No tempo da ditadura, o Hino Nacional era de propriedade e uso exclusivo do governo e das Forças Armadas. Ao povo restava cantar, quando autorizado, em eventos patrióticos. E em Copas do Mundo. Com a redemocratização, o Hino caiu na boca do povo, mas, como se sabe, brasileiro adora um excesso -e um atraso-, e logo surgiram gravações de guitarristas nacionais tentando "desconstruir" o Hino, à maneira de Jimi Hendrix em Woodstock, 15 anos depois, em caricaturas dignas do Brasil de 1986. Cantoras populares se aventuraram em interpretações intensas e patrióticas e, apesar de seus dotes vocais e suas boas intenções, causaram mais risos do que lágrimas de emoção. Publicitários baianos produziram até festivas versões axé do Hino Nacional, com o Olodum, divertidas como uma macumba para turista. Agora, recebi um e-mail com um mp3 de João Gilberto cantando o Hino Nacional, gravado ao vivo por algum pirata-do-bem, que o pôs na internet. É uma das coisas mais lindas e emocionantes que já ouvi. É tudo absolutamente simples e sóbrio, nada de ritmos buliçosos nem de populismo musical. Mestre do rigor e da discrição, João jamais faria uma versão "bossa nova" do Hino, com batidinha suingada. Ele não interpreta, apenas canta, com emoção contida, tirando qualquer aspecto marcial da música com a doçura de sua voz, apenas dedilhando no violão os acordes -e que acordes! É como se o ouvíssemos pela primeira vez. A gravação histórica é uma metáfora musical do Brasil de nossos sonhos, que nasceram nos anos JK e depois se pulverizaram em ilusões. O Brasil de João Gilberto não tem brados retumbantes, tem o sentimento profundo da beleza, das grandezas e tristezas nacionais: é o hino de um país imaginado. |