Quando eu era garoto, ouvia meu avô, italiano legítimo, reclamar de vez em quando com uma frase que me ficou gravada para sempre. "Piove, governo ladro", dizia. Até se chovia, a culpa era do governo ladrão. Imagino que um bom número de italianos pense até hoje como meu avô. Esse desamor deve ter ajudado a implodir por inteiro o sistema partidário italiano assim que o fim do comunismo tornou desnecessário agüentar partidos tidos como corruptos, mas que serviam como diques de contenção ao comunismo no país que teve o PC mais forte do ocidente. Pois é nesse país que a cidadania deu domingo um exemplo de mobilização que contrasta violentamente com o que ocorre no Brasil. Mais de 3 milhões de italianos votaram para eleger o novo líder do Partido Democrático, a fusão de diferentes correntes de centro e de esquerda -de ex-comunistas a ex-democrata-cristãos, entre outros. O voto não era obrigatório nem estava limitado aos filiados ao novo partido (ou aos velhos grupos que compõem agora o PD). Mais ainda: pagava-se para votar. Só 1, mas pagava-se. Compare-se com o número dos que votaram no primeiro turno da eleição do PT, em 2005, no auge da crise do mensalão, o que, em tese, deveria provocar uma mobilização intensa. Foram apenas 315 mil, pouco mais ou menos. Duas observações: o PT continua sendo o partido de maior número de filiados e militantes; o Brasil tem uma população mais de três vezes superior aos 60 milhões da Itália. Meu avô emigrou para o Brasil em 1888, o que indica que considerava os políticos italianos ladrões quando o Brasil ainda nem estreara a República. Um século e tanto depois, os italianos ainda se mexem para votar em pleito interno. Ah, já não precisam emigrar. A Itália, sexta economia do mundo, tem invejável qualidade de vida. |