Entrevista:O Estado inteligente

domingo, dezembro 12, 2010

O menino que queria ser padre converteu-se ao PT e virou sacristão de missa negra-Augusto Nunes




O menino que queria ser padre converteu-se ao PT e virou sacristão de missa negra

Poucas ramificações da nação dos ressentidos são tão detestáveis quanto a tribo dos ex-radicais convertidos ao polo oposto. Há o ex-stalinista que exige a forca para todos os comunistas, o ex-padre que sonha com a incineração de todas as igrejas, o ex-fumante que não admite menos que a prisão perpétua para todos os tabagistas, o ex-alcoólatra que discursa em praça pública contra a presença de licor em bombom ─ e há o ex-seminarista que faz questão de cometer todos os pecados, do pecadilho da futrica aos sete pecados capitais. É o caso de Gilberto Carvalho.

Nascido em Londrina em janeiro de 1951, casado pela segunda vez, pai de cinco filhos, o secretário de Lula e futuro secretário-geral da Presidência da República saiu ao encontro de Deus aos 12 anos, quando se internou no seminário da Ordem dos Palotinos. Achou que estava no caminho certo aos 13, ao rezar pela derrubada do governo João Goulart na Marcha da Família com Deus pela Liberdade e ver suas preces prontamente atendidas pelos generais de 1964. A procura incluiu dois anos de reclusão voluntária (trajando batina de noviço), uma temporada num seminário em Curitiba e estudos de teologia.

Terminou em 1978, quando conheceu Lula, deu por encontrado o seu senhor, abdicou dos valores cristãos, converteu-se à seita do PT e passou a colecionar motivos para ser reprovado no Dia do Juízo Final. Os mais recentes estão na entrevista publicada pelo Estadão deste 4 de dezembro, que começa com o elogio da vassalagem. "Ele é duro, muito duro", disse com voz de coroinha culpado ao comentar o convívio com Lula. "Às vezes fico com pena dos ministros que recebem certos telefonemas dele. Fico com pena de mim mesmo. Acho que fui o cara que mais apanhou nestes oito anos aqui".

Pelo tom animado, Gilberto Carvalho acha que o suplício purifica, sobretudo quando infligido pessoalmente pelo salvador da pátria. De Lula ele sempre aceita tudo, do pito de sinhozinho à bronca de botequim. Sempre cumpriu com dedicação de jesuíta e discrição de comparsa todas as missões que lhe foram confiadas. No fim da entrevista, por exemplo, atendeu a outra encomenda do chefe que não esquece as duas derrotas no primeiro turno: ressuscitar uma das várias infâmias forjadas para vingar-se do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A chance para a execução do serviço sujo apareceu quando a conversa estacionou no escândalo do mensalão. "Lula quer fazer, fora da Presidência, uma análise detalhada do que foi, de fato, aquele processo", fantasiou. "Quando fala em farsa do mensalão é porque está convencido de que nunca foi dado dinheiro para alguém votar com o governo", preparou-se para o golpe baixo a mão miúda de avarento: "Lula sempre disse: 'Quem comprou voto foi Fernando Henrique na reeleição'".

A resposta de FHC, publicada nesta quarta-feira pelo Estadão e reproduzida pela seção Feira Livre, desmonta a farsa mais uma vez. Mas o texto é sublinhado pela elegância que um Gilberto Carvalho não merece. Fernando Henrique dispensou-se de escancarar ao menos um dos muitos itens sombrios do alentado prontuário. Poderia ter lembrado, por exemplo, que o entrevistado se tornou, em janeiro de  2001, secretário de Governo do prefeito de Santo André, e estava no cargo quando Celso Daniel foi assassinado um ano depois.

Há pouco mais de um mês, a denúncia do Ministério Público aceita pela juíza Ana Lúcia Xavier Goldman acusou o ex-seminarista de ter integrado a quadrilha que, acampada na prefeitura, tungou dos cofres públicos pelo menos R$ 5,3 milhões. "Gilberto Carvalho concorreu de qualquer maneira para a prática dos atos de improbidade administrativa na medida em que transportava o dinheiro (propina) arrecadado em Santo André para o Partido dos Trabalhadores", diz a denúncia, que o acusa de repassar o dinheiro a José Dirceu, então presidente do PT.

O secretário do presidente divide o banco dos réus com Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, acusado de mandante do assassinato de Celso Daniel, o ex-secretário de Transportes Klinger Luiz de Oliveira Souza e o empresário Ronan Maria Pinto."O valor arrecadado era encaminhado por Ronan ao requerido Sérgio e chegava, em parte, nas mãos de Gilberto Carvalho, que se incumbia de transportar os valores para o Partido dos Trabalhadores", sustenta a denúncia. "A responsabilidade de Klinger e Gilberto Carvalho decorre da sua participação efetiva na quadrilha e na destinação final dos recursos."

Somada às gravações das conversas em que os quadrilheiros procuram impedir o esclarecimento do assassinato de Celso Daniel, a denúncia confirma a real vocação de Gilberto Carvalho. O menino que queria ser padre, quem diria, virou sacristão de missa negra.


sábado, dezembro 04, 2010

Merval Pereira - Poder, real e aparente

O Globo

Então temos montado o novo “núcleo duro” do Palácio do Planalto, desta vez no primeiro (e talvez único?) governo Dilma Rousseff, apenas com petistas.

No primeiro governo de Lula, o núcleo duro era também formado só por petistas graúdos: José Dirceu, Palocci, Gushiken, Luiz Dulci, Gilberto Carvalho.

A crise do mensalão e outras subseqüentes varreram os três primeiros do mapa político ostensivo, foram substituídos pela própria Dilma, pelo então Ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos, e por Franklin Martins.

Hoje, pouca coisa mudou: Antonio Palocci está no Gabinete Civil; Gilberto Carvalho na Secretaria-Geral da Presidência; José Eduardo Cardozo na Justiça; Miriam Belchior no Planejamento e Guido Mantega na Fazenda.

Falta saber quem será o novo Ministro da Comunicação Social, se terá status de Ministro da Casa como tiveram os antecessores Luiz Gushiken e Franklin Martins.

O chefe da equipe de transição, na teoria, é o peemedebista Michel Temer, mas o PMDB não está conseguindo emplacar seus escolhidos sob seu comando, e a própria presidente eleita prefere negociar separadamente com o grupo do Senado a dar a força política que Temer reivindica para apresentar o grupo do PMDB em conjunto.

Pela enésima vez, entre a campanha eleitoral e o período imediatamente posterior à vitória nas urnas, o PMDB teve que impor sua presença na equipe principal, dominada pelos petistas, à base de discretas cotoveladas políticas.

Uma rebelião de deputados impediu o anúncio, ontem, do senador Edson Lobão para o Ministério das Minas e Energia, acertada entre a presidente os senadores peemedebistas.

Assim como intrigas palacianas, juntamente com fogo amigo do PMDB, mataram no nascedouro a indicação do governador Sérgio Cabral para o Ministério da Saúde.

O veto do secretário Sérgio Cortes, já conhecido como “Viúva Porcina”, a que enviuvou sem nunca ter casado, ao que tudo indica foi o troco que o governador Sérgio Cabral recebeu do próprio PMDB por ter vetado a nomeação do ex-governador Moreira Franco para o ministério.

Sua indiscrição também ajudou muito seus inimigos.

Mas o fato é que o PMDB, o maior partido político do país, e por isso mesmo escolhido para dar o candidato a vice-presidente, não foi ouvido nem cheirado na formação da equipe de transição, e muito menos agora, na formação do ministério.

A presidente Dilma já demonstrou que pretende agradar pontualmente seus aliados dentro do PMDB, sem dar ao vice Michel temer o status de interlocutor único, o que proporcionaria a ele um poder desmedido.

Mas Temer quer manter esse poder, até mesmo para impedir que o partido volte a se dividir, mas tudo indica que a orientação no governo é mesmo tentar estimular essas divisões internas, contentando parcelas do partido, alimentando ilusões de poder e o apetite pontual.

É uma tática arriscada, que pode ter conseqüências políticas desastrosas nas votações no Congresso.

O PMDB queria mais poder político real, e o PT está tentando tratá-lo como apenas um partido fisiológico da base, que se contenta com nacos do poder.

Pelo andar da carruagem vai ter que se contentar com isso, pois não demonstra ter unidade para uma ação conjunta de confrontação com o governo.

