O GLOBO
A Lei Seca está em vigor no país inteiro desde junho do ano passado. Teve lançamento de transatlântico, mas hoje lembra um cargueiro velho, que faz água — na verdade, outros líquidos — por todos os lados.
É uma triste constatação. Parece que os pessimistas tinham razão, e nunca é bom quando isso acontece.
Mas os números de pesquisas oficiais, patrocinadas pelo Ministério da Saúde, falam alto. Em dezembro de 2007, 2.1% dos motoristas ouvidos confessaram que dirigiam depois de beber. Um ano depois, com a lei valendo há seis meses, a porcentagem era de 2,6%.
Outros levantamentos revelaram que a proibição foi eficaz durante uns quatro meses. É muito pouco.
Ou seja, os brasileiros não pararam de beber e dirigir por terem consciência de que isso era comportamento antissocial e também um risco para eles mesmos. Na verdade, andaram na linha apenas por medo de serem apanhados pela fiscalização.
Enquanto esta foi frequente e visível, os motoristas ficaram na linha. Quando as blitzes escassearam, o comportamento irresponsável voltou às pistas.
Segundo as pesquisas, o problema é maior entre os homens.
Na verdade, sempre foi. Eles e elas têm consciência de que beber e dirigir é um risco. E o macho se acha mais macho por correr riscos.
Existem razões para a diminuição na diferença de postura entre os sexos. Há mais mulheres trabalhando e conquistando independência financeira. Faz sentido que comecem a ter atitudes mais parecidas com as dos homens, inclusive as condenáveis.
Elas trabalham fora, ganham seu próprio dinheiro — e estão bebendo mais. Ainda menos do que eles, mas os índices estão crescendo.
O Ministério da Saúde anuncia uma nova campanha, unissex, com o lema "dirigir alcoolizado, quando não dá morte, dá cadeia." Palpite de amador: seria melhor "bêbado" do que "alcoolizado". É mais forte, mais coloquial.
Ninguém xinga ninguém de "alcoolizado".
Mas nenhuma campanha irá muito longe se os motoristas não sentirem como real e iminente o risco da cadeia. A Polícia Rodoviária Federal diz que o problema só continua grave nas cidades, porque nas estradas as blitzes continuam. Ela atribui a isso o fato de que nas suas barreiras o número de motoristas embriagados encontrados caiu de um em cada nove para um em 16.
Depoimento pessoal, de valor muito relativo: dirijo em estradas — sóbrio, sempre impecavelmente sóbrio — quase todo fim de semana. Há muito tempo que não vejo uma blitz pela frente. Certamente uma coincidência.
Seja como for, nas ruas e nas estradas, números oficiais indicam cerca de 17 mil mortes por ano em acidentes causados por embriaguez. O ministro José Temporão está coberto de razão ao rezar para que a Lei Seca acabe pegando.
Campanhas publicitárias com certeza podem ajudar. Mas se as blitzes nas cidades continuarem escassas — principalmente à noite e nos fins de semana — dificilmente os bêbados ao volante darão atenção aos apelos por sobriedade.