sábado, junho 03, 2006

Folha de S.Paulo - Fernando Gabeira: Ninguém sai vivo daqui - 03/06/2006

Na aliança que domina o espaço público, quase todos desviam dinheiro,
alguns sepultam CPIs

ÀS VEZES acho que estou sonhando: o Brasil não é isto que está aí.
Dolorosa pergunta me traz de novo ao chão: se o Brasil não é isto que
está aí, por que isto que está aí continua?
Vou livrá-los de toda a sociologia, amém, e relatar simplesmente uma
experiência. Milhões foram desviados na compra de ambulâncias.
Resolvemos investigar, recolhemos assinaturas e a CPI foi sepultada.
Os coveiros têm argumentos razoáveis, Copa do Mundo, eleições, o
próprio clima de terra arrasada depois do escândalo do mensalão.
Não pedimos jamais que se afastassem de sua sensatez. Queríamos
apenas anexar a ela o reconhecimento de que a minoria tinha obtido
apoio necessário e, portanto, com uma causa definida, tinha direitos
constitucionais.
Começa a peregrinação por justiça. No Senado, eles tomam chá e
detestam qualquer coisa que possa deteriorar as relações internas.
Nada de tensão. O que importa é manter tudo no mais alto nível,
preservar o clima cordial.
Saio duvidando da parte final da frase de Darcy Ribeiro: o Senado é o
céu e ainda não morremos. Passam os vampiros, surgem os sanguessugas
e amanhã, talvez, os traficantes de órgãos humanos. Mas é preciso que
a cordialidade jamais abandone o tremor de nossas xícaras de chá.
Resta a oposição na Câmara. Ela não responde. Amarelou? Os que têm
medo não são tantos. Guimarães Rosa me socorre: não têm medo, apenas
perderam a vontade de ter coragem, o tempo é curto, Copa do Mundo,
eleições...
Volto para casa e me pergunto: o que fazer quando passam um trator
nos seus direitos constitucionais? A resposta é: recorrer à Justiça.
Mas a imagem de um coquetel molotov emerge com a nitidez flamejante,
torrando todos os resquícios do bom-mocismo. Não fui educado na Suíça
nem temo que a lama respingue nos punhos de renda. Tenho vontade de
cantar os versos celebrizados pelo The Doors: "Ninguém sai vivo daqui".
Existe um limite para o pacifismo. O espaço público em que nos
movemos está dominado por uma aliança delicada: quase todos desviam
dinheiro, alguns têm a missão de sepultar CPIs. De forma literária:
uns queimam os ônibus e retiram as pessoas, outros queimam com todo
mundo lá dentro.
A facção do PMDB que está na aliança queima ônibus com gente dentro.
Descendo à terra: sepultam CPIs e só cedem quando forçados pelo Supremo.
Não dão importância aos fatos nem à opinião pública. O líder na
Câmara indica a mulher que controla o esquema das ambulâncias, o
ministro contrata, o líder no Senado apresenta emendas e o presidente
do Congresso sepulta a CPI. Um verdadeiro quarteto mágico. Todos do
PMDB.
Nos tempos de luta armada, era necessário saber desmontar fuzis no
escuro. Hoje sua arma é luminosa e aparece no lado esquerdo da tela:
o Google.
Grande parte dos bandidos no Congresso podem ser abatidos com o
Google. Como isto que aí está deve ser isto que aí estará nos
próximos anos, é preciso usar todas as táticas para derrotá-los, sem
perder energia para as coisas positivas que ainda podem ser feitas.
Aqui, meu poeta, que, no momento, corre o Brasil e constata, de novo,
que há lugares e gente maravilhosa, não se trata apenas de perguntar
onde é que você estava quando os persas vieram. Aqui, vou ter que
responder onde estava no tempo do irresistível avanço do Exército acaju.
Tudo isto supondo que alguém perguntará por esse tempo, alguém terá
estômago para revivê-lo. Pode ser um fim da história. Nesse caso,
responderemos com a história em quadrinhos.
Nos anos 60, a história com grandes nomes iluminava um futuro
brilhante. O presente era um recheio modesto no sanduíche de epopéias
passadas e os amanhãs que cantam.
Hoje caímos no abismo do aqui e agora. Multiplicaram-se os prazeres,
poeta, mas como doem nossas retinas. A digital é a única revolução
que nos resta. Vamos armar com ela as principais trincheiras contra a
invasão dos bárbaros.
Vamos morrer atirando bytes e pixels, alguma tinta e papel, que tanto
manejamos no passado. É a minha modesta previsão do futuro. Você
mesmo é testemunha, poeta, de quantas vezes me enganei do futuro.
Acostumei.