Mesmo o blocão montado dentro da Câmara com outros partidos aliados para pressionar não teve o respaldo do PMDB do Senado, que avisou que lá essa prática não prevaleceria.

Os senadores já se acertaram entre si, e a indicação de Lobão é o primeiro passo, além do consenso em torno da presidência da Casa, que deve ficar mesmo com Sarney novamente.

Os demais partidos da base aliada estão insatisfeitos, mas não ousam sair do barco sem saber que pedaço do butim do Estado lhes caberá.

Por enquanto o PT está demonstrando ter mais poder dentro do novo governo, o que já se imaginava. Mas o estranho é que a presidente eleita não está usando o PMDB para se contrabalançar às pressões do PT.

Ela está aceitando sem reclamar a influência de Lula e do seu partido de adoção. Mesmo por que aparentemente ela não tem grupo político que a siga e pelo qual ela possa se empenhar.

O único político ligado a ela, Fernando Pimentel, o é pela atuação na luta armada, anterior à existência do PT. Os dois encontraram-se no partido de Lula por acaso, pois Dilma antes de ser lulista, era brizolista.

Por mais que tenha alcançado a aparência de poder, o PMDB não chega nem perto do poder real, e terá que retirar por conta própria, pontualmente, fatias de poder para se contrapor ao petismo que parece que vai prevalecer, pelo menos na primeira etapa do governo Dilma.

A não ser que abra mão de um projeto de futuro para continuar sendo o que sempre foi, um partido periférico, que se contenta com o poder fisiológico.

A dureza que foi chegar a uma unidade partidária inédita que permitisse indicar Michel Temer para a vice-presidência da República terá agora que resistir ao teste da vida real, no qual aparentemente está sendo tragado pelo poder de fato que está se concentrando no comando do presidente Lula.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Cesar Maia POR QUE OS TRAFICANTES DO COMPLEXO DO ALEMÃO FUGIRAM?

Ex-Blog

1. Uma primeira pergunta é quanto ao número de traficantes que
controlavam ou estavam "exilados" no Complexo do Alemão (C.A.). As
forças militares e policiais no momento do cerco da semana passada
falavam em 500. A imprensa -antes disso- falava em 1.200. E blogs de
policiais e afins falavam em 2000. Fiquemos com 1.200. Muito difícil
passarem despercebidos após o cerco, com binóculos noturnos,
helicópteros, posicionamento em comunidades mais altas no entorno...

2. A polícia, nas últimas semanas, garantia que ali os traficantes
contavam com 500 fuzis. Afinal, seja pela entrada de UPPs, seja pela
entrada de milícias, os fuzis saltam para lá, junto com os
traficantes. A polícia diz ter encontrado 34 toneladas de maconha.
Mesmo que o peso inclua a embalagem, (trouxinha) e o peso seja a
metade, é uma grande quantidade. Mas uma quantidade dessas não há como
carregar, nem vale a pena pelo preço que o "matuto" consegue no
Paraguai. A quantidade de cocaína que a polícia informa ter apreendido
de 235 kg, é na verdade menos da metade disso, belo "batismo" que
recebe e a "endolação".

3. A menos que fuzis e cocaína estejam enterrados (e aí vale a pena
usar cães farejadores de classe A,  e detectores de metais de maior
sensibilidade), a saída dos -digamos- 1.200 traficantes, foi tranquila
para passar com tanta "carga".

4. A polícia fala de uma rede de esgotos em construção que teria sido
mais aberta por orientação dos traficantes. Bem, isso seria ter
previsão da invasão e cumplicidade da empreiteira. As canalizações que
estão em construção no Complexo, cujas obras começaram a fins de 2007,
são na Grota e Nova Brasília, que dão na Estrada do Itararé, ponto
básico da concentração.

5. A outra hipótese, levantada pela imprensa, é que tenha ocorrido
cumplicidade da polícia. Bem, pode ser para uns 10 chefetes, mas para
500 ou 1.200 não há como. Os "2 ou 3 traficantes" presos, segundo
policiais, estavam fora do "movimento", pois eram carta marcada. Não
foram presos: se entregaram. Um deles com ajuda da mãe.

6. Mas há uma terceira hipótese. O Exército e a Polícia Federal mantêm
estas comunidades mapeadas e acompanhadas. Se tudo o que se dizia do
'comando vermelho' no C.A. era verdade, o Exército e a Polícia Federal
sabiam que o confronto produziria um banho de sangue, provavelmente
maior entre os moradores (civis). Os traficantes não têm apego à vida
e, se estivessem cercados de verdade, e com 500 fuzis, iriam atirar
também na população para inibir a ação das forças militares e
policiais.

7. Como seriam as manchetes da imprensa no dia seguinte, no Brasil e
no Mundo com 500 moradores inocentes mortos e outros 500 baleados?

8. Portanto, há também a hipótese de que a hora limite dada pelas
forças militares não era para se entregar, mas para se escapar.
Afinal, é assim na UPP. E se vale a lógica da UPP (o C.A. será uma
UPP, segundo o governador), nada tão coerente que priorizar o controle
do território, e eliminar os riscos de uma tragédia civil.

9. Dizem os manuais da polícia: poupar a vida de um civil é mais
importante que prender um bandido. Pode ser que tenha sido essa
lógica. Claro, que não se pode e não se deve admitir. Mas quem estaria
contra a aplicação desta lógica?

Merval Pereira - Cobiça

O Gobo

Mais uma vez o Congresso foi palco de lamentáveis demonstrações de cobiça na aprovação, na noite de terça-feira, do projeto que redefine a distribuição dos royalties do petróleo, prevalecendo no plenário a proposta do senador Pedro Simon que distribui os royalties a estados e municípios tanto do pré-sal quanto do pós-sal pela proporção do Fundo de Participação, sem levar em conta se são produtores.

Para compensar os prejuízos, a União ressarciria, com “os royalties e as participações especiais”, os estados e municípios que perderem arrecadação.

Como o sistema de partilha aprovado pelo governo para o pré-sal acabou com o pagamento de participações especiais, essa é outra disputa que teria que ser travada pelos estados e municípios produtores de petróleo.

O fim das participações especiais, aliás, é outro golpe na arrecadação dos estados produtores. Estima-se que o estado do Rio deixará de arrecadar R$ 25 bilhões que seriam devidos por participações especiais no modelo de concessão anteriormente vigente.

O projeto de lei aprovado fala apenas de “royalties”, que são limitados a 10% do valor da produção. Já as “participações especiais” têm alíquotas crescentes, de até 40% da receita líquida sobre a produção dos grandes campos brasileiros.

Ao não cobrar as PEs, o Estado brasileiro está abrindo mão de dezenas de bilhões de reais em tributos previstos no modelo de concessão, favorecendo a Petrobras.

Com a aprovação extemporânea e sem um debate aprofundado da mudança do sistema de concessão para o de partilha — com a conseqüência da mudança da divisão dos royalties, que a partir da nova lei serão distribuídos a todos os estados e municípios por meio do Fundo de Participação —, os estados produtores estão tendo que limitar sua luta à recuperação do que perderam, os royalties sobre o pós-sal e dos campos do pré-sal já licitados.

Esse é um direito adquirido que está sendo ferido pela nova lei. Como a votação na Câmara tomou ares de disputa de butim, sem que exista uma visão estratégica de país em discussão, e nem a questão federativa seja debatida, o mais provável é que a questão não se esgote com o puro veto do presidente Lula.

O ânimo dos senhores deputados é mesmo o de retirar o que consideram “privilégios” dos estados produtores, muito especialmente o Rio de Janeiro que, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), fica com mais de 80% dos royalties, enquanto os municípios fluminenses podem ficar com até 75% do total destinado a todos os municípios.

Para se ter uma idéia dos ânimos regionais, quando um representante do Rio, o deputado Chico Alencar do PSOL apelou para o bom-senso de seus pares chamando a atenção para o fato de que “O Rio também faz parte do Brasil”, foi rebatido pelo deputado Ibsen Pinheiro com a afirmação “mas o Rio não é o Brasil”, numa clara posição de contrapor supostas regalias às necessidades dos demais estados brasileiros. Ibsen Foi aplaudido.

Por sinal, ele é o autor da primeira emenda que mudava o critério da distribuição dos royalties, desrespeitando até mesmo o direito adquirido dos estados e municípios produtores.

Sua proposta foi substituída pela do senador Pedro Simon, que mantém o mesmo espírito mas determina que a União indenize os estados e municípios que tiverem perda com a mudança de critério, o que provavelmente servirá de base para o presidente Lula vete a mudança, pois não há no Orçamento da União previsão para tal despesa.

