Domingo passado, o Rio acordou com quatro corpos, de um total de cinco mortos num terrível acidente, numa calçada da Lagoa. Passei por lá logo cedo e vi ainda cenas de desespero. Eles eram jovens; foi o que mais chocou. O que está acontecendo com jovens no Brasil é dramático: nossos meninos e meninas correm extremo perigo. O pai de Ana Clara, uma das vítimas, lamentou: o acidente será apenas um dado na estatística. Mas as estatísticas estão gritando pela atenção dos brasileiros.
Os dados revelam que as mortes de jovens por causas externas - nome técnico dado às mortes que não são por causa natural, mas por violência ou acidente de trânsito - estão aumentando. Elas afetam principalmente os rapazes, em proporção 8,5 vezes mais que as moças. O acidente da Lagoa foi diferente nisso; nele morreram mais moças. É um alerta de que jovens do sexo feminino, que se pensava que estivessem mais protegidas contra o risco de morte, podem entrar também na mesma espiral dos perigos crescentes.
Há um número espantoso: oito milhões de jovens brasileiros não estudam, não trabalham, nem procuram trabalho na faixa entre 15 e 29 anos. O dado está num estudo coordenado por Ana Amélia Camarano, do Ipea, sobre transição para a vida adulta. As pesquisadoras se perguntam: “Estão fazendo a transição os jovens que não estudam, não trabalham, nem procuram trabalho?”
Se eles nem procuram trabalho, estão fora das estatísticas de desemprego, porque o que os institutos medem é o insucesso da procura; se não há procura, eles são invisíveis. O que Ana Amélia, junto com Solange Kanso, Juliana Mello e Adriana Andrade mostram é que, na transição normal, primeiro o jovem cumpre a educação formal, depois entra no mercado de trabalho. No Brasil, freqüentemente, isso não acontece. Jovens acumulam ou saem cedo demais da escola. “Do ponto de vista social e econômico, não freqüentar escolas pode acarretar prejuízos ao desenvolvimento do país, uma vez que a educação é apontada como um fator fundamental.” No estudo, o que elas querem investigar é se os jovens não procuram trabalho por desalento; se não estudam por falta de condições econômicas.
- Esses dados podem estar escondendo os jovens que trabalham para o tráfico de drogas - diz Ana Amélia.
Em outro estudo, Helder Ferreira e Herton Ellery Araújo perguntam-se: “O que está privando os jovens de completarem sua transição para a vida adulta?” A resposta está no texto: de 1980 a 2000, o Brasil conseguiu reduzir em 60% a mortalidade de pessoas com menos de 15 anos, mas aumentou em 18% a mortalidade de pessoas de 15 a 29 anos. Se tivesse mantido o mesmo índice, o país teria poupado, só no ano 2000, a vida de 8.500 jovens.
No blog do professor Glaucio Soares (conjuntura criminal.blogspot.com), o assunto tem sido uma constante: as mortes de jovens por causas violentas são cada vez mais numerosas e têm aumentado a cada década. O professor registra que a Lei Seca, adotada em algumas cidades depois de $comprovando aumento de mortes em áreas próximas aos bares, teve bons resultados. Em Diadema, a proibição de servir bebida após 10 horas da noite derrubou o número de mortes violentas e no trânsito. Em Brasília, o excelente trabalho de educação no trânsito, feito pelo então governador Cristovam Buarque, tirou da capital brasileira o título de uma das cidades com maior índice de mortes no trânsito.
O que fazem com seu tempo os jovens que não estão na escola, nem trabalhando, nem querendo trabalhar? Estão em risco, expostos, assim, ao nada fazer, mas, ao mesmo tempo, é o país que está perdendo: oito milhões é uma população maior que a de todo o Rio de Janeiro; é de um país do tamanho da Áustria.
Evidentemente, nem todos estão expostos aos mesmos riscos. Ana Amélia conta que se surpreendeu com o número de jovens do sexo feminino que, nessa faixa, não estudam, nem trabalham, nem procuram trabalho por estarem dedicadas ao papel tradicional da mulher, de mães e esposas.
- Me impressionei também com o aumento do número de jovens de 25 a 29 anos que estão na mesma condição de não estudar, nem trabalhar - disse ela.
Ana Amélia conta que há uma concentração de jovens pobres nessa situação; principalmente no Nordeste. Quanto menor a renda da família, maior a proporção de jovens que não estudam nem trabalham, especialmente de homens. Quanto maior a renda da família, maiores as chances de se encontrar um jovem, independentemente do sexo, que só estudava ou combinava as duas atividades. As estatísticas de morte violenta de jovens mostram que há um número maior de vítimas no Rio, e muito maior de negros.
Nessa campanha eleitoral estéril, em que nada se discute de relevante, os jovens estão morrendo como resultado dos nossos erros como sociedade. Há políticas que podem poupar vidas: a educação do trânsito, como houve em Brasília, ou as restrições à venda de álcool em áreas onde, comprovadamente, há riscos, como aconteceu em Diadema. Está claro que é preciso trabalhar para manter os jovens pobres nas escolas e aumentar a oferta de oportunidades no mercado de trabalho. Essa tragédia tem vários lados, e o país precisa elaborar políticas ou adotar medidas que protejam rapazes e moças da interrupção abrupta e trágica dos sonhos e projetos. Expostos aos riscos numa sociedade que não tem sido capaz de os proteger, eles morrem prematuramente, sem se dar conta de como são preciosos, para os seus, para o país.