| O Globo |
| 10/4/2007 |
Não é difícil escolher qual Tony Blair merece mais simpatia: o personagem do filme ganha fácil do inquilino de Downing Street na vida real. Quem viu "A rainha" sabe do que estou falando. Na tela, o primeiro-ministro está estreando no poder. O que torna mais difícil o desafio de ensinar a Elizabeth II a necessidade de romper normas e tradições para evitar um perigoso distanciamento entre a opinião pública e a família real. A ex-nora Diana morre num desastre em Paris, e a opinião pública exige funerais de princesa. Elizabeth cede a contragosto, mas se recusa a abandonar as férias anuais na Escócia e se associar de corpo presente às homenagens populares. A custo, o primeiro-ministro - a todo momento atrapalhado por uma chatíssima Sra. Blair - consegue convencê-la do contrário. Foi com essa batata quente que, no filme como na vida, o jovem trabalhista iniciou sua longa estada no poder. Aquele Blair tinha uma coisa ou duas a ensinar ao Blair que, no último capítulo de sua temporada no poder, mergulhou de cabeça na desastrada intervenção americana no Iraque. A conseqüência mais recente disso foi o episódio da prisão de marinheiros ingleses pelo Irã, que os acusou de invadirem suas águas territoriais. Os aiatolás - contrariando sua folha corrida - exploraram o episódio o quanto puderam, antes de devolverem os ingleses espontaneamente. Como é de praxe, os prisioneiros fizeram declarações favoráveis aos carcereiros enquanto estiveram em suas mãos, e as desmentiram enfaticamente ao voltarem para casa. Não apresentavam sinais visíveis de maus-tratos, e Teerã parece ter ganho alguns pontos no episódio. No filme, um episódio crucial é o do hasteamento da bandeira inglesa a meio-pau no Palácio de Buckingham, exigido pela opinião pública. Elizabeth alegava que não podia ordená-lo porque a bandeira só era hasteada, a qualquer altura, quando ela estava em casa. E Blair teve um trabalhão para convencê-la de que não importava o costume, e sim a necessidade de mostrar que a rainha compartilhava o sentimento do povo. Hoje, o constrangimento sofrido pelo governo Blair não prova que o regime iraniano é democrático ou confiável. Mas mostra os riscos inevitáveis das intervenções militares em terras alheias. Tony Blair com certeza faria um bem danado à sua biografia se visse mais filmes e desse menos ouvidos a Washington. |