Mas a proclamação de Ibsen Pinheiro contra o Rio de Janeiro soa como se o Estado estivesse tirando alguma coisa dos que não produzem petróleo.

O espírito da lei que determinou os royalties foi compensar os custos que os estados produtores de petróleo têm com a exploração, não apenas materiais, mas também ambientais.

Ao mesmo tempo, os royalties procuram também compensar o pagamento do ICMS no consumo e não na origem, o que prejudicou os estados produtores nas negociações da Constituinte.

O que ficou patente na falta de discussão séria da questão federativa dos royalties é que a política está cada vez mais baseada no toma lá dá cá, sem que haja um pensamento orgânico sobre o país para embasar as decisões do Congresso.

Para garantir um quorum alto na sessão, fizeram uma pauta que privilegiava interesses os mais variados: Lei Kandir, Bingo, micro-empresas e prorrogação do fundo da pobreza.

O deputado Miro Teixeira, do PDT, chama a atenção para o que classifica de “redução da política” à concessão de vantagens, mesmo que admita que alguns temas, como o das micro-empresas, são importantes.

Com esse ânimo, o mais provável é que a questão tenha que ser decidida pela Justiça, já que os deputados e senadores estão dispostos a derrubar o veto do presidente e a derrotar qualquer novo projeto que garanta os direitos dos estados produtores nos campos já em produção.

A questão básica, que é o direito adquirido garantido pela Constituição, está sendo superada pelos interesses regionais.

-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-

Ao insistir na versão fantasiosa de que foi vítima de uma tentativa de golpe no episódio do mensalão, em 2005, o presidente Lula está tentando fazer o que mais gosta: reescrever a História a seu favor, tentando lavar da imagem do PT um dos episódios mais vergonhosos de corrupção já ocorridos no país.

Como o ex-deputado federal José Dirceu, cassado no episódio e acusado pelo Procurador-Geral da República de ser o chefe da quadrilha do mensalão, anunciou recentemente, depois de ter tido um encontro com o presidente no Palácio da Alvorada, Lula vai ajudá-lo na campanha para provar que o mensalão nunca existiu.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Merval Pereira -A rampa

O Globo

O vazamento de documentos sigilosos da diplomacia dos Estados Unidos pelo blog WikiLeaks revelou diversos “segredos de Polichinelo”, coisas que todo mundo sempre comentou mas que, ditas assim em tom de segredo de Estado e reveladas por vazamentos ganham uma dimensão política que pode ser catastrófica para o Departamento de Estado americano.

É o caso, por exemplo, da relação entre o Presidente russo Dmitri Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin, descrita em um dos telegramas a entre Batman e Robin, com o problema adicional que o Batman, “o macho alfa” é Putin, ficando Medvedev no papel de submisso sendo o Robin.

Relatei aqui na coluna durante a campanha presidencial uma conversa que tive com um investidor estrangeiro interessado no que aconteceria no país na sucessão presidencial, e me surpreendi com sua pergunta:

"Dilma vencendo, não pode ser como na Rússia, com Lula ficando por trás manejando os cordões?".

Respondi que se fôssemos uma República parlamentarista, o presidente Lula poderia fazer como Vladimir Putin, que depois de presidir o país por dois mandatos, transformou-se em primeiro-ministro e indicou Dimitri Medvedev para presidente.

O que a oposição brasileira acusava como um defeito da candidata oficial, ser um mero títere de Lula, era a esperança desse investidor — dos grandes — de que tudo continuaria como está na economia brasileira, com Lula dando seu suporte à sua sucessora.

O modelo chegou a ganhar um apelido que revelava a visão crítica da situação - "Dilmedvedev" -, mas foi vendido subliminarmente pela campanha de Dilma ao eleitorado, como uma garantia de que Lula continuaria a dar as cartas.

Sem dúvida, foi essa “garantia” que pesou muito na eleição de Dilma à presidência da República, mas eu achava o modelo de difícil implementação, dadas as condições brasileiras.

É mais provável, dizia, que Dilma, eleita, ficasse dependente de partidos como o PT e o PMDB do que de Lula, pois o presidencialismo brasileiro dá muitos poderes ao presidente da República.

Mas Lula, mais uma vez, está desmentindo a tradição histórica e a dificuldade de implementação que eu via para que influenciasse a montagem do ministério de Dilma está se transformando na verdade em uma facilidade surpreendente.

Talvez nem mesmo Dilma estivesse preparada para uma atuação tão contundente de seu preceptor, mas Lula não tem constrangimentos em sua ação política.

Há uma parte disso que é natural. Se a ministra Dilma Rousseff foi candidata por que o Lula quis, por que o Lula decidiu, e a elegeu presidente da República, nada mais natural que ele continue atuando na montagem do ministério.

Esse é um governo de continuidade, argumentam os governistas, alegando que foi isso que foi aprovado nas urnas.

O que espanta e preocupa, no entanto, é que ela não transparece nenhuma vontade de dar uma marca própria ao governo que está montando.

Era exatamente essa a grande crítica que se fazia a ela, que não existe politicamente, que não tem luz própria, e seria um mero fantoche do presidente Lula.

E ela parece estar aceitando esse papel com muita resignação.

Até o momento ela está ressaltando o que de pior há na sua indicação para presidente, que é a de ser uma continuidade no sentido de estar “esquentando a cadeira” para a volta de Lula.

Demonstra não ter capacidade de promover mudanças do governo para imprimir sua marca própria, mesmo dando continuidade às políticas.

Se manteve as mesmas pessoas nos mesmos lugares, ou em lugares semelhantes, por que mudariam de maneira de pensar e agir ?

Há, porém, indicações de que algumas diretrizes poderão ser mudadas, se levarmos em conta o discurso que a presidente eleita fez logo depois do anúncio oficial de sua vitória, ou as declarações dos primeiros escolhidos para a equipe econômica.

O Ministro da Fazenda Guido Mantega, por exemplo, continuará no cargo, mas com uma motivação totalmente contrária à sua atuação nos últimos anos.

Ele mesmo diz que o Estado gastou muito nos últimos anos e agora chegou a hora da contenção de gastos.

A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, um nome novo no primeiro escalão, mas bastante antigo na hierarquia petista, já atuava no Palácio do Planalto.

Foi casada com o prefeito de Santo André Celso Daniel, assassinado misteriosamente em 2002, assassinato que está sendo julgado só agora em São Paulo e cuja motivação o Ministério Público atribui a uma estrutura de corrupção montada pelo PT nas prefeituras que administrava à época.

Pois Miriam Belchior, que continuará cuidando das obras do PAC, está anunciando que chegou a hora de fazer mais com menos recursos, o que seria uma boa novidade.

Pode ser, portanto, que em vez de estar subjugada pela pressão de Lula e do petismo, a presidente eleita esteja só dando demonstrações de habilidade política e deixando para montar seu verdadeiro governo mais adiante, quando já estiver com as rédeas do poder nas mãos.

Há um precedente histórico, que já relatei aqui na coluna. O governo do General João Figueiredo começou com uma estrutura baseada no governo de seu antecessor, o General Geisel, principal responsável por sua indicação.

Em pouco tempo, Figueiredo começou a montar seu governo sobre o que herdara de Geisel: Golbery, que permanecera no Gabinete Civil, acabou saindo, dando lugar a Leitão de Abreu; o economista Mario Henrique Simonsen saiu deixando em seu lugar Delfim Neto, e assim por diante.

Golbery então comentou que quando o presidente eleito sobe a rampa do Palácio do Planalto com todos aqueles guardas batendo continência, ao chegar no topo já está convencido de que chegou ali por méritos próprios, e terá sempre algum amigo para garantir isso a ele.

