ 155,9 bilhões, porque o jogo político puxa por mais despesas.
Mas há esse recorde do mercado de trabalho que aponta para um desemprego de apenas 5,7% e para a contratação formal (com carteira de trabalho assinada) de 1,9 milhão de brasileiros no período de 12 meses terminado em abril, como mostra o último relatório do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
No entanto, não dá para argumentar que esse resultado seja uma grande vitória. Há meses, o Banco Central vem advertindo em documentos e nas manifestações dos seus dirigentes que o mercado de trabalho está excessivamente aquecido, que os salários estão crescendo substancialmente mais do que o aumento da produtividade e que esse é fator importante de inflação e de aumento de custos da indústria.
Assim, a estratégia da presidente Dilma vai ficando clara. Uma correção firme de rumos da economia exigiria muita energia política, de alto risco para a corrida presidencial de 2014. Não saíram nem mesmo as minirreformas no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em que o governo se empenhou e tratou de empurrar para 2015, como ainda ontem avisou o líder do governo na Câmara, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP).
O governo já está colocando em prática a estratégia de comprar tempo, de valorizar o quanto pode os aspectos positivos da administração e de contar com que o espírito da Copa do Mundo ajude a desviar as atenções e a amortecer descontentamentos.
Como não tem discurso e não vem conseguindo apresentar opção melhor, a oposição contribui para o sucesso da nova fase do governo.

Democracia é educação ROBERTO DAMATTA


- O Estado de S.Paulo

Todo mundo fala em democracia e educação, sem perceber que as palavras têm conotações especiais. No Brasil, a palavra educação não significa somente instrução, mas polidez, calma e delicadeza. O "mal-educado" ou o "ignorante" não é quem não tem saber, mas é o "grosseirão" inclinado ao gesto brusco ou à violência. O "bem-educado" é aquele que - calado consciente e superior - espera a sua vez.
Fazemos uma clara distinção entre o "bem" e o "mal-educado": o fino, o grosso, o sensível e o boçal. Essa representação enlaça o par "educação e democracia". Pois a voz do povo mostra uma dualidade hierárquica. No plano superior, ficam os "bem-educados" (gente instruída e fina). No inferior, estão não apenas os não instruídos, mas os mal-educados. Embaraçamos a ignorância definidora do não saber com a grosseria - esse avatar atribuído aos afoitos e, por extensão preconceituosa, aos subalternos. Seria isso um resíduo explosivo de um passado que combinou numa equação rara, aristocracia branca e escravidão negra?
Imagine o seguinte. Numa festa, chega a cascata de camarões. Os "mal-educados" avançam sobre os deliciosos crustáceos e dão conta do prato. Atropelando a fila, locupletam-se e - porque são "mal-educados" - "pegam" o que podem para seus maridos e filhinhos. Os "bem-educados" olham a cena com o horror dos semissuperiores, confirmando como a sua boa "educação" - que segue princípios igualitários gerais, como o de esperar pelo seu turno, impede tal conduta. Eles confirmam sua "polidez", mas verificam que não comendo os deliciosos camarões são bobocas ou babacas porque simplesmente deixam passar uma oportunidade que era de todos, mas que foi aproveitada pelos mais espertos: os "mal-educados!".
Moral: o conceito de "educação" tem que ser entendido dentro de um sistema sócio-histórico para poder ser aplicado com eficiência. Um dos problemas das escolas públicas numa sociedade com uma concepção hierárquica de educação é que o ensino pode ser bom, mas o ambiente seria marcado pela "má-educação" (significando ausência de "boas maneiras") dos alunos. Sem perceber que, entre nós, a "educação" vai além da instrução, nada fizemos para introduzir uma "educação para a igualdade" e para uma cidadania sem favores e sem os usuais "você sabe com quem está falando?".
No Brasil, uma definição igualitária de educação como um instrumento universal de saberes, é filtrada. Há um toque de superioridade no "ser educado" que aristocratiza paradoxalmente o processo, tornando-o exclusivo. Neste sistema, a instrução seria distinta da "boa educação". Um engenheiro pode ser competente, mas mal-educado. E isso pode fazer com que prédios e pontes sejam construídos por linhas tortas.
Não pode haver projeto real de democracia igualitária, fundada no liberalismo meritocrático e competitivo, sem um sistema educacional universal que busque a todo custo atingir a todos.
Mas como realizar isso sem abrir o embrulho das ideias preconcebidas sobre "educação"? Como, então, reformar esse sistema, tornando-o uma força de internalização de igualdade e de democracia? Convenhamos que para o antropólogo de Marte que escreve essa coluna, isso não deve ser fácil em escolas nas quais as crianças tratam seus mestres por "tias". Ora, o primeiro espaço público que todos experimentamos de modo profundo é justamente o da escola. O drama que testemunhei no rito de passagem do "primeiro dia de aula" dos meus filhos e netos, fala eloquentemente dessa transição dos papéis desempenhados na casa, na qual se é "filho", "sobrinho" e "netinho"; para o papel de "alunos" sem nenhum privilégio, exceto - é claro - quando a "boa educação" interfere, fazendo com que seus mestres os tratem como "sobrinhos", interrompendo uma mudança crítica.
"Ele é filho do ministro" -, disse a professora. Não vai entrar na fila da merenda junto com os outros. Ademais, ele traz a merenda de casa!"
Esse diálogo mostra como uma educação para a igualdade é muito diversa de uma educação para as boas maneiras. Do mesmo modo, e pela mesma lógica, quando se observa os poderes da república tentando uma hierarquia na qual o Executivo seria o mais importante e o Judiciário estaria submetido ao Legislativo, vê-se uma recusa da educação. Da educação como um sistema destinado a estabelecer para cada poder limites e papéis autoimpostos. Essa capacidade de conter-se voluntariamente dizendo não a si mesmo. Esse apanágio do liberalismo que começamos a descobrir lentamente, como insiste o meu lado otimista. Por isso, democracia não depende apenas de educação, como se diz a todo momento. Ela é, sobretudo, um processo penoso de aceitar discordâncias. Democracia é educação.

