Primeira Leitura
Vamos lá. Deixe-me aqui provocar um pouco o desprezo dos
especialistas em pesquisas: pelo menos metade dos brasileiros é
contra Lula, a sua reeleição, a bandalheira em curso no país. Metade
não cai nessa conversa de que sempre foi assim e reconhece que, ainda
que a política não tenha sido conduzida por santos até a chegada do
PT ao poder, cresceu enormemente o despudor. Metade ainda está, por
uma questão de racionalidade comum, disposta a escolher o mal menor.
E reconhece em Lula o mal maior.
De onde tiro essa metade? Daqueles dispostos a votar em Alckmin
somados a indecisos e votos brancos e nulos. Aplique-se ali margem de
erro, e se chega facilmente a essa conclusão. Sim, eu mesmo escrevi
aqui, quando foram divulgados os números do Ibope, que essa fatia
ainda sem candidato acaba se distribuindo entre Lula e Alckmin. Sim,
tudo o mais constante, é mesmo verdade. Mas vou aqui raciocinar por
hipótese e supor que tudo o mais não permanecerá constante.
Este texto é um recado à campanha de Alckmin. Os que sempre nos
acusaram de tucanos podem perceber a nossa intimidade com o partido.
Em vez de ligar para o “nosso” candidato, numa prova de proximidade,
recorro a um texto público. Os petistas podem ficar tranqüilos: os
tucanos não darão a menor bola. Sempre sabem “o que fazer”, como
diria Lênin... Nelson de Sá, colunista da Folha, parece ter
percebido. Ele nos chamava antes de “blog tucano”. Agora, de “blog de
oposição”. Nada a opor.
Maioria silenciosa
A única chance de as oposições vencerem as eleições é apelar àquilo
de que parecem ter verdadeiro pavor: a maioria silenciosa. Numa
democracia de massas, assaltada por variadas formas de
“militantismo” (incluindo o do PCC), essa maioria se recolhe, engole
as restrições que tem, se cala e fica à espera de um sinal, de alguma
voz pública que a convoque para a batalha. Como diria São Paulo na 1ª
Epístola aos Coríntios, essa gente espera distinguir claramente o som
dos instrumentos para decidir que rumo tomar. E é justamente isso o
que não vem.
No texto anterior, demonstrei como Lula, num único discurso, atacou
severamente os tucanos e, querendo ou não, passou a mão na cabeça dos
bandidos do PCC — em parte, para mitigar a vergonhosa omissão de seu
governo nos assuntos de segurança —, santificando-o. Sobre os
policiais mortos, não disse uma miserável palavra. Será que o homem
comum, este que chamo de maioria silenciosa, que não é bandido,
concorda com Lula? Estou certo de que não concorda.
Assim como o pobre rejeita a suposição de que é a miséria que está na
origem da violência. O próprio Lula, aliás, deveria explicar, então,
por que não é um bandido. Ou teria ele, por obra divina, escapado de
um destino inexorável? Está certo que o procurador-geral da República
acusa 40 de seus amigos de quadrilheiros, mas é uma quadrilha de
outra natureza, como sabemos.
Ah, mas aí vem o grande temor de setores do tucanato de que uma
campanha que enfoque tais aspectos, com clareza insofismável, seja
confundida com “coisa da direita”, uma marca da qual fogem como o
diabo da cruz, cedendo, assim, à patrulha politicamente correta.
Reportagens sem fundamento que tentaram vincular Alckmin ao Opus Dei,
uma prelazia papal, foram rechaçadas de imediato, como se a
organização estivesse ligada a alguma prática criminosa. Esses
setores tucanos, sei, têm medo de certa mídia. Façam as contas e
depois me digam: o que vocês acham que vai render mais artigos de
jornal: a leitura sociológica que Lula fez do PCC ou a suposta (e
falsa) ligação de Alckmin com o Opus Dei? Meçam o noticiário se
tiverem tempo. Eu já sei a resposta. Para certo jornalismo, o PCC é
muito menos perigoso. Afinal, seus membros sofreram muito quando
tinham quatro ou cinco anos, como lembrou Lula.
Essas alas da oposição jamais teriam a coragem de comprar a briga
contra as cotas universitárias, embora elas atendam a uma minoria
organizada, que já é base eleitoral cativa do PT, e atentem contra os
direitos da maioria. Oh, que horror! Isso seria considerado uma coisa
“de direita”. E, afinal, no Brasil, somos todos, como sabemos, homens
bons, honestos, virtuosos, bem-intencionados e de centro-esquerda.
