Todo mundo sabe por que Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela, e está cada vez mais evidente aonde ele realmente quer chegar: a uma "república socialista", com fechamento econômico e endurecimento político. Chávez combina fim da autonomia do Banco Central, reestatização e nacionalização de empresas, não-renovação da concessão da RCTV (importante rede de televisão de oposição) e a perturbadora perspectiva de reeleições ilimitadas para ele mesmo. Resultado: as Bolsas despencaram, e os investidores externos devem botar as barbas ainda mais de molho diante dos cenários da América Latina. Inclusive porque Chávez tem simpatias na Bolívia, na Nicarágua, um tanto na Argentina e provavelmente no Equador. Mas o Brasil lava as mãos, seja por afinidade ideológica, seja por pragmatismo contábil, já que a Venezuela de Chávez se transformou num mercado milionário para empreiteiras e produtos brasileiros. De janeiro a novembro de 2006, o Brasil exportou US$ 3,3 bilhões para o vizinho, US$ 1 bilhão a mais do que para França e Reino Unido. A contabilidade, porém, não pára aí, pois a Unctad (a agência da ONU para desenvolvimento) alerta que a América Latina foi a única região do mundo onde os investimentos diretos recuaram no ano passado. Por quê? Por temor de quebra de contratos e de expropriações. Ou seja: o que o Brasil ganha em exportações para a Venezuela pode perder em investimentos do resto do mundo, no rastro das restrições ao continente. Especialmente se as relações Chávez-EUA degringolarem de vez, como parece. A reunião de cúpula do Mercosul, nos dias 18 e 19, no Rio, deve virar uma confusão danada, mas ninguém pode reclamar. Chávez não esconde mais a que veio, o Brasil já sabe exatamente aonde ele quer chegar, e a inclusão da Venezuela foi um risco calculado. Ou não? |