Por ação ou omissão - Dora Kramer


Paira entre os ministros do Supremo Tribunal Federal a sombra de uma dúvida sobre a demora na indicação do substituto de Carlos Ayres Britto, aposentado há mais de seis meses.

Estaria a presidente Dilma Rousseff consciente de que a conclusão do julgamento do mensalão com a Corte incompleta pode beneficiar os condenados e, com isso, se caracterizar uma interferência de fato do Poder Executivo em decisão judicial?

Há, no tribunal, consenso de que é razoável que um presidente da República leve tempo para fazer a melhor escolha. Um relativo atraso, portanto, é considerado aceitável. O ministro Luiz Fux levou 195 dias para ser indicado e Eros Grau, quase oito meses. O que se tem questionado é o atraso que pode vir a ser excessivo e, sobretudo, prejudicial ao andamento dos trabalhos da Corte. A preocupação não diz respeito só ao mensalão, mas também à paralisia em outras decisões do STF.

As questões relativas ao controle de constitucionalidade, por exemplo, só têm efeito vinculante, só produzem a chamada "eficácia geral" quando decididas por maioria dos integrantes da Corte. Semana passada mesmo, um julgamento dessa natureza foi suspenso porque houve empate e o colegiado resolveu esperar a indicação do novo ministro devido à impossibilidade de o presidente dar o voto de Minerva.

Em matéria criminal, como é o caso do mensalão, o empate favorece os réus, conforme visto na absolvição de alguns deles cujas sentenças receberam cinco votos pela condenação e cinco pela inocência.

Na fase do exame dos embargos infringentes - recurso da defesa dos réus que obtiveram pelo menos quatro votos contrários à condenação - a situação poderá de novo se apresentar, caso o STF aceite examinar esse tipo de embargo.

