sábado, março 11, 2006

México longe dos EUA GESNER OLIVEIRA

OPINIÃO ECONÔMICA folha

México longe dos EUA

GESNER OLIVEIRA

As eleições presidenciais no México, em julho, ganharão a atenção do mundo antes da disputa de outubro no Brasil. Em contraste com o que aconteceu em 2002 no Brasil, nenhum dos dois pleitos vai abalar o mercado. Mas as perspectivas de crescimento no médio prazo para os dois países não são promissoras.
Comparativamente ao Brasil, o desempenho da economia mexicana é mais dependente dos EUA. A célebre frase de Porfírio Diaz, que governou o país durante o chamado "porfiriato" em 1876-1911, faz referência ao "pobre México, tão longe de Deus e tão próximo dos EUA".
Não resta dúvida quanto à proximidade. Cerca de 80% das exportações do México em 2003 destinaram-se aos EUA, contra 21% no Brasil. Tome-se o índice de concentração HHI, que varia de zero a 10 mil. Em 2003, esse indicador registrou 7.829 para os mercados de exportação do México e 793 para o Brasil.
A economia mexicana se tornou mais aberta do que a brasileira. O volume de comércio (exportações mais importações) atingiu US$ 435 bilhões, representando 37% do PIB no México em 2005, contra 24% no Brasil. Em contraste com o Brasil, o México tem déficit comercial estimado em US$ 7,6 bilhões para 2005, contra um superávit de US$ 45 bilhões no Brasil.
Por sua vez, as remessas dos imigrantes mexicanos representaram aproximadamente 115% do investimento direto estrangeiro no país em 2005, algo que no Brasil não chega a 27%.
Tal resultado reflete o fato de que nada menos do que 10% da população do México emigrou! Uma abertura do mercado de trabalho estava sendo negociada entre os governos Bush e Fox em 2001, mas foi interrompida com os ataques de 11 de setembro.
O México assinou o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt, em inglês) apenas em 1986; o Brasil, que é um dos 23 primeiros signatários do referido acordo, em 1947. O México ingressou no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês). O impasse na negociação da Alca acabou conferindo ao México acesso privilegiado ao mercado dos Estados Unidos.
A despeito disso, o México vem perdendo terreno. Segundo estudo do Credit Suisse, a participação das vendas mexicanas, exclusive petróleo, nos EUA caiu de 11,4% em 2001 para 9,8% em 2005. Além da China, outros países têm ultrapassado o México. No mercado de automóveis, por exemplo, houve perdas para Alemanha, Inglaterra, Coréia do Sul e Canadá.
A abertura comercial por si só não é suficiente para garantir a competitividade. Deve vir acompanhada de redução de custos sistêmicos e de aumento de produtividade. A competitividade depende de logística. A localização geográfica importa menos do que a qualidade da infra-estrutura. Diferentemente do Brasil, a privatização das telecomunicações no México transferiu o monopólio estatal para mãos privadas. O resultado é um dos serviços mais caros de telecomunicações entre os emergentes.
Na precariedade da infra-estrutura reside uma das fragilidades do México e do Brasil. Esse fato foi reconhecido pelo governador do Banco do México, Guillermo Ortiz. Além disso, a legislação trabalhista anacrônica e a inadequação da estrutura tributária constituem alguns dos principais problemas.
O governo Fox do PAN rompeu com o domínio de mais de 70 anos da máquina burocrática do PRI, prometeu várias reformas modernizantes, mas fez muito pouco. Sem maioria parlamentar desde o início do mandato e tendo sofrido séria derrota nas eleições para o Congresso em 2003, o sexênio de Fox termina de forma melancólica.
No mercado de apostas, o candidato do PRD, Andrés Manuel López Obrador (Amlo) é o favorito. Apesar do discurso radical, não representará mudança na política macro. Tampouco se propõe a fazer mudanças pró-competitividade. Sua capacidade de comunicação e o assistencialismo garantem sua popularidade.
O perfil popular de Amlo deve fazer sucesso em Davos e reforçar o mito de uma virada à esquerda da América Latina. Sem, contudo, promover o salto de produtividade que o México e outros países da América Latina tanto necessitam.