O governo transforma a Secretaria da Pesca em
ministério, amplia o orçamento e cria mais de uma
centena de cargos de confiança. Só falta avisar os peixes
Otávio Cabral
| Lucio Tavora/Ag. A Tarde/Ag. O Globo |
| NOVA PROMESSA O presidente Lula acredita que o novo ministério vai ajudar o Brasil a aumentar a produção de pescado: piraju ou beijupirá? |
A Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca existe há cinco anos e meio, já consumiu 1,3 bilhão de reais em recursos de custeio e investimento, mas não conseguiu aumentar a produção brasileira em uma mísera sardinha. O Brasil, embora tenha os maiores rios do mundo e uma das mais extensas áreas litorâneas do planeta, ocupa a vigésima posição no ranking mundial dos produtores de pescado, atrás de países como Chile e Peru. Na semana passada, o governo encontrou a solução do problema. Em uma solenidade na Bahia, o presidente Lula anunciou a criação do Ministério da Pesca, que passará a contar com um orçamento anual de 520 milhões de reais, apoiado em uma estrutura que pode ultrapassar os 1 000 funcionários e terá representações em todos os estados. Não se sabe se o novo ministério vai aumentar a produção pesqueira, mas os peixes já aprovaram a medida. A nova repartição nasce com 150 novos cargos de confiança, aqueles empregões que não exigem concurso público nem qualificação profissional do candidato. Basta, como se diz, ter uma peixada.
| Zuleika de Souza/Cbpress/AE |
O NOVO MINISTRO
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O agora ministro da Pesca, o petista Altemir Gregolin, entende do assunto. Em 2006, ele arrumou um emprego na secretaria para a professora Angela Slongo, mulher do padre Olivério Medina, terrorista das Farc refugiado no Brasil – uma peixada encomendada pelo PT. A secretaria também é acusada de conceder registro a falsos pescadores, que, durante o período de proibição da pesca, recebem uma espécie de bolsa-família. Atualmente, 400.000 pescadores recebem um salário mínimo por mês, benefício que vai custar cerca de 650 milhões de reais até o fim do ano. O cadastramento dos pescadores é feito pelos técnicos da secretaria. O Ministério do Trabalho, responsável pelo pagamento do benefício, já detectou a inclusão no programa de pessoas que nunca entraram num barco nem manusearam uma rede de pesca. Viraram "pescadores" e entraram na lista, ao que tudo indica, como peixes de alguém.
"A secretaria sempre priorizou a política em vez de tomar medidas em benefício do setor produtivo", avalia Eduardo Ono, presidente da Comissão de Piscicultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. "O governo deveria promover o acesso ao crédito para melhorar a produção", critica. Para Altemir Gregolin, com uma estrutura maior e um orçamento mais dilatado, a produção pesqueira deve crescer 40% nos próximos três anos. Na solenidade da Bahia, o presidente Lula disse que uma das metas do governo é incentivar a produção do piraju, um peixe de água doce encontrado no Pantanal, para competir no mercado com o salmão chileno. Pescador amador, o presidente entende bem de peixes, mas, neste caso, se confundiu. Na verdade, a aposta do ministério é no beijupirá, um peixe de água salgada abundante no litoral de Pernambuco.