Se a Corte até lá estiver com sua composição de 11 ministros completa, tanto pode haver a confirmação das sentenças como pode ocorrer que algum deles mude seu voto ou os dois que não participaram do julgamento (Teori Zavascki e o novo indicado) votem de modo a alterar o resultado.

Não é a possível mudança das penas que provoca inquietação no STF, mas a configuração de uma interferência - ainda que por inércia - do Planalto ao manter artificialmente o tribunal em situação de empate e, com isso, induzir a um resultado. Não é à toa nem por acaso que o colegiado tem número ímpar.

Esse tipo de omissão não é bem vista no Supremo, onde circula indagação sobre qual a diretriz que orienta a presidente Dilma em postergar a indicação. Estará ela agindo voluntária ou involuntariamente? Consciente ou inconscientemente?

Nua e crua. O presidente do Supremo disse que os partidos no Brasil não têm nitidez ideológica nem programática. Não guardam relação de identidade com o eleitor, não são por ele reconhecidos como representantes de correntes de pensamento. Verdade.

Joaquim Barbosa afirmou que a maioria dos projetos de lei não é iniciativa do Poder Legislativo, cuja submissão ao Executivo expressa sua debilidade. Verdade.

O ministro declarou em palestra aos alunos do Instituto de Educação Superior de Brasília que há problemas graves no sistema representativo brasileiro. Verdade.

Foi alvo de reação indignada no Congresso e, segundo alguns parlamentares, as palavras de Barbosa não contribuem para o "fortalecimento das instituições". Questionável.

É de se perguntar se negar a realidade contribui de alguma forma. Não seria de se esperar que o Parlamento reagisse de outra maneira. Até porque aceitar o que foi mais que uma crítica (uma constatação óbvia de conteúdo inquestionável) obrigaria suas excelências a sair da defensiva e partir para uma ofensiva de reconstrução do sistema político, partidário e eleitoral do País.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Tucano não aprende a cuspir no 'burrai' - José Nêumanne *



O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fundado a partir de uma dissidência paulista do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), foi embalado num berço socialista light, intelectualizado e grã-fino do "partido-ônibus" (em que sempre tem lugar para mais um) que comandou a resistência de dissidentes civis à ditadura militar. É, por isso, um mostrengo disforme, com uma cabeça imensa e pequenos pés de barro, incapazes de suportar a egolatria da cúpula. Diz-se, com razão, que tem caciques demais e índios de menos. Chefões destacam-se circunstancialmente: Fernando Henrique na Presidência da República, José Serra no repeteco de disputas eleitorais nacionais, estaduais e municipais em São Paulo.

Agora chegou a vez de Aécio Neves, presidente nacional, ex-governador bem-sucedido administrativa e eleitoralmente num Estado importante da Federação, Minas Gerais, senador e pule de dez para tentar tirar da chefia do governo a presidente petista, Dilma Rousseff. A seu favor conta com boa reputação como gestor em Minas, as vitórias sucessivas para o governo de seu Estado e a aliança bem-sucedida no comando da prefeitura da capital, Belo Horizonte, com um aliado eventual que pode virar adversário na mesma disputa: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, senhor de baraço e cutelo do Partido Socialista Brasileiro (PSB), herdado do avô, Miguel Arraes.

Mas contra ele pesa sua inexpressiva atuação no Senado em dois anos e meio, em que muito pouco fez ou disse - de prático mesmo, absolutamente nada E há óbices maiores para realizar sua ambição. O partido que preside nunca foi nem está unido na luta por esse objetivo. O aliado Democratas (DEM) desmilinguiu, espremido pela ambição de um antigo militante de peso, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que levou para o Partido Social Democrata (PSD), que fundou, um número relevante de antigos correligionários dispostos a beijar a mão de Dilma.

Aécio assumiu o lugar a que não conseguiu chegar há quatro anos, quando perdeu a indicação para o ex-governador paulista José Serra. Seu avô, Tancredo Neves, ensinou que ninguém tem condições de disputar a Presidência se não unir o Estado de origem - e isso ele fez. Mas o mesmo não se pode dizer do PSDB. Aécio chegou prometendo resgatar o legado de Fernando Henrique, o único presidente que o partido teve e que ganhou as duas disputas de que participou no primeiro turno. Isso nunca foi levado em conta. Nem o fato de o tucano ter promovido a maior revolução social da História, com o Plano Real, que pôs fim à inflação e levou proteína à mesa da massa dos trabalhadores.

