sábado, março 11, 2006

ZUENIR VENTURA Racismo lá e cá

O GLOBO

Vítima ontem, algoz hoje. Antônio Carlos é aquele jogador do Juventude que, expulso por atingir violentamente um adversário negro, saiu de campo esfregando o braço para indicar com o gesto que sua cor era superior à de sua vítima, a quem chamou de “macaco”. Lembram-se? Aconteceu em Caxias do Sul. Para se livrar da punição, ele mentiu, inventou uma versão ridícula, mas a televisão o flagrara inapelavelmente. Acabou pedindo desculpas e foi suspenso por 60 dias. Jeovânio, o ofendido, não aceitou. “Não é porque ele pediu desculpas que está tudo bem. Vou fazer o que todo ser humano pode fazer, buscar justiça.”

O mais estranho nessa história é que em 2001, quando jogava pelo Roma, o zagueiro foi agredido fisicamente por uns cinco torcedores fascistas do Lazio, que os tem em grande quantidade, quando almoçava com a mulher e a filha pequena num restaurante da capital italiana. Sofreu escoriações no rosto e na orelha. Tudo porque, além de jogar no time rival, Antônio Carlos era brasileiro e, portanto, miscigenado. “É inaceitável”, disse então, “que um país desenvolvido como a Itália tenha que assistir a episódios como esse.” A imprensa local se indignou, deu destaque ao incidente e censurou severamente os agressores.

Pelo visto, o episódio não serviu de lição nem para o próprio Antônio Carlos, nem para a Itália. Aliás, nem para outros países da Europa, como Espanha, França, Holanda, Alemanha, que continuaram assistindo a cenas de racismo explícito por parte de seus torcedores — tantas que a Fifa está pensando em medidas mais eficazes para impedi-las durante a próxima Copa do Mundo.

Juan e Roque Júnior, do Bayern Leverkusen, foram alguns dos brasileiros insultados. Na semana passada, Ronaldinho Gaúcho solidarizou-se com seu colega do Barcelona, o africano Eto’o, que ameaçou deixar o campo em protesto contra os xingamentos da torcida do Zaragoza. A multa imposta ao clube pelos insultos racistas de sua torcida, cerca de R$ 30 mil, foi considerada insuficiente pelo sindicato de jogadores da Espanha. Ali, mais de meia dúzia de times já foi multada, mas sempre com quantias insignificantes. Por ofensas a Roberto Carlos, por exemplo, o La Coruña só precisou desembolsar o equivalente a pouco mais de R$ 2 mil.

Por isso é que entidades como a Uefa estão pedindo mais rigor. Uma vez que as multas são ineficazes para inibir as manifestações racistas, a solução seria a suspensão, a perda de pontos e, quem sabe, estender a punição aos países, chegando até a excluí-los da Copa do mundo.

Quanto a nós, justiça seja feita. Surtos de ódio racial como o de Antônio Carlos são exceção e, em matéria de tolerância, nossas torcidas são mais civilizadas do que as da velha Europa.