domingo, junho 04, 2006

Amarras internas

O GLOBO EDITORIAL


A economia mundial parece estar próxima de cumprir um dos mais exuberantes ciclos de crescimento acelerado da História. Não que na próxima esquina esteja à espreita do planeta alguma catástrofe de alta capacidade destruidora de empregos e renda. Da grande crise de 1929/30 para cá, o ferramental de política macroeconômica ampliou-se e há hoje muita tecnologia disponível para o manejo de situações como aquela.

A feliz sincronização do crescimento dos Estados Unidos, da Europa e até do Japão — este depois de uma década de estagnação — foi turbinada pela decolagem da China e da Índia, e tem produzido uma fase de ouro para a economia mundial, com um crescimento médio global na faixa de formidáveis 4% por ano.

O nervosismo do mercado transcontinental diante do risco de novos aumentos de juros decretados pelo banco central americano, o Fed, deve-se ao temor de que o esfriamento da economia dos EUA se propague pelo mundo. Teme-se uma alta dos juros que encareça a grande dívida interna das famílias americanas, em parte construída por meio de hipotecas, e faça cair as vendas no maior shopping center do mundo.

Seja por isso ou pelos desequilíbrios graves das contas públicas e externas americanas, seja porque as economias tendem a reduzir o ritmo quando se aquecem e começam a fazer subir os preços das matérias-primas e insumos em geral, ou por esses fatores somados, os cenários futuros não devem ser brilhantes como os dos últimos anos.

O Brasil se beneficia desse ciclo histórico de expansão ao exportar matérias-primas e produtos semi-elaborados a preços que até agora eram crescentes, ao vender ao exterior manufaturados por causa do crescimento do consumo como um todo e por ter acesso a um mercado financeiro global em fase de alta liquidez.

Se mais o país não tem aproveitado para crescer constantemente a taxas elevadas, acima da média dos últimos anos de pífios 2%, é por problemas internos. Mesmo que em 2006 o desempenho do PIB brasileiro melhore, o retrospecto num prazo mais longo continuará medíocre.

No inventário das amarras que seguram a economia se destaca o tamanho mastodôntico da carga tributária. E pior: mantida em ascensão para cobrir gastos públicos que não param de crescer.