Isso de nada adiantou para a sonhada permanência do PSDB no poder. Fernando Henrique cruzou os braços na campanha de 2002, deixando Lula esmigalhar o sonho do tucano José Serra. Este, por sua vez, fez uma campanha como se o tal legado, que agora Aécio quer restaurar, fosse algo de que se envergonhar. Quatro anos depois, Lula reelegeu-se contra o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que chegou a vestir uma camiseta da Petrobrás para garantir que era mentiroso o boato de que privatizaria a maior estatal brasileira. Com isso passou ao eleitorado a mensagem de que a cúpula tucana tinha a privatização de Fernando Henrique na conta de titica. Na disputa contra Dilma, em 2010, Serra continuou cuspindo e pisando no melhor que o partido fizera.

Após 12 anos, tentar reabilitar a estabilidade, a austeridade fiscal e a privatização pode ser tarde demais. Até a estabilidade da moeda, uma conquista da Nação, e não de governo algum, parece ser um dado do passado distante, sob a ameaça da volta da inflação sem prejudicar os artífices desse prenúncio de desastre. Além disso, é inútil: o passado não elegerá Aécio. E ele não fala do futuro, que de fato interessa ao eleitor.

De tanto perder para Lula, o PSDB resolveu reagir a esse destino, que parece manifesto, imitando o que o maior adversário faz. Alckmin sugeriu que Aécio repita as caravanas da cidadania do petista-mor como estratégia eleitoral. A intenção é maravilhosa: há muito tempo os tucanos precisam mesmo de um banho de povo. A prática pode não ser, contudo, eficaz. Não basta visitar alguém para conhecê-lo bem. Como dizia um sábio conterrâneo de Tancredo e Aécio, o coronel Francisco Cambraia de Campos, Chichico Cambraia, de Oliveira, o bom político se conhece na cuspida no "burrai". Ou seja, tem de entrar na casa do eleitor, sentar-se à beira do fogo, tomar um café demorado até esfriar e cuspir no borralho. Quanto mais cusparadas, melhor! Não basta o candidato se fazer conhecer. Ele tem de conhecer o eleitor.

Luiz Inácio Lula da Silva voltou de suas caravanas conhecido e conhecedor do Brasil. Elas lhe permitiram aprender com suas derrotas seguidas, uma para Fernando Collor e duas para Fernando Henrique. Os tucanos não têm demonstrado a mesma capacidade. Talvez fosse menos difícil convencer o adversário-mor a disputar a Presidência pelo PSDB do que tirar proveito das estratégias contra ele próprio e sua afilhada.

Ora, direis, isso é impossível! E é. Mas quem garante ser mais possível convencer o cacique José Serra a se empenhar para valer na campanha de Aécio, que nada fez por ele na disputa contra Dilma? Os sinais de má vontade que Serra tem dado de público deverão repetir-se na campanha. Pois o paulista atribui em parte sua derrota ao desinteresse do mineiro em 2010. Não deixa de ter razão. Mas não tirará proveito dela, pois seu futuro depende do êxito do outro. E se a economia não derreter, Dilma se reelegerá com facilidade, restando aos tucanos parodiar o mantra dos metalúrgicos do ABC, liderados por Lula, nos anos 70 e 80. Eles diziam: "O povo unido jamais será vencido". E os tucanos entoarão: "O PSDB desunido será sempre vencido".