Dilma ainda não subiu a rampa como presidente eleita.

domingo, novembro 28, 2010

Sobre o Rio Marco Antonio Villa

Postado por Villa em 28/11/2010

A oposição continua a mesma: não existe. Isto após receber "somente" 44 milhões de votos.
Poderia, sobre a crise no Rio, lembrar que:
1. defendeu a criação do Ministério da Segurança;
2. a Dilma disse que o "modelo" do Rio era tão bom que deveria ser um exemplo para o Brasil;
3. mostrar que o governo Lula ignorou o problema durante 8 anos.
4. Lula preferiu contruir um bondinho ao invés de defender (e criar condições) para explusar o tráfico dos morros;
5. apoiar as operações e criticar o governo não é oportunismo ou "faturar" com a tragédia. É fazer política.
6. a oposição poderia aproveitar o momento e apresentar as suas propostas para a área da segurança.
Muitas questões estão no ar.
1. Onde está o presidente Lula? Em 8 anos de governo, nunca foi a uma zona de conflito, enchente ou algum outro tipo de tragédia. Só vai "numa boa", onde não pode ser questionado;
2. Onde está Dilma? Não pode sequer fazer uma visitar protocolar ao Rio? As UPPs não eram um modêlo para TODO o Brasil?
3. Já começaram as comparações: a mais ridícula é associar o Complexo do Alemão/favelas da Penha ao episódio de Canudos. nada mais falso;
4. E o governador (que sempre está viajando - preferencialmente para o exterior) Ségio cabral?
5. E o ministro da Defesa, que sempre gosta de posar vestido com uniforme de oficial do Exército? Para onde foi?
6. Vamos ver quanto tempo vai durar a ocupação. Para obter resultados são necessários muitos meses. Mas tem o custo político.
7. Logo vão botar a culpa no capitalismo e no imperialismo;
8. E as ONGs?
9. E os políticos, tão fortes nestas comunidades?
10. Logo vai ocorrer um crime na Zona Sul que vai dar manchete. O "elemento" que cometeu o crime deve ser alguém vinculado ao tráfico. Aí surgiram os analistas que vão dizer que era melhor deixar o pessoal lá no morro, etc, etc.

Falácias sobre a luta armada na ditadura Marco Antonio Villa

Postado por Villa em 26/11/2010


Este texto foi publicado na Folha de S. Paulo em 19 de maio de 2008.
Acabou criando uma enorme polêmica:

A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.

Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.

O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.

Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.

Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?

Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.

Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.

Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.

Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo.

O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.

O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão.

Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.

ler origina
l

João Ubaldo Ribeiro - Nada a esconder

O Estado de S.Paulo
"Privacidade" é uma palavra recente na língua portuguesa. Quem a procurar num dicionário velho, aí de seus 30 ou 40 anos para cima, não vai encontrá-la. Antigamente se usava "intimidade", que, na minha opinião, quebrou bem o galho durante muito tempo. Não obstante, do mesmo jeito que muitas outras palavras nossas, "intimidade" teve todos os seus anos de bons serviços ignorados e foi amplamente substituída, via Estados Unidos, por uma inglesa de som e uso considerados chiques, como ocorre entre nós em relação a qualquer coisa em inglês. "Privacidade", aportuguesamento de "privacy", já foi naturalizada e correm bem longe os tempos em que seria xingada de anglicismo e, se usada numa prova escrita, baixaria a nota. A bem da verdade, ela não deixa de comportar-se como uma boa cidadã brasileira e talvez mereça a popularidade que obteve, talvez nós estivéssemos precisando dela mesmo.

Com a palavra, tudo bem, vida longa para ela, mas a condição que ela designa pertence cada vez mais ao passado. Ou melhor, já pertence ao passado, assim como a agora vingada "intimidade". Juntas, vão fazer parte das recordações de antigamente - o tempo em que existia um negócio chamado privacidade ou intimidade, o qual, suspeito eu, vai ter que ser explicado à geração que hoje é bebê. E, a julgar pelo que vejo em torno, muita gente, talvez a maioria, adere alegremente ao desprestígio crescente da privacidade e de sua colega intimidade. Não só não damos importância ao que fazem para violar nossa privacidade, como nos esforçamos para abdicar dela.

Há quem acredite que certas áreas, como a vida financeira e econômica de cada um, ainda são protegidas. Faz uns três dias, dei uma espiada na relação dos que têm (ou tinham, não vem ao caso, pois indica a experiência que voltarão a ter) acesso a dados dos contribuintes junto à Receita Federal e havia até estagiários. Não custa imaginar que estaria perto a autorização dos síndicos de edifícios de apartamentos, para fuçar a vida dos condôminos. Para não lembrar que já se falou em tudo quanto é tipo de vazamento na Receita Federal. Mas vamos continuar dando um crédito de confiança, que, aliás, é o único crédito nosso que podemos dar à Receita, porque o resto ela já tomou.

Até os bancos suíços, onde qualquer grande ladrão, traficante de droga ou governante corrupto tinha seu dinheiro imundo recebido com circunspecção, recato e maneiras finas, sem perguntas deseducadas e sem impostos penosos e, acima de tudo, sob sigilo impenetrável, até esses vêm sendo atacados. O venerável princípio segundo o qual a respeitabilidade de um homem é definida por quantos milhões de dólares ele tem está sofrendo golpes rudes, partidos notadamente, segundo leio aqui, dos americanos. O fisco americano, diz aqui, está torcendo o braço dos bancos suíços para que liberem dados de cidadãos sob sua jurisdição. Há ameaças de brecar as operações desses bancos nos Estados Unidos, se eles não atenderem aos pedidos de liberação. Verdade que rico ri à toa e que muitos espertos vão conseguir safar-se, mas o mundo não será mais o mesmo sem bancos suíços para higienizar, preservar e fazer render dinheiro sujo. Quanto a quem tem dinheiro aqui mesmo, sabe-se que a informação já está fartamente acessível, não só para os muitos que podem vê-la na Receita Federal, como em camelôs em São Paulo e no Rio, em CDs, ou, se se desejar gastar mais um pouco, documentos já impressos. Ou então se usa alguém de prestígio para mandar o banco quebrar o sigilo bancário do vizinho, do sogro, do marido ou do patrão. Dá para fazer numa boa, como já fez um ex-ministro cujo nome me escapa no momento, mas vocês hão de recordar.

Fora das finanças, acho que a coisa está bem mais aberta, porque a colaboração geral é entusiástica. Nas chamadas redes sociais na internet, milhões (ou bilhões, sei lá) de devotos acreditam que estão recebendo serviços de graça e que, por conseguinte, os donos dessas redes estão ganhando quaquilhões de dólares extraindo-os do ar e não dos bolsos da freguesia. Eles estão, claro, é faturando anúncios e, acima de tudo, coletando dados pessoais de toda espécie, que lhes proporcionam estratégias de mercado capazes não somente de vender a bagulhada que produzem ou a que se vinculam direta ou indiretamente, como também de criar necessidades antes inexistentes, para que se comerciem ainda mais bagulhos, num processo interminável. Não custa nada lembrar um axioma conhecido em cibernética: "Informação é controle."

Grande parte dessa massa manipulada quer ser manipulada, porque expõe, sua vida a torto e a direito, em proporções que não parecem conhecer limite. Não é apenas na internet que se divulgam intimidades antes preservadas, é em qualquer lugar. Já ouvi casais tendo a famosa discussão da relação, em celulares que, no modo viva-voz, faziam com que os circunstantes escutassem tudo. E senhoras e senhorinhas entrevistadas discorrem a leitores ou espectadores sobre posições sexuais, preferências de parceiros, higiene pessoal ou depilação púbica e perianal, quando não tomam parte em mesas-redondas de depoimentos pessoais íntimos - o que antes era confissão hoje é papo casual.

Segredos antigos desaparecem, velhos mistérios não são mais arcanos, não há mais inocências a proteger. Para evitar a exposição ao que se exibe em toda parte, só recolhendo o bebê a um mosteiro trapista, logo após o desmame, aos 6 meses de idade. Não se pode censurar livros recomendados a crianças ou adolescentes, pelo motivo descabido de que mostram aspectos de um mundo vivido por todos, inclusive por eles, que veem bem mais do que os adultos suspeitam. Não há como esconder mais nada. E, dessa forma, é preciso que eles também tenham a chance de ver este mundo através da sensibilidade literária. Principalmente porque isso os ajudará a compreender que há escolhas.