O Bolsa Família, hoje, tornou-se um instrumento de caçar votos. Mas
também isso não será dito porque, credo!, poderão dizer que os
tucanos e pefelistas, se chegarem ao poder, tentarão acabar com esse
benefício. É claro que não se trata de acabar, mas de fazer a devida
crítica e de corrigir seus rumos. É bom lembrar que a maioria
silenciosa não é atendida por bolsa nenhuma.
O MST, sob o governo Lula, passou a invadir terras produtivas, a
depredar aparelhos da agroindústria e a chantagear abertamente as
instituições. Nem mesmo existência jurídica tem. Mas também é outro
confronto que não se quer comprar. Vai que digam que tucanos e
pefelistas, porque combatem as utopias autoritárias do sr. Stedile,
sejam partidos de direita... O governo de São Paulo, diga-se, em vez
de chamar a polícia, fez acordos com cooperativas ligadas ao
movimento no Pontal do Paranapanema. Não porque concordasse com ações
criminosas. Mas porque cedia à chantagem de um movimento supostamente
social. Também é preciso ficar atento à patrulha politicamente
correta exercida pelo colunismo isento e progressista! Como sabemos,
a suposição de que um político possa usar cilício é coisa muito mais
grave do que a evidência de que ele rouba o Estado — ainda que em
nome de uma causa.
Sabem por que a maioria é contra Lula, mas Lula tem o voto da
maioria? Porque aqueles encarregados de chamar as coisas pelo nome
evitam fazê-lo e evitam o confronto com as forças que têm de ser
confrontadas. Não se pode vencer o PT cedendo a todas as chantagens
dos aparelhos petistas. Sobretudo quando o chefe desse partido é um
animal político raro — e é —, conseguindo encontrar um lugar no
discurso que, ao mesmo tempo, o torna independente do partido e seu
maior fator de coesão.
No que concerne à suruba dos gastos públicos, ao aparelhamento de
Estado e às medidas populista-eleitoreiras do quarto ano de mandato,
o PSDB e o PFL encontraram o caminho da crítica. Ocorre, senhores,
que essa crítica fala aos já convertidos. Quem consegue entender essa
fala e ver esses problemas já não vota em Lula — exceção feita
àqueles que lucram com o Cassino do Chacrinha.
A maioria silenciosa é o povo. Aquele mesmo povo que, não faz tempo,
diante de uma escolha entre o politicamente correto e a dura
realidade dos fatos, disse um sonoro “não” à proibição da venda de
armas legais. Porque entendeu que a questão era a proibição das armas
ilegais, contra a qual o Estado nada fazia — como se viu no caso do PCC.
Sabem quem garantiu a vitória do “não”? A tal maioria silenciosa de
que falo, o homem pobre, aquele que não é bandido, o que ainda não
teve a vontade corrompida por partido, ONGs, pastorais disso e
daquilo. Venceu-se uma poderosa máquina de publicidade, que juntou
todas as pessoas supostamente bem-intencionadas do país. Teria sido
até interessante se o “sim” tivesse vencido... Dada a explosão de
terror promovida pelo PCC, o conjunto corresponderia a uma aula
prática de política.
Que fique o recado. Quando o PSDB e o PFL se pegarem num beco sem
saída para a campanha — é preciso antes cair a ficha —, a resposta é
simples: basta descobrir o que pensa a maioria silenciosa. A maioria
que é contra Lula. E sabem o que ela quer? Um pouco mais de decência,
de verdade e de civilização. Ou se oferece isso a ela, ou Lula vai
vencer, com o voto da maioria, ainda que seja o candidato das minorias.
A tassa do mundo é noça
E, bem, uns seis meses antes de o país chegar à suposta auto-
suficiência de petróleo, dei aqui alguns toques às oposições
sugerindo ações preventivas, já que a propaganda petista era certa —
não, não incluíam explodir plataformas de petróleo. Eu falava de
política. Lula, como o previsto, privatizou mais de 50 anos de história.
Agora, ele já está coçando os 19 dedos: “Nunca, ântis, nêsti paíz, a
jente consegiu o héquissa. Foi precizo que o fílio de uma mulier que
nasseu anaufabeta xegace ao puder”. O homem é um gênio num deserto.
Governistas ganham e perdem eleições independentemente do resultado
da Copa do Mundo, como sabemos. Mas "nunca antes neste país" o Brasil
venceu com o PT no comando. Não é o caso de jogar urucubaca nos
canarinhos só por causa disso. Afinal, apear Lula do poder é tarefa
que cabe a outros jogadores — que, por enquanto, se negam a entrar no
jogo e ficam só dando toquinho de lado.
[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 4 de junho de 2006.