O GLOBO
Todo jornalista sabe que fatos têm importância elástica. O que foi manchete ontem pode acabar — em geral, acaba mesmo — como nota de pé de página amanhã ou depois.
Essa lição de humildade corre o risco de levar pessoas sérias a meditar sobre o caráter efêmero das ações humanas.
Há quem sustente que os jornalistas deveriam calibrar com maior comedimento o tamanho e a ênfase de suas manchetes, e o espaço que os assuntos de hoje devem ocupar nas edições que o leitor receberá amanhã.
No fim de semana, essa questão esteve na cabeça de muita gente, a propósito da cobertura do desastre com o avião da Air France. Para a mídia brasileira, ele continuava a ser o tema de muito interesse. Notícias da Europa davam conta de que a mídia francesa começava a baixar a bola.
Parecia que o pessoal lá da parte de cima do mapa tinha razão.
O impacto emocional da tragédia não diminuíra — mas faltava lenha para a fogueira. No Brasil muitos começavam a dar razão aos franceses e seus vizinhos. Era como se começasse a ganhar força a impressão de que as vítimas e os restos materiais da tragédia tinham sido engolidos para sempre.
Mas sábado tudo mudou, com a notícia de que começaram a ser encontrados corpos de vítimas e destroços.
A novidade reacendeu a fogueira. É curioso: isso em nada alterou as dimensões e a natureza da tragédia. Nem garante que agora será possível explicá-la.
Pouco importa. O fato novo representa, com todo o respeito, algum consolo para as famílias das vítimas encontradas.
Além disso, permanecem vivas as esperanças de mais e mais descobertas, que façam menos denso o mistério do acidente. Muitas famílias poderão sepultar os seus mortos, o que faz bastante diferença.
Também aumentaram as possibilidades de que se chegue mais depressa ao único consolo disponível para todo mundo: uma explicação que evite desastres semelhantes.
Até agora, a tragédia continua com três suspeitos: a empresa aérea, os fabricantes do avião e as condições meteorológicas na rota do voo. Desconfio, sem qualquer base para isso, que vai acabar sobrando para as densas e imprevisíveis nuvens do Atlântico.
De qualquer maneira, com as notícias do fim de semana, devem ter desaparecido, na mídia local e estrangeira, os defensores da ideia de que a cobertura da tragédia começava a perder importância para seus leitores, ouvintes e espectadores.