sábado, novembro 27, 2010

CESAR MAIA De volta ao Oriente

FOLHA DE SÃO PAULO - 27/11/10

Três importantes reuniões internacionais no espaço de uma semana, neste mês de novembro, marcaram uma guinada em direção ao Oriente.
Nas três, o presidente Obama esteve presente. A primeira -a reunião do G20-, que pela total inutilidade coonestou as políticas econômicas da China e EUA; a segunda, dois dias depois, essa sim efetiva, foi a da Apec (Ásia-Pacífico), que decidiu, com aval dos EUA, China e Japão, a criação de uma mega-área de livre comércio. Ali mesmo o Peru (que há anos tem os melhores indicadores econômicos da América Latina) assinou seu acordo de livre comércio com a Apec; finalmente, a reunião da Otan em Lisboa no último fim de semana, que atribuiu-se funções que antes cabiam ao Conselho de Segurança da ONU.
Com a Europa em recessão (OCDE prevê crescimento de 1,7% em 2011), com os planos ortodoxos no Reino Unido, na Espanha, na França e na Alemanha, as crises da Grécia, Portugal e Irlanda, os problemas de desemprego nos EUA, o chavismo em expansão na América Latina (a ocupação pela Nicarágua de faixa da fronteira da Costa Rica é mais um capítulo) e a política externa de Lula (que foi tratado friamente no G20), Obama tomou o trem e atravessou o país, saindo do Atlântico para o Pacífico. Afinal, tem que cuidar da reeleição, depois da derrota eleitoral. As reuniões da Apec e da Otan são decisões tomadas e que já repercutem.
Na reunião da Otan, Obama foi explícito: "Esse novo conceito estratégico para a Otan identifica novas ameaças das quais temos que defendermo-nos juntos". As ameaças são o terrorismo, as atividades criminosas no ciberespaço, a proliferação de armas de destruição massiva, seus meios de distribuição...
O novo conceito estratégico reconhece que essas ameaças modernas exigem uma resposta global e põem em marcha um modelo de alianças com outros países e outras organizações. A reunião ampliou a ação da Otan usando como referencia a Isaf -força que a Otan mantém no Afeganistão. A presença de Karzai, seu presidente, assim como do general comandante dos EUA-Isaf no Afeganistão, David Petraeus, afirmou o caráter operacional da reunião.
E não parou aí: a Otan será uma aliança nuclear enquanto houver armas deste tipo no mundo, num recado ao Irã. Foi adotado o princípio da defesa coletiva e a política de "porta aberta", o que permitirá futuros alargamentos. "Este é um plano de ação histórico", explicou Rasmussen, secretário-geral da Otan. No novo conceito estratégico, a Otan passa a atuar também em parcerias com outras potências.
Medvedev, presente, saudou a decisão, pela Rússia. Assim, a Otan chega ao Báltico, Negro e Cáspio (Irã). E quase cola na Coreia do Norte.

PAUL KRUGMAN Comendo os irlandeses

O Estado de S.Paulo 27/11/10

É o caso se perguntar o que será preciso para as pessoas sérias perceberem que punir a população pelos pecados dos banqueiros é pior que um crime; é um erro

Estamos precisando de um novo Jonathan Swift. A maioria das pessoas conhece Swift como o autor de As viagens de Gulliver. Mas os acontecimentos recentes me fizeram pensar em seu ensaio de 1729, "Uma proposta modesta", no qual ele observou a pobreza estarrecedora dos irlandeses e ofereceu uma solução: vender as crianças como alimento.
"Asseguro que essa comida será um pouco cara", ele admitiu, mas isso a tornaria muito apropriada para proprietários de terras , que, como já haviam devorado a maioria dos pais, pareciam ser os mais indicados para os filhos. Tudo bem que desta vez não são os proprietários de terras, mas os banqueiros - e eles estão apenas empobrecendo o população, não a comendo. Mas somente um satírico para fazer jus ao que está se passando hoje na Irlanda.
A história irlandesa começou com um verdadeiro milagre econômico.
Esse, porém, acabou dando lugar a uma orgia especulativa provocada por bancos e incorporadoras imobiliárias fora de controle, numa relação promíscua com políticos de peso. A orgia foi financiado com empréstimos enormes captados por bancos irlandeses, em geral de bancos de outros países europeus.
Aí a bolha estourou, e esses bancos enfrentaram prejuízos imensos.
Seria de esperar que os que emprestaram dinheiro aos bancos dividiriam os prejuízos. Afinal, eles eram adultos responsáveis por seus atos, e se não conseguiram compreender os riscos que estavam assumindo isso não foi por culpa de ninguém além deles. Mas, não, o governo entrou em cena para garantir a dívida dos bancos, transformando prejuízos privados em obrigações públicas.
Antes do estouro da bolha, a Irlanda tinha uma pequena dívida pública.
Mas, com os contribuintes subitamente ameaçados por prejuízos imensos dos bancos, enquanto a arrecadação despencava, a credibilidade do país foi colocada em xeque. Assim, a Irlanda tentou tranquilizar os mercados com um programa austero de corte de gastos.
Parem por um minuto e pensem nisso. Essas dívidas foram contraídas, não para pagar programas públicos, mas por espertalhões privados que buscavam apenas seu lucro pessoal. Agora, cidadãos comuns irlandeses pagam a conta.
Ou, para ser mais preciso, eles estão arcando com um ônus muito maior que a dívida - porque aqueles cortes de gastos causaram uma severa recessão, de modo que além de assumir as dívidas dos bancos, os irlandeses sofrem com a queda das rendas e o alto desemprego.
Agora o quê? Na semana passada, a Irlanda e seus vizinhos montaram o que foi amplamente descrito como um "salvamento". O que realmente se passou, porém, foi que o governo irlandês prometeu impor sofrimentos ainda maiores à população em troca de uma linha de crédito que, presumivelmente, daria mais tempo para a Irlanda, bem, recuperar a confiança. Os mercados, compreensivelmente, não se impressionaram quando as taxas de juros dos bônus irlandeses subiram ainda mais.
As coisas precisariam mesmo ser dessa maneira? No início de 2009, circulava uma piada: "Qual a diferença entre a Islândia (em inglês, Iceland) e a Irlanda (em inglês, Ireland)? Resposta: "Uma letra e cerca de seis meses." Isso era para ser uma piada de humor negro. Por pior que fosse a situação da Irlanda, ela não poderia se comparar ao completo desastre que era a Islândia.
Neste ponto, porém, a Islândia parece estar se saindo melhor que sua quase homônima. Sua recessão econômica não foi mais profunda que a da Irlanda, suas perdas de empregos foram menos graves e ela parece melhor posicionada para a recuperação. Os investidores, aliás, agora parecem estar considerando a dívida islandesa mais segura que a irlandesa. Como isso é possível? Parte da resposta é que a Islândia deixou que os emprestadores estrangeiros a seus bancos descontrolados pagassem o prelo de seu mau julgamento, em vez de colocar seus próprios contribuintes na linha para garantir as dívidas privadas ruins. Enquanto isso, a Islândia ajudou a evitar um pânico financeiro em parte impondo controles temporários ao capital - isto é, limitando a capacidade de os locais tirarem fundos do país.
A Islândia também se beneficiou do fato de que, diferentemente da Irlanda, ela ainda tem sua própria moeda: a desvalorização da coroa, que deixou as exportações islandesas mais competitivas, foi um importante fator para limitar a recessão na Islândia, Para os sabichões, nenhuma dessas opções heterodoxas está à disposição da Irlanda. A Irlanda, dizem eles, precisa continuar infligindo sofrimento a seus cidadãos - porque fazer qualquer outra coisa fatalmente solaparia a confiança.
Mas, a Irlanda já está em seu terceiro ano de austeridade, e a confiança continua se exaurindo. É o caso se perguntar o que será preciso para as pessoas sérias perceberem que punir a população pelos pecados dos banqueiros é pior que um crime; é um erro. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
É PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