* José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

Fonte: O Estado de S. Paulo

A Síndrome da Reivindicação Sucessiva - Elio Gaspari


O Globo

A Síndrome da Reivindicação Sucessiva é um ardil usado por quem não quer fazer uma coisa e argumenta que não é contrário à ideia, mas ela deve depender de algo, sem o quê, será inócua ou contraproducente.
Dois exemplos:
1 — A corrupção política só acabará quando houver uma reforma, criando-se o financiamento público de campanha.
Falso. O que inibirá com a corrupção será a ida dos larápios para a cadeia, e é isso que os defensores do financiamento público, inclusive Lula, querem impedir.
2 — A contratação de médicos estrangeiros por tempo determinado para trabalhar em áreas onde não há esses profissionais só fará sentido quando se rediscutir o sistema de financiamento da saúde ou o plano de carreira do SUS.
Falso. Hoje, dois terços dos 288 mil médicos estão nas regiões Sul e Sudeste. Só 13% deles clinicam em municípios com menos de 50 mil habitantes, onde vivem 64 milhões de pessoas. Em 397 municípios não há médico algum. É direito de qualquer cidadão trabalhar onde bem entende, mas barrar o acesso de outro profissional que aceita ir para um lugar que não lhe interessa é bem outra coisa.
O ardil destina-se a congelar uma situação na qual os médicos estabelecidos têm no Brasil uma reserva de mercado e transformam concorrência em vírus. O andar de cima dos pequenos municípios trata-se em outra cidade, ou em São Paulo. O peão, dana-se, ou vai ao curandeiro.
Se três médicos cubanos, marcianos ou espanhóis chegarem a um município pobre para uma permanência de três anos, qual dano ameaçará a população?
A reivindicação sucessiva é sempre impecável. Lei do Ventre Livre? Enquanto não houvesse creches seria a “Lei de Herodes”.
Lei dos Sexagenários? Sem asilo para os negros forros, uma crueldade.
Cotas nas universidades públicas? O que se precisa é melhorar o ensino médio.
Voto para o analfabeto? É obrigação do Estado alfabetizá-los. Até lá, que esperem.
(Não custa lembrar que os generais de 1964 achavam isso e, em 1969, quando decidiram escolher um presidente da República, meteram-se numa enrascada, pois se o voto de um analfabeto não vale o de um coronel, o de um general que comandava uma mesa não valia o de um colega que tinha tropa).
Os municípios sem médico também são pobres de renda. Em março a doutora Dilma torrou R$ 325 mil em três dias de hotelaria romana, noves fora o AeroLula. Esse dinheiro equivale a algumas semanas da receita de muitos municípios sem médico.
A nobiliarquia mobilizou-se contra a ideia dos médicos estrangeiros com uma declaração retumbante do Conselho Federal de Medicina: “Não admitimos uma medicina de segunda para os mais carentes. Até porque quem está no governo, quando adoece, vai para hospitais de primeira linha”.
Falta explicar que tipo de medicina existe num município sem médico. Ademais, admite sim, porque nenhum doutor reclamou quando Lula, feliz paciente do Hospital Sírio-Libanês, resolveu se garantir passando no médium João de Deus, em Abadiânia. Com seus poderes, ele faz cirurgias e já atendeu nove milhões de pacientes.
O que diriam os doutores se o Ministério da saúde quisesse atrair curandeiros? João de Deus talvez ficasse a favor.

sexta-feira, maio 17, 2013

CELSO MING Deixa rolar

CELSO MING - O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou ontem a garantir que a inflação está em queda e que vai continuar caindo.

É uma declaração que, em parte, tem a função de ajudar a varrer o surto de pessimismo que tomou o País, como neblina que envolve um pedaço de serra. Toda autoridade tem o dever de influenciar positivamente as expectativas para melhorar a eficácia das políticas adotadas, embora nem sempre faça isso com suficiente habilidade. Desse ponto de vista, a declaração do ministro cumpre função importante.

Mas há um lado nessa declaração que precisa de reparo. Quando insiste em que a inflação vai cair, Mantega também repisa ponto de vista equivocado do governo Dilma: o de que não é preciso fazer nada para combater a inflação. É deixar rolar, que logo passa. Por trás dessa afirmação está o diagnóstico de que a maior parte da inflação foi provocada por choques de oferta, como enxurrada, que vai diminuindo logo depois que o aguaceiro deixa de cair.

