| O Estado de S. Paulo |
| 9/5/2008 |
Um a um, os analistas internacionais vão repetindo agora que o pior já passou. E ajudam a espalhar pelo mundo um longo e profundo ufa de alívio. Num sentido, essa gente pode estar correta. Mas em outro, provavelmente não. Dias mais difíceis podem estar para chegar e isso não envolve apenas o estrago que pode ser causado pela inflação. Envolve, também, o preço da guerra contra ela, que parece inexorável. Mas sigamos degrau por degrau. A percepção de que o fundo do poço da crise financeira global foi ultrapassado não vem apenas do sumiço do pânico. As telas dos computadores dos analistas já reúnem fatores que apontam para a superação. Aqui vão alguns: Em 22 de abril, o interessado teve de pagar US$ 1,60 para comprar 1 euro. Ontem, bastava US$ 1,54. É o dólar já mais forte. O Índice Dow Jones, um dos que medem o comportamento da Bolsa de Nova York, oscila em torno dos 13 mil pontos, apenas 8% abaixo do pico em 9 de outubro passado, de 14.164 pontos. Isso mostra que aplicações de risco estão atraindo. O nível do desemprego americano mantém-se ao redor dos 5% e não mostra retração significativa na oferta de postos. A evolução do PIB no primeiro trimestre do ano, considerado auge da crise, foi de 0,6%, longe da vertigem antecipada pelos analistas. A destruição de riqueza imobiliária prossegue nos Estados Unidos, o que prenuncia aumento da inadimplência e do movimento de execução das hipotecas. Mas é um dado da realidade entendido como preço a pagar. Não tem nada a ver com a catástrofe anunciada pelos profetas do Apocalipse. De vez em quando voltam os temores de que alguns bancos terão de acusar prejuízos gigantescos, mas, depois que o Bear Stearns foi resgatado da boca do leão, ninguém mais acredita que banco possa falir. E, se não chegaram, os cheques de devolução de impostos (total de US$ 167 bilhões) estão a caminho, ajudando a criar a sensação de que há um lindo arco-íris pintado no céu. O diabo é que tem coisa braba acontecendo e ainda para chegar. O petróleo a US$ 124 por barril, a gasolina a US$ 3,70 por galão (3,78 litros) e a escalada nos preços dos alimentos avisam que a inflação americana tem tudo para passar dos 4,5% neste ano (foi de 2,8% em 2007). O último encontro do Grupo dos Sete (G-7, países mais ricos do mundo), em abril, deixou claro que os principais bancos centrais preparam operação conjunta (até onde é possível coordená-las) para evitar o avanço da inflação global e a excessiva desvalorização do dólar nos mercados. E da preocupação conjunta que transpareceu do encontro dos presidentes dos bancos centrais realizado no último fim de semana na cidade de Basiléia, ficou entendido que a inflação vai ser atacada. Ontem, apesar das reclamações sobre a redução da atividade econômica no mundo rico, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra (banco central) mantiveram os níveis atuais dos juros. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deixou a inflação seguir seu curso porque deu prioridade à crise. Mas vai chegando o dia em que o contra-ataque terá de começar. Por enquanto, não há nenhuma avaliação do preço que essa guerra vai cobrar da economia mundial. Confira É hoje - O IBGE divulga na manhã de hoje a inflação de abril medida pelo IPCA. As expectativas é de novo disparo, acima do 0,5%, com base no que saiu no IPCA-15 (até o dia 15) e nos outros números da inflação, especialmente o IGP-DI. Mais importante do que saber de quanto foi a inflação de abril é verificar como a alta de preços está espalhada. Contra o Banco Central, o ministro Guido Mantega sustenta o ponto de vista de que não há inflação de demanda porque a alta está concentrada nos preços dos alimentos. “O resto está em torno de 3%.” A conferir. |