CELSO MING Expurgo de preços

O Estado de S.Paulo - 27/11/10
Confirmado no cargo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está empenhado agora em abrir caminho para a derrubada dos juros, projeto já anunciado pela presidente eleita, Dilma Rousseff. Ela pretende chegar aos 2% de juros reais ao ano, em quatro anos.
Mantega avisou que sua intenção é expurgar do índice oficial do custo de vida, o IPCA, as variações de preços dos alimentos e dos combustíveis. Não se trata de manipulação; trata-se de usar o conceito de núcleo de inflação para definição da política de juros. Além disso, o ministro quer que a economia se liberte dos indexadores de preços, ou seja, dos reajustes automáticos previstos em lei ou nos contratos.
Fácil entender a intenção dele. Os juros precisam subir quando a inflação tende a escapar para acima da meta; e tendem a cair quando a inflação fica abaixo. Livre de alguns dos fatores que mais pressionam os preços, o medidor de inflação concorreria para uma queda mais acentuada dos juros.
Antes de qualquer outra consideração, convém lembrar que essas ideias são, em princípio, corretas. Não faz sentido usar o medidor oficial de inflação que vem normalmente inchado com altas ou baixas de preços que nada têm a ver com o volume de dinheiro na economia ou o nível dos juros básicos. De mais a mais, se o feijão preto ou a batatinha ficaram caros demais em consequência de fortes secas ou do excesso de chuvas, o próprio consumidor se encarrega de encher a panela com outros alimentos.
Vistas essas coisas mais tecnicamente, o ministro Mantega está propondo que, para efeito de definição da política monetária, se aposente o índice cheio do custo de vida e seja adotado o conceito de núcleo de inflação (core inflation) assim expurgado, como operam alguns dos principais bancos centrais do mundo.
Três são os riscos de se adotar atabalhoadamente esse critério. O primeiro está em meter na vala comum tanto variações episódicas como crônicas de preços. Alimentos e petróleo são dois itens que tendem a encarecer dentro de alguns anos em decorrência do aumento do consumo internacional combinado com insuficiência de oferta e não de fatores conjunturais. Nessas condições, expurgar toda e qualquer variação de preços dos alimentos e combustíveis introduziria graves distorções nos índices.
O segundo risco é o de introduzir esse novo critério de maneira arbitrária, sem definir previamente uma metodologia transparente. Se for assim, ficará minada a credibilidade da condução isenta da política de juros junto aos marcadores de preços e não se poderá pretender um saudável gerenciamento das expectativas.
O terceiro risco é o de que essa mudança não passe de um truque grosseiro destinado a derrubar o juro à força de mandracarias como as que estão sendo adotadas pelo governo Lula no cálculo do superávit primário das contas públicas.
O sistema de indexação é distorção do entulho inflacionário. É o que pode ser dito da maior parte dos preços administrados, que correspondem a 30% da composição do custo de vida e evoluem de maneira automática, independentemente do tamanho dos juros ou da evolução da oferta e da procura. Não faz sentido usar o IGP-M, um índice sobrecarregado de preços do mercado atacadista, para reajustar aluguéis, tarifas e prestações de dívidas.
Se tais mudanças forem impostas arbitrariamente, tudo o que se conseguirá será a desmoralização da política de metas.
Aí está o tranco ocorrido em novembro no Índice Bovespa. É o fator
Irlanda e o drama do euro derrubando as cotações das principais ações negociadas na Bolsa de São Paulo.
Desindustrialização?
"Num país que importa US$ 125 bilhões em máquinas e equipamentos, em que o desemprego cai a 6,1% e a indústria produz a pleno vapor com resultados trimestrais apontando recordes de rentabilidade, falar em desindustrialização é um paradoxo'', afirmou ontem o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. Mais que paradoxo, é um despropósito.

A tomada da Vila Cruzeiro EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

O secretário de Segurança Pública do Rio Janeiro, José Mariano Beltrame, equivocou-se. Na quinta-feira, depois da ocupação da Favela Vila Cruzeiro e da fuga em massa dos traficantes que fizeram dessa área de mais de 200 mil metros quadrados, na zona norte carioca, o principal baluarte do crime na cidade, o secretário declarou: "Ainda não há nada a comemorar."
Compreende-se e até se deve louvar a sua prudência. Mas há, sim, muito a comemorar, pela competente operação com que o governo fluminense respondeu aos atos terroristas que desde o começo da semana haviam transformado o Rio numa espécie de capital tropical do Quinto Mundo, com uma profusão de arrastões, queima de veículos e tiroteios que, até ontem, já haviam matado pelo menos 35 pessoas.
Deve-se comemorar, antes de tudo, um acontecimento sem precedentes: a participação de uma das Três Forças, no caso a Marinha, no combate não propriamente ao narcotráfico, mas ao poder incontrastável exercido por suas gangues sobre núcleos inteiros da cidade. Vila Cruzeiro, por exemplo, era o quartel-general do Comando Vermelho, assim como a Rocinha é a base da facção rival Amigos dos Amigos.
Sem a decisão da Marinha de atender prontamente a um pedido de apoio logístico das autoridades estaduais - cedendo veículos blindados, carros-lagarta e viaturas para transporte de tropas, além de 70 fuzileiros navais para manejá-los -, a mobilização de meio milhar de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Polícia Militar e Civil só poderia ter êxito a um preço impensável: a mortandade de sabe-se lá quantos inocentes na batalha campal que seria travada.
Comemore-se, pois, o "feito de armas" que pode mudar o curso do que, em última análise, é uma guerra pelo controle do Rio de Janeiro. Desde anteontem a repressão ao crime organizado na cidade visa mais do que nunca o pior dos seus desdobramentos: os verdadeiros governos paralelos, ou melhor, as tiranias brutais do tráfico e das milícias.
"A comunidade hoje pertence ao Estado", resumiu um dos responsáveis pela dramática operação na Vila Cruzeiro, transmitida ao vivo pelas redes de televisão, com câmaras instaladas em helicópteros. Foi também pela TV que o País acompanhou a debandada da bandidagem para o Complexo do Alemão, do outro lado da encosta - o novo alvo das forças de segurança, desta vez com o engajamento da Polícia Federal.
Por muito tempo ainda o narcotráfico terá de ser combatido em muitas frentes, não raro distantes dos centros urbanos onde prospera, como as regiões de fronteira no extremo norte do País. Mas uma coisa é a droga, outra é o banimento do poder público de áreas usadas como centros de distribuição, baluartes para as máfias que as dominam e nelas criam mercados cativos de bens e serviços.
O Estado tem de retomar os feudos do crime não apenas para manter a sua integridade, proteger e prover as suas populações, mas também para desestruturar as quadrilhas e torná-las mais vulneráveis à ação policial. Falando da fuga dos criminosos da Vila Cruzeiro, o secretário Mariano Beltrame observou que o ataque "tirou dessas pessoas o que nunca foi retirado: o seu território".
"É importante apreender drogas", disse ainda. "Mas é mais importante tirar o território." Naturalmente, está fora de cogitação o que equivaleria a retirar e devolver. As forças que recuperarem a favela não poderão sair dali tão logo. Nem será do dia para a noite que ali se instalará uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O trabalho "vai demandar um esforço muito grande", avisa Beltrame.
Aliás, as poucas que já funcionam (em comparação com o que o Rio de Janeiro necessita) afetaram os traficantes a ponto de fazê-los desencadear a ofensiva terrorista que ensejou, afinal, a cooperação entre as Forças Armadas e o governo do Estado - a ser ampliada, por decisão do presidente Lula, com o envio de helicópteros, veículos e equipamentos de apoio logístico. Além disso, informou o Ministério da Defesa, 800 soldados do Exército serão deslocados para "garantir a proteção dos perímetros das áreas que forem ocupadas pelas polícias".

DIOGO MAINARDI Meus fantasmas

VEJA

“Eu vim morar em Veneza para melhorar a qualidade de meus fantasmas. No Rio de Janeiro, eu convivia com o fantasma de Ziraldo. Aqui convivo com o fantasma de Eleonora Duse e de Gabriele D’Annunzio”


Lady Gaga é assombrada por um fantasma. Ela é igual a Scooby-Doo. Eu também sou assombrado por um fantasma. Eu sou igual a Lady Gaga e a Scooby-Doo.

O nome do fantasma de Lady Gaga é Ryan. Ryan persegue Lady Gaga em todos os lugares. Lady Gaga está em Istambul? Ryan a assombra em Istambul. Lady Gaga está em Estocolmo? Ryan a assombra em Estocolmo. Lady Gaga está em Belfast? Ryan a assombra em Belfast. Lady Gaga tem medo de Ryan. Em Belfast, algum tempo atrás, ela chegou a contatar um médium para tentar despachar o fantasma. O resultado, pelo que eu entendi, foi ruim: Ryan continuou a atormentá-la.

Se Lady Gaga é assombrada pelo fantasma de Ryan e se Scooby-Doo é assombrado pelo fantasma do Cavaleiro Negro, eu sou assombrado pelo fantasma de Eleonora Duse. Depois de passar uma temporada de oito anos no Rio de Janeiro, eu me mudei para Veneza. Vim morar no mesmo prédio em que morou Eleonora Duse. Lady Gaga tem muito mais páginas na internet do que ela. Scooby-Doo tem muito mais páginas na internet do que ela. Até eu tenho muito mais páginas na internet do que ela. Mas Eleonora Duse foi uma das maiores estrelas de teatro de todos os tempos. No fim do século XIX, ela era mais conhecida do que é, atualmente, Lady Gaga.