Não se pode negar que há considerável pedaço da inflação provocado por choque de oferta, ou seja, gerado pela quebra acentuada da oferta da mercadoria, seja qual for a razão. Isso vale para a inflação do tomate (de 150%, no período de 12 meses terminado em abril), da farinha de mandioca (146%), da batata inglesa (124%) e da cebola (62%). Nesses casos, a própria alta de preços incentiva o produtor a plantar e a normalizar a oferta. Contra esse impacto, nem o Banco Central nem o governo federal têm muito o que fazer, a não ser acionar, quando possível, estoques reguladores ou importações.

O problema é que outra boa parcela da inflação, que em abril atingia a marca de 6,49% (em 12 meses), não tem a ver com choque de oferta, mas com elevação da demanda desproporcional à capacidade de oferta. Para atacar esse foco, o governo e o Banco Central têm muito o que fazer. A inflação de serviços, por exemplo, que teima em ficar acima de 8% ao ano, é consequência disso. Outra indicação de inflação de demanda acima do normal é mostrada pelo índice de difusão, que aponta o quanto a alta de preços está espalhada na economia. Em abril, o índice de difusão alcançava 65,8% dos itens que compõem a cesta do custo de vida.

O esticão de demanda é proporcionado por dois principais fatores: pela gastança do governo, substancialmente além do previsto; e pelo aquecimento excessivo do mercado de trabalho, que cria renda acima do aumento de produtividade da economia.

Contra esse foco de inflação há dois antídotos relevantes: mais disciplina fiscal (contenção das despesas públicas) e redução do volume de dinheiro no mercado financeiro (alta dos juros). Quanto mais o governo cortar gastos, menos o Banco Central terá de diminuir a ração de dinheiro no mercado, ou seja, menos terá de subir os juros.

Infelizmente, o que se vê no governo é a propensão a gastar, tanto mais quanto mais esquentar o clima das eleições. Nessas condições, ou o Banco Central puxa pelos juros, ou a inflação será realimentada, apesar das afirmações em contrário do ministro.

domingo, maio 12, 2013

Maradona como metáfora argentina

Maradona como metáfora argentina

¿Hay alguna relación entre el futbolista y el peronismo? Sí, cuando se eligen entrenadores,
presidentes o sistemas de características populistas, autoritarias y con pocos pies sobre la
tierra, el resultado es el fracaso

JOHN CARLIN Y CARLOS PIERINI 05/10/2010 , El Pais , Esp.

Se dice con frecuencia que la solución a los problemas de la África subsahariana es la
educación; que los recursos naturales abundan y si solo se pudiera proporcionar un buen
nivel educativo a la gente el continente despegaría. No necesariamente. Miren el caso
de Argentina. Todos los recursos naturales que quieran, una bajísima densidad de
población y, a lo largo de la mayor parte del siglo XX, índices escolares que no han
tenido nada que envidiar a Europa occidental. Pero hoy, en un país que hace 100 años
era uno de los 10 más ricos del mundo, la tercera parte de los recién nacidos están
condenados a crecer en la pobreza, si es que logran crecer. Ocho niños menores de
cinco años mueren al día debido a la desnutrición en un país que debería ser, como hace
tiempo fue, el granero del mundo. Semejante aberración florece en un contexto político
en el que a lo largo de más de medio siglo juntas militares han alternado el poder con
Gobiernos populistas, corruptos o incompetentes. El actual Gobierno peronista de la
presidenta Cristina Fernández de Kirchner (como el anterior, de su marido Néstor
Kirchner) es más afín al de Hugo Chávez en Venezuela o al de Daniel Ortega en
Nicaragua que a los Gobiernos pragmáticos y serios de Brasil, Chile o el vecino
Uruguay donde, por cierto, hoy se consume más carne per cápita que en Argentina.
¿Dónde ha quedado la famosa Justicia Social proclamada hasta el cansancio por el
peronismo que ha gobernado la mayor parte del período democrático instaurado en
1983? ¿Cuál es el problema?

