sábado, junho 03, 2006

Folha de S.Paulo - Editoriais: Sugestão oportuna - 03/06/2006

Desafiando a oposição a exibir cenas das CPIs, o presidente Lula se
mostra alheio às dimensões do escândalo de corrupção

ATÉ QUE é uma boa idéia. Aboletado em seus confortáveis índices de
popularidade, o presidente Lula sugeriu, em tom de desafio, que seus
adversários divulguem cenas das CPIs no horário eleitoral. "Eu quero
que eles coloquem as torturas que eles fizeram com muita gente lá."
O presidente da República parece não somente ter-se convencido da
inocência dos envolvidos mas dá mostras de acreditar também que o
eleitorado venha a apiedar-se de um Silvio Pereira, de um Delúbio
Soares, de um Duda Mendonça, de um Marcos Valério -sem dúvida, alguns
dos que mais foram pressionados para sair de seu silêncio.
Pressões legítimas, diante de um escândalo em que se misturaram
favorecimentos a bancos privados, desvio de verbas publicitárias
oficiais e pagamento em espécie para que parlamentares apoiassem o
governo federal. Tudo ocorreu no entorno do presidente; tudo foi
montado para beneficiar o seu governo. Mas Lula afirma e reafirma que
nada sabia.
Abusos verbais e cenas de intimidação grosseira surgiram em meio às
atividades de inquérito. Não as protagonizaram apenas os membros da
oposição. A "tropa de choque" petista mostrou-se especialmente
ameaçadora contra secretárias, motoristas e funcionários menos
graduados: pessoas que, sem privilégios a manter, compareceram às
CPIs como simples cidadãos.
Se houve alguém a sofrer agressões ilegais dos poderes públicos nesse
processo, foi o caseiro Francenildo Pereira, que teve seu sigilo
bancário devassado pelo governo, trama em que estiveram envolvidos o
ministro da Fazenda e o presidente da Caixa Econômica Federal. Mas o
presidente Lula talvez se tenha comovido menos com esse caso do que
com a estóica resistência de seu companheiro Delúbio Soares -que, num
ato digno dos mais disciplinados tempos da militância stalinista,
assumiu bravamente a responsabilidade pelos "erros" que se
combinavam, recombinavam e repetiam nos círculos do poder petista.
O rompante retórico de Lula é apenas mais uma evidência de que seu
grau de alienação diante da realidade só vem crescendo à medida que
se afasta das problemáticas lides de seu cargo para cercar-se, mais e
mais, das nebulosas imaginações e das conscientes desmemórias que o
acometem nos palanques eleitorais.
A reedição das imagens das CPIs no horário político viria mesmo a
calhar. Lula poderá lembrar-se de que, não faz muito tempo, declarou
sentir-se "traído" por pessoas cujo nome não declinou. Disse também
que esperava os resultados das CPIs e o pronunciamento do Ministério
Público antes de emitir qualquer juízo sobre o mensalão. Denunciou-se
a formação de uma quadrilha à sombra do Planalto cujo objetivo, nas
palavras do procurador-geral da República, era "garantir a
continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores
mediante a compra de suporte político de outros partidos e do
financiamento futuro e pretérito das suas próprias campanhas
eleitorais".