Há um episódio de Scooby-Doo ambientado em Veneza. No desenho animado, ele é perseguido pelo Gondoleiro Fantasma, que quer roubar um colar precioso. O fantasma de Eleonora Duse, que mora aqui comigo, é bem menos molesto. Ela se limita a recitar A Dama das Camélias, aos gritos, em cima de minha mesa de jantar.

O prédio em que o fantasma de Eleonora Duse e eu moramos está localizado à beira do Canal Grande. Na margem oposta, ligeiramente à esquerda, olhando pela janela, há uma casa vermelha em que morava o escritor Gabriele D’Annunzio. Eleonora Duse e Gabriele D’Annunzio eram amantes. Ele mergulhava no Canal Grande, cruzava-o a nado e vinha visitar Eleonora Duse em meu prédio. Um século mais tarde, seu fantasma continua repetindo a mesma rotina. Eu sempre pego Gabriele D’Annunzio em minha biblioteca, depois de sair do Canal Grande, inteiramente molhado, manchando o tapete e pingando em meu computador.

Já me perguntaram por que vim morar em Veneza. Eu vim morar em Veneza para melhorar a qualidade de meus fantasmas. No Rio de Janeiro, eu convivia com o fantasma de Ziraldo. Aqui convivo com o fantasma de Eleonora Duse e o de Gabriele D’Annunzio. Eu nunca me interessei por estrelas de teatro ou pela obra de Gabriele D’Annunzio. Mas num período como este, de assombroso embrutecimento intelectual, o máximo que posso fazer é tentar preservar alguns fantasmas do passado. Scooby Dooby Doo!

Merval Pereira Ainda "Tropa de Elite"

O GLOBO

O cineasta José Padilha está, mesmo que involuntariamente, no centro das discussões sobre a política de segurança pública, com a coincidência de seu filme "Tropa de Elite 2" estar em exibição com grande sucesso ao mesmo tempo em que o Rio de Janeiro expõe ao mundo, através das lentes da televisão, a guerra entre o poder público e o tráfico pela conquista de territórios na cidade, mostrando a todos o tamanho do problema que enfrentamos.

Esse será um processo longo e possivelmente doloroso, e Padilha tem razão quando diz que ele não se completará se, além das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), não for feita uma reforma da própria polícia.

O personagem Capitão Nascimento, criado pelo talento de Wagner Moura nos dois filmes dirigidos por José Padilha, transformou-se em um herói nacional e é aplaudido pelo país afora quando ataca aos socos um político corrupto.

Mesmo quando algum integrante do Bope se utiliza de métodos de tortura para arrancar informações de um bandido, a plateia quase sempre ou aceita ou até mesmo aplaude, o que denota uma distorção de valores que vem sendo discutida desde o primeiro "Tropa de Elite".

A reação de parte da população, e de setores da própria polícia, criticando o fato de as televisões transmitirem ao vivo as ações policiais, demonstra uma vontade secreta de que elas possam se valer da falta de transparência para algum tipo de justiçamento.

É natural, portanto, que o diretor José Padilha receie ver confundidos seus pensamentos pessoais com os de seus personagens de ficção que procuraram retratar uma realidade com a qual não necessariamente atores ou diretor concordam.

Talvez por isso, em sua boa entrevista no programa "Estúdio I" da Globonews, Padilha tenha se equivocado ao comentar a minha coluna de ontem, onde está escrito o seguinte: "Ontem foi dia de a realidade imitar a arte. Foi dia de torcer pelo Capitão Nascimento de "Tropa de Elite", que todos nós vimos em ação, ao vivo e a cores, nas reportagens das emissoras de televisão. Que o personagem de Wagner Moura tenha se tornado o novo herói nacional é um sinal dos tempos, não necessariamente um bom sinal".

"Ontem entraram em ação centenas de capitães Nascimento encarnados em cada um dos soldados do Bope, que o personagem do filme de José Padilha se orgulha de ter transformado em "uma máquina de guerra"".

Por uma leitura equivocada, Padilha entendeu que eu estava afirmando que ele se orgulhava de o Bope ter se transformado em "uma máquina de guerra", e me mandou um recado pela televisão afirmando que não se orgulhava de maneira nenhuma.

Esclarecida a questão, fica a realidade, que "Tropa de Elite" retrata tão bem, e por isso já foi visto por mais de dez milhões de espectadores.

Jorge Maranhão, diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão, que se dedica a estudar a cidadania e o que fazer para avançar nesse terreno, acha que o "eloquente nexo causal entre a violência social e a violação legal de nossas elites políticas" é uma das razões do sucesso do filme.

Ele acha que o capitão Nascimento "nasce para herói, numa cultura como a brasileira, que tem enaltecido a esperteza, e, mesmo que justiceiro, já é um avanço no rumo de uma nova cultura de cidadania".

Maranhão vê uma evolução do personagem, de uma ação voluntarista para questionador do que chama "o sistema", e considera que "começamos a avançar ao encontro do que o público anseia, o que já é extraordinário e explica o sucesso do filme".

Para o diretor da Voz do Cidadão, "o imaginário social em rica mutação" não tem sido detectado corretamente sequer pelos institutos de pesquisa, e ele cita vários casos recentes: a surpresa do ficha-limpa, em que ninguém acreditava; a surpreendente votação em Marina Silva de quase 20 milhões de eleitores que ninguém previu.

"São cidadãos querendo pautar a questão ética na política e que não estão suportando mais o nível de degradação de sua representação. Por isso que o filme faz sucesso. Apesar de nosso herói coronel Nascimento fazer justiça com as próprias mãos, o que só evidencia a omissão das instituições de Estado que ainda não apareceram para cumprir o seu papel".

O leitor Mauricio Renault de Barros Correia, analista judiciário do TRE-RJ e estudante de História (Unirio), tomado aqui como exemplar da reação média dos leitores, vê na mudança da capital para Brasília o marco da decadência do Rio, com a política de investimento e infraestrutura e investimento social limitadas às classes média e alta. A desindustrialização do município abriu espaço para a favelização, diz ele. "Bairros operários tornaram-se as comunidades carentes de hoje".

Para exemplificar o atraso econômico até o início do século, Mauricio Renault ressalta que a maior parte da economia do município está nas mãos dos funcionários públicos e dos aposentados, em sua maioria também advindos do serviço público.

Segundo ele, o crescimento urbano desordenado, sob o descaso dos inúmeros governadores do Estado do Rio de Janeiro, culminou na formação desta hidra de inúmeras cabeças que se tornou o crime organizado no estado.

"A inépcia dos governos anteriores, permitindo que facções criminosas ocupassem territórios de comunidades carentes, tomando o lugar do Estado e instituindo suas próprias leis, permitiu que a sensação de poder e impunidade dos criminosos chegasse à beira da insanidade".

A política de ocupação das comunidades carentes foi um marco no atual governo, diz ele. E, seguindo uma tendência generalizada, compara o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame ao Capitão Nascimento, que "não retrocederá frente aos inimigos e coloca uma máquina de guerra contra os traficantes".

Estranha normalidade:: Fernando Rodrigues

FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - "O comando do Exército no combate à criminalidade e ao
tráfico de drogas no Rio é apoiado por 86% dos moradores do Estado,
segundo pesquisa Datafolha realizada nos dias 7 e 8 deste mês", dizia
o primeiro parágrafo de um texto da Folha publicado no longínquo 13 de
novembro de 1994.

Suspeito que hoje, a julgar pelo tom eufórico de alguns telejornais, o
apoio dos fluminenses à presença dos militares esteja próximo dos
100%. Há 16 anos, como agora, o governo do Estado do Rio de Janeiro
havia firmado um convênio com as Forças Armadas.

Ainda não havia TV a cabo com noticiário brasileiro transmitido 24
horas para produzir o impacto atual, mas a operação tinha magnitude
semelhante à de agora. Estava autorizado o uso de blindados,
helicópteros e armamentos pesados. Produziu-se um sucesso relativo,
com pacificação eventual das regiões dominadas pelo tráfico.

Passada uma década e meia, a situação se repete -de maneira mais
fluída. Quase inexiste pudor sobre o uso de soldados do Exército em
áreas urbanas. Tudo parece muito natural. "É um exemplo para outros
Estados?", perguntava ontem a GloboNews. O apoio inicial dos
fuzileiros navais foi dado como vital para desbaratar as quadrilhas e
colocar bandidos em fuga.