Maradona

A FONDO

Nacimiento:
30-10-1960
Lugar: Villa Florito

El punto de partida es la negación de la realidad. Este es el terreno en el que opera
Maradona

El problema es Diego Maradona. O, para ser más precisos, lo encarna, como símbolo,
Maradona, el "Diez", "el Dios Argentino", el ídolo nacional por goleada. La idolatría
a los líderes redentores, el culto a la viveza y (su hermano gemelo) el desprecio por la
ética del trabajo, el narcisismo, la fe en las soluciones mágicas, el impulso a exculparse
achacando los males a otros, el fantochismo son características que no definen a todos
los argentinos, pero que Maradona representa en caricatura payasesca y que la mayoría
de la población, aquella misma incapaz de perder la fe en el peronismo, aplaude no con
risas sino con perversa seriedad. El punto de partida es la negación de la realidad. Este
es el terreno en el que opera Maradona y en el que su legión de devotos se adentra -

como por ejemplo los 20.000 que fueron al aeropuerto de Ezeiza para darle las gracias
tras la desastrosa actuación en el Mundial de Sudáfrica- para adorarle.

Esos mismos que disfrutaban como locos con las grotescas actitudes y dichos del ídolo
-"¡que la chupen!"- fueron en manada a vitorearlo al llegar a Buenos Aires después de
la goleada de 4-0 que Alemania le propinó, expulsando a su selección del Mundial.
Presos de la nostalgia, no olvidan nunca que "ÉL" hizo el famoso gol con la "mano
de Dios"; o sea que su mano y la mano de Dios son la misma mano. "EL" es uno
con "DIOS". La manada entonces, mientras grita para adentro, "¡Si estamos unidos a
Dios Maradona compartiremos toda su gloria!", grita para afuera: Maradooooooona,
Maradooooooona. Y no olvidemos el dicho nacional, al mismo tiempo jocoso y lleno de
convicción, "¡Dios es argentino!".

Diego Maradona fue un monumental jugador de fútbol. Pero la fama justificada no da
títulos, ni derechos, ni conocimientos para opinar con absoluta certeza acerca de casi
todo y al mismo tiempo desautorizar a todo aquel que no esté de acuerdo con sus ideas.
En Argentina, mientras avergonzaba a algunos, hacía gritar de entusiasmo a muchos
más. Creían, orgullosos, que unidos al " ídolo" todo el mundo "se la chupaba". En
realidad el que se ha chupado todo, desde alcohol hasta cocaína, ha sido Maradona.
Nadie lo acusa ni lo maltrata por su triste enfermedad. Solo se trata de señalar su
soberbia desconsiderada, de carácter profundamente narcisista, base de sus penosas
afecciones del alma, metáfora de la patología crónica de un país.

Hace 15 días Maradona dio su primera entrevista desde la debacle de Sudáfrica. El ex
director técnico de la selección argentina, al que se le oyó diciendo minutos antes de
aquel partido que su equipo iba a dar una lección de fútbol a los alemanes, no ofreció
ni análisis, ni explicación por la derrota, salvo decir que el portero alemán estuvo "muy
seguro" y después del 2-0 "nos vinimos abajo". Con un poco de suerte (la magia de la
suerte lo abandonó, ¿el otro Dios estaba en su contra?) el partido se hubiera ganado.
Culpa por el desastre no aceptó ninguna.

En cuanto a la victoria argentina 4-1 el mes pasado contra el campeón del mundo,
España, bajo el mando de un nuevo seleccionador, confesó que prefirió no ver el
partido. Claro. Porque ver aquel partido hubiera significado chocarse con la realidad y
arriesgar salir del autoengaño enfermizo que le permitió afirmar en la misma entrevista
que -avalado por el ex presidente Néstor Kirchner, que en una reunión la semana
pasada le "felicitó" por el Mundial- él seguía siendo el candidato idóneo para dirigir la
selección. "Daría la vida", dijo, "daría un brazo" por recuperar el puesto.

