sexta-feira, outubro 20, 2006

Luiz Garcia - Fatos e fotos



O Globo
20/10/2006

A exibição de armas e provas de crimes apreendidas com bandidos é tradição na polícia brasileira.
Tudo costuma ser feito com um capricho de mesa da festa de primeiro aniversário do primogênito. São trouxinhas de maconha cuidadosamente empilhadas, armas separadas segundo marca e tamanho, o nome da unidade policial escrito com cápsulas e cartuchos.

Nada de errado nisso: que mal existe na celebração de uma vitória contra o crime? E são fotos garantidas no jornal do dia seguinte. Pode ser otimismo demais, mas, sabe-se lá, a exibição de uma derrota da bandidagem pode até desviar algum adolescente do mau caminho.

Não deveria ser diferente quando o crime é político. É suposição gratuita e malandra se afirmar que simplesmente exibir provas materiais da má conduta agrava a situação dos culpados. Principalmente se os fatos relevantes são conhecidos e a tramóia está documentada, e já foram dados nomes a todos os bois.

Quatro anos atrás, um caminhão de dinheiro (R$1,3 milhão) foi encontrado no escritório do marido de Roseana Sarney, filha de José e pré-candidata à presidência da República. Ela desistiu da candidatura quando fotos das pilhas de notas foram distribuídas pela Polícia Federal e publicadas. Mas nunca falou em processar os jornalistas responsáveis. Sabia que seu problema era a existência da dinheirama, não a imagem das cédulas.

A Polícia Federal, como as estaduais, sempre divulgou ou permitiu fotos de dinheiro, armas, drogas etc. apreendidos em suas operações, e o atual ministro da Justiça jamais discordou disso. Por que, então, andam tratando como grave escândalo a divulgação, pelo delegado Edmilson Bruno, de fotos de parte de um monte de dólares e reais apreendidos com petistas?

Principalmente sendo já notório, e aceito sem discussão, que eles usariam o dinheiro para comprar um dossiê contra os candidatos do PSDB à presidência e ao governo de São Paulo.

Beira o ridículo alguém afirmar que as fotos têm importância crucial, superior à dos fatos - principalmente se esses ninguém desmente. Não por acaso, o TSE rejeitou um pedido do PT para que proibisse a publicação das fotos.

E não foi por incompetência dos autores que uma reportagem da revista "CartaCapital" não consegue provar uma conspiração da mídia (juntando os principais jornais de São Paulo mais O GLOBO e a Rede Globo) para supervalorizar a história do dossiê de R$1,7 milhão. Seria preciso mostrar que o dinheiro não existia e o dossiê era verdadeiro. Exatamente o contrário ficou provado, e o presidente Lula mais uma vez teve de mandar para casa uma leva de assessores culpados, digamos com piedade, de excesso de entusiasmo.

No fim das contas, e no que se refere a estas eleições, em que as favas já estão praticamente contadas, o caso tem zero importância. Sua única importância acabou sendo contrariar uma frase feita do jornalismo. Afinal, as fotos da trapalhada petista acabaram valendo muito menos do que mil palavras.