Há, por sorte, uma diferença essencial de hoje para 1994: a existência
das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Se a experiência for
replicada com rapidez, talvez seja possível haver uma consolidação do
Estado nas áreas degradadas pelo crime. Seria uma forma (não a única,
por óbvio) de evitar o retorno da bandidagem.

Quando há uma guerra, é difícil julgar todas as ações no momento em
que ocorrem. É compreensível o apoio aparentemente em massa dos
cidadãos de bem à ação militar contra os narcotraficantes. Mas não
deixa de ser alarmante a estranha naturalidade com que o uso das
Forças Armadas é recebido.

Tropa da mídia:: Fernando de Barros e Silva

FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Há um triunfalismo exorbitante na cobertura jornalística
dos acontecimentos gravíssimos no Rio de Janeiro. Na sua primeira
página de ontem, o jornal "O Globo" estampou, em letras garrafais: "O
Dia D da guerra ao tráfico".

A comparação, ou "semelhança simbólica", entre a ocupação da Vila
Cruzeiro, anteontem, e o desembarque das tropas aliadas na Normandia,
impondo a derrota aos nazistas, é um despropósito, um disparate
histórico, além de factual.

Vale lembrar: no dia 21 de abril de 2008, o Bope pendurou na parte
mais alta da mesma Vila Cruzeiro a sua bandeira preta com a caveira no
centro. A tropa de elite da polícia comemorava uma semana de ocupação
na favela. Falava-se então na apreensão de "três mil sacolés de
cocaína e 480 pedras de crack". Já vimos, pois, esse filme antes.

O que aconteceu desde então? As coisas agora são diferentes? Parece
que sim. A começar pelo emprego de armamentos de guerra e de efetivos
das Forças Armadas no cerco ao tráfico. Os bandidos também mudaram de
patamar: passaram a patrocinar ações típicas da guerrilha e do
terrorismo pela cidade.

Até prova em contrário, esses parecem ser sintomas do agravamento de
um problema, e não da sua solução. Curiosamente, o secretário de
Segurança do Rio mostra ter mais noção disso do que a mídia.

Por toda parte -TVs, jornais, internet-, há uma tendência compulsiva
para transformar a realidade em enredo de "Tropa de Elite 3", o filme
do acerto de contas final. A dramatização meio oficialista e meio
ficcional do conflito parece se beneficiar de uma fúria coletiva e sem
ressalvas dirigida aos morros, como quem diz: sobe, invade, explode,
arregaça, extermina!

É quase possível ouvir no ar o lamento pela ausência de traficantes
metralhados diante das câmeras. Até o momento em que escrevo, foram
incendiados 99 veículos e mortas 44 pessoas. Quantas eram marginais?
Quantas eram só pobres-diabos? E que diferença isso faz?

Míriam Leitão Nas três frentes

O GLOBO

Para que tema olhar? A violência no Rio domina a semana e os corações.
Impossível não ver. Na Europa, uma moeda está próxima de um
precipício. Sobreviverá o euro à crise das dívidas soberanas? No
Brasil, o governo Dilma ganha os primeiros contornos, já há uma equipe
econômica e os seus integrantes fazem declarações, algumas
conflitantes com o que diziam dias antes.

Não posso escolher. São todos temas da atenção dos leitores desta
coluna. Melhor separá-los e tentar reuni-los depois. Ontem, a situação
estava assim: o presidente Lula, a menos de cinco semanas de deixar o
cargo, antes de sair do país autorizou o envio de tropas ao Rio; a
presidente eleita, fechada em copas, continua se comunicando por
notas, nomeando apenas petistas, num governo que será de coalizão. No
Rio, representantes das Forças Armadas, ministro da Defesa, governador
e secretário de segurança deram entrevista conjunta sobre a mais
impressionante ação já realizada por todos eles juntos na cidade
contra o tráfico de drogas.

Não é a primeira vez que o Exército vai para as ruas do Rio. Quem por
acaso tivesse à mão ontem a edição do GLOBO do dia 18 de maio de 1994,
poderia ver a foto do então candidato Fernando Henrique percorrendo a
cavalo e chapéu de nordestino ruas do sertão alagoano. A manchete do
jornal aquele dia foi "Exército ocupa duas favelas do Rio." Foram 600
soldados do Batalhão de Infantaria Blindada do Exército que ocuparam
as favelas de Ramos e Roquete Pinto. Difícil lembrar as
circunstâncias, mas basta registrar que é assim sempre: no surto, no
agudo da crise, a corrida para convocar o Exército como salvador. O
alívio e aplauso. Depois, o Rio sempre voltou à banalidade do mal.

Há esperança maior desta vez porque há uma ação coordenada e uma
política pública bem definida, as Unidades de Polícia Pacificadora
(UPP). Houve tentativas no passado que foram abandonadas; agora há
continuidade. Houve melindres no passado em se ter, em momentos de
crise, a ajuda das Forças Armadas, mas a entrevista conjunta de ontem
mostrou que essa visão estreita foi superada. Um estado federado
precisa de ajuda e a União a fornece. Forças policiais não têm
equipamentos e a Marinha os fornece. O Exército vence sua relutância
porque foi invocada a sigla mágica: GLO. Garantia da Lei e da Ordem,
princípio constitucional que permite que seus soldados atuem em ruas
conflagradas do espaço urbano.

Mas o Rio já viveu suficientes dores para saber certas coisas. Essa
guerra é complexa. Não tem só dois lados: mocinhos e bandidos. Tem
vários outros, mas pelo menos um sobre o qual não se deve deixar de
falar. O que a polícia deve fazer para vencer de vez o tráfico? No seu
blog, o cientista político Luiz Eduardo Soares respondeu assim: "Em
primeiro lugar, deveria parar de traficar ou de associar-se aos
traficantes. Deveria parar de negociar armas com traficantes. Deveria
parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando sob a forma de máfias
ou milícias territórios e populações."

Pois é. O apoio ao poder público e à presença do Estado neste momento
não pode ser ingênuo nem simplificar o que é complexo. Esquecer pontos
como o das milícias. Do contrário, os fatos de hoje serão apenas um
traço na história como a operação do Exército há 16 anos.

Os problemas do Rio não podem ser enfrentados com olhos em 2016. Por
vários motivos. Um deles, é que antes tem 2012, quando chefes de
Estado do mundo inteiro podem voltar a discutir aqui a questão
ambiental, na Cúpula da Terra Rio+20. Mas antes de 2012, tem o dia 27
de novembro de 2010. E o que tem o dia de hoje? Hoje é o tempo
presente, em que os 11 milhões de moradores da Região Metropolitana do
Rio querem o início de uma resposta duradoura e em que milhões de
brasileiros sabem que essa é uma batalha essencial.

Várias batalhas essenciais do país serão enfrentadas no governo que
começa em 35 dias. Não podem ser adiadas pela agenda intensa de
eventos internacionais que temos pela frente, mas principalmente não
podem ser adiadas por nós mesmos. O governo Dilma ainda está apenas no
esboço. Há alguns bons sinais e outros preocupantes. O ministro Guido
Mantega, que nos últimos anos incentivou o aumento excessivo dos
gastos públicos e que, com manobras contábeis, tirou credibilidade de
indicadores fiscais, foi confirmado no cargo e diz que fará, agora,
ajuste fiscal. Será o início do neomanteguismo? No dia seguinte, sua
proposta foi a de mudar o cálculo do índice de inflação retirando
alimentos e combustíveis. Em vez de atingir a meta, mudar o termômetro
que mede a meta. Isso sim se parece mais com o pensamento convencional
do ministro da Fazenda.

Se existe uma coisa que o Brasil não precisa é perder batalha ganha.
As da austeridade fiscal e da credibilidade de indicadores já foram
vencidas. Não podemos retroceder. Entre outras razões porque o mundo
piora a cada momento. Esta semana o fantasma que ronda a Europa deu
mais volteios. O temor é de que ele chegue à Espanha. Ontem, José Luis
Zapatero fez um discurso ameaçador aos mercados, avisando que eles
terão que pagar parte da conta. Irlanda, Grécia e Portugal somados têm
PIBs de US$750 bilhões. O da Espanha é de US$1,4 trilhão. Quase o
dobro dos outros três. O euro caiu 3% na semana.

Num mundo mais instável, o Brasil não pode ceder terreno conquistado,
precisa consolidar velhas vitórias e buscar novas. Uma delas será nas
ruas do Rio. Teremos mais chance se soubermos que a vitória não virá
apenas de um espetáculo, mas após uma longa sucessão de acertos.

Arquivo do blog