El fracaso de Maradona en el Mundial fue el espejo del fracaso de Argentina como país.
Por un lado, una falta de rigor y humildad en la planificación; por otro, un derroche
de los recursos disponibles. Talento sobraba, salvo que por amiguismo, ceguera,
populismo patriotero o sencilla idiotez Maradona decidió no convocar a la mitad de
los mejores; no solo no explotó los recursos que tenía, no los quiso ni ver. El nuevo
seleccionador, Sergio Batista, puso en el campo contra España a cuatro jugadores
básicos que Maradona ni siquiera había convocado para Sudáfrica y lo que se vio fue un
equipo sólido que hubiera sabido competir contra Alemania, como contra cualquiera en
el Mundial. Es decir, el sentido común existe en Argentina; solo que demasiadas veces,
obliterado por la luz maradoniana, brilla por su ausencia.

En el sistema maradoniano solamente brilla la ilusión. Dentro de este sistema de
pensamiento las cosas terminan no teniendo ni pies ni cabeza. Resultado: fracaso en
la vida y arrastrando en el fracaso, en este caso, a la selección argentina, pero también
se puede arrastrar a toda una nación. Recorriendo la historia del siglo XX sabemos la
potencia destructiva de la ilusión cuando no es contrabalanceada por la realidad terrenal,
nunca tan agradable ella como los espejismos de la ficción.

Cuando llevados por la fantasía se eligen directores técnicos o presidentes o sistemas
de características populistas, autoritarios y antidemocráticos, con pocos pies sobre la
tierra, el resultado inevitable es el fracaso. Un director técnico que no tiene ni ha tenido
capacidad para manejar su vida, que además no es director técnico (por preparación) y
por lo tanto al titularse así toma las características de un impostor, tuvo como resultado
el descalabro de la selección argentina. Puede ocurrir nuevamente algo similar con la
Argentina misma si los directores técnicos, léase la pareja que lleva siete años en el
poder, siguen el camino compulsivamente repetitivo de la tergiversación permanente
de la realidad. El endiosamiento de seres Ídolos-Dioses a los que no se debe criticar,
como a Perón, Evita, Maradona, Cristina Fernández o Néstor Kirchner, intocables seres
sin errores, lleva al fracaso reiterativo y doloroso que arrastra a millones de argentinos
al sufrimiento. El granero del mundo se va convirtiendo en un país lleno además de
granos de pústulas creadas por el sistema: fracaso, pobreza, desnutrición, inseguridad,
criminalidad, destrucción de las instituciones, ataque permanente a la prensa opositora,
ataque a la ley, destrucción de la educación (eso también) y llegamos entonces a que la
fantasía de ser un pueblo "protegido" por los Dioses cae en una triste y ridícula realidad.

Las sociedades propensas a alimentar estas ilusiones, caen en la seducción hipnótica
de líderes de estas características. Son sociedades cerradas, como dice Karl Popper,
con un fuerte carácter autoritario, convicciones inamovibles y preponderancia al
pensamiento mágico. En estos casos el horizonte de expectativas está absolutamente
distorsionado por las ilusiones y las consecuencias se traducen en un sinnúmero de
fracasos compulsivamente repetitivos. Decía Albert Einstein que la locura era repetir lo
mismo una y otra vez, esperando diferentes resultados. Eso es lo que propone Maradona
al reafirmar su derecho a dirigir la selección de fútbol. Al apoyar su estrambótica
candidatura, los Kirchner, eso sí, están siendo consecuentes. Ellos también piden,
pese al fracaso mundialista de su gestión, como el de los regímenes peronistas que los
precedieron, que se prolongue su dinastía en las elecciones generales del año que viene.
Es probable que lo consigan. Sería la victoria del pensamiento mágico maradoniano,
sobre el que el sol de la bandera argentina nunca se pone.

John Carlin, periodista, vivió 10 años en Argentina; Carlos Pierini trabaja como
médico psicoanalista en Buenos Aires.

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