quinta-feira, setembro 07, 2006

A meta ficou para trás celso ming

A meta ficou para trás

celso.ming@grupoestado.com.br

Sem pacotes e sem controle de preços, a inflação brasileira vai assumindo padrão dos países civilizados.

Medida pelo IPCA (custo de vida), a inflação de agosto foi de apenas 0,05% e acumulou nos primeiros oito meses deste ano um avanço de 1,78%. Nenhum analista esperava números tão baixos. As projeções estão agora sendo revistas. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), organismo ligado ao Ministério do Planejamento, divulgou ontem nova estimativa para a inflação deste ano: 3,3%. Como foi feita antes de ser conhecida a inflação de agosto, é possível que essa projeção tenha de ser revista, também para baixo.

Apenas para comparar, Espanha (inflação projetada de 3,7%) e Estados Unidos (3,5%) são países do clube dos ricos que deverão ter um custo de vida em 2006 mais alto do que o do Brasil, segundo a revista The Economist.

São dois os pontos de avaliação. O primeiro foca as causas desse recuo; o segundo, suas implicações para a política de juros.

Corre por aí uma interminável e desimportante discussão sobre se essa queda da inflação se deve mais à valorização do real do que à política de juros. Difícil separar uma coisa da outra. O câmbio é um dos canais de transmissão pelos quais os juros atuam sobre a inflação. Juros altos contêm o crédito e o consumo que, por sua vez, seguram as importações e levam o produtor para as exportações. O resultado disso tende a ser a valorização da moeda (dólar mais barato em reais). Mas o câmbio baixo também ajuda a conter a inflação na medida em que baixa em reais os preços dos produtos importados, o que puxa para baixo os preços dos sucedâneos nacionais. Os dois fatores se influenciam.

Quanto à força da política de juros, os críticos da atual política se dividem em duas correntes. Há os que afirmam que a política de juros não funciona e outros, que funciona demais, tanto que o Banco Central exagerou na dose a ponto de ser responsável pelo baixo crescimento. Os que duvidam da eficácia da política de juros tendem a dar maior importância à ação do câmbio. Os que reconhecem a força dos juros pedem que o Banco Central seja ajudado na tarefa por outros mecanismos de contenção de preços.

Na verdade, nessa tarefa o Banco Central vem contando com grande ajuda da Petrobrás. Por motivações indisfarçadamente eleitorais, os preços dos combustíveis não foram reajustados neste ano. Em julho, o petróleo chegou perto dos US$ 80 por barril de 159 litros, mas os preços da gasolina e do diesel ficaram calibrados a preços internacionais à altura dos US$ 66. Agora, o mercado negocia petróleo a US$ 69 e já não se vê motivo para grandes reajustes neste ano.

Falta falar sobre o impacto na política de juros. O Banco Central também foi surpreendido pelo comportamento da inflação. Prova disso foi o adiamento da fase de "parcimônia" no último corte dos juros. É provável que a inflação deste ano, bem mais baixa do que a meta (4,5%), exigirá cortes de 0,5 ponto porcentual também nas duas últimas reuniões do ano (18/out e 29/nov). Se isso se confirmar, o ano acabará com os juros básicos em 13,25% ao ano e os juros reais (descontada a inflação) ainda acima dos 10%.