| O Globo |
| 10/11/2006 |
Um feroz ditador é derrubado e preso. Levado a julgamento, sentenciam-no à morte. Assim resumida, a situação no Iraque destes dias parece lógica e, pelo menos, vagamente animadora. Na verdade, o futuro do país é a cada dia mais incerto; episódios de violência e fracassos políticos superam em muito a escassa safra de notícias animadoras. Com exceção dos Estados Unidos (um dos poucos países civilizados que mantêm a pena de morte em suas leis), a opinião pública mundial recebeu com muitas restrições, algumas críticas e nenhum otimismo a condenação de Saddam Hussein pelo massacre de quase 150 xiitas na década de 80. Os motivos de preocupação foram bem resumidos por Terry Davis, secretário-geral do Conselho do Parlamento Europeu: "Um país devastado por violência e morte não precisa de mais violência, muito menos de uma execução orquestrada pelo Estado. Hussein é um criminoso: não devemos permitir que se transforme em mártir." Não há denúncias substanciais de que a condenação de Saddam tenha sido uma farsa. Mas é opinião da maioria dos observadores estrangeiros (com exceção do governo americano) de que o julgamento teve erros graves. O que era provavelmente inevitável num país dividido, sob intervenção estrangeira e com zero experiência no gerenciamento de instituições democráticas. O veredicto contra Saddam pode ser tecnicamente correto. Mas, do ponto de vista político, até agora só ajudou a aumentar o pessimismo mundial sobre as chances de paz no país e no Oriente Médio. E isso acontece num momento em que as duas potências mais fortemente responsáveis pelo projeto de democratização da região, EUA e Reino Unido, têm governos enfraquecidos pelo fracasso de sua cruzada. Outro dia, num editorial, o "New York Times" resumiu adequadamente o que se desejava dos muitos processos contra Saddam: "...uma aplicação exemplar de leis democráticas, responsabilizando o ditador por todos os seus crimes e também conseguindo pacificar e educar uma nação que ele dividiu de forma tão violenta". A primeira condenação fica muito longe disso. E não há sinais de que haveria progresso na pacificação do país com a execução de Saddam, como resultado do atual julgamento ou de algum dos muitos que estão na fila. Não admira. Até agora, as tropas de ocupação e os administradores nativos que elas protegem quase nada avançaram no sentido de estabelecer uma democracia no Iraque. Nem mesmo uma democraciazinha modesta, amarrada com barbante e colada com cuspe, como tantas que existem em áreas de influência das potências ocidentais. No caso específico do Iraque, o principal obstáculo é de conhecimento público: ainda não se viu qualquer sinal de que os três grupos que dividem o país tenham condições - para não falar em desejo - de conviver em paz sob uma mesma bandeira. E ninguém tem a ingenuidade de imaginar que o sacrifício do ditador deposto eliminará esse formidável obstáculo. Será só um bandidão a menos no mundo. |