o globo
O presidente Lula disse que, quando assumiu o governo, encontrou o debate sobre a Alca muito “ideologizado” e removeu esse aspecto da discussão. É exatamente o oposto. Ele encontrou uma negociação técnica e ideologizou o debate ajudando a enterrar a iniciativa. Lula afirmou que fortaleceu o Mercosul, e a verdade está com o repórter da “The Economist”, que se referiu ao fato de o bloco não estar indo nada bem.
Ao conceder a entrevista à revista inglesa de maior prestígio do mundo, a “The Economist”, o presidente Lula, em vários pontos, recriou a realidade. Não dá para entender, por exemplo, o que ele quis dizer com a afirmação de que, antes do real, eram precisos três reais para comprar um dólar. De onde será que ele tirou a paridade cambial do real em relação ao dólar, antes do real? Se ele estava tentando dizer URV, era um para um; se ele estava se referindo à moeda existente anteriormente, o cruzeiro real, a paridade era de CR$ 2.698,40 por um. O que é difícil para o presidente admitir é que o plano de estabilização que ele tanto acusou de ser eleitoreiro, que sofreu tão dura oposição do PT, a moeda que ele afirmou que duraria apenas alguns meses, é a moeda que encontrou quando assumiu o governo, nove anos depois. Não é milagre, mas foi o plano que acabou com a superinflação no Brasil. Há outros problemas para serem resolvidos, mas aquele foi solucionado com um plano ao qual ele fez ferrenha oposição.
O presidente disse à revista inglesa que são prioritárias as reformas sindical, trabalhista, tributária e política. Faltou lembrar que ele e seu governo não conseguiram fazer a reforma tributária e sabotaram qualquer possibilidade de se fazer a reforma trabalhista.
Quando a revista perguntou sobre as denúncias de corrupção, Lula afirmou que o governo dele sofreu um massacre e voltou a acusar o partido. Disse que o PT errou e “terá muito a explicar à sociedade nos próximos anos”.
É boa a postura do presidente Lula em relação a algumas questões do comércio internacional, como o esforço para destravar a rodada Doha e a abertura do comércio de produtos agrícolas, velha posição do Brasil. Lula disse que vai discutir esse tema com o primeiro-ministro britânico e, de novo, a escolha é boa porque a Inglaterra tem lutado dentro da Europa para reduzir o subsídio agrícola. O presidente errou foi na seqüência desta resposta, quando a revista perguntou se ele estava preparado para reduzir substancialmente as tarifas de produtos manufaturados para obter esse avanço na agricultura. A única resposta correta seria: sim. Por várias razões: o Brasil permanece fechado demais e está na hora de uma segunda abertura; o Ministério da Fazenda tem uma proposta nesta linha; a redução de barreira à importação de determinados produtos, como bens de informática, servirá para alavancar o crescimento brasileiro. Mas o presidente preferiu ecoar os grupos que tentam retardar a inevitável abertura. “Substancialmente, não. Proporcionalmente ao valor e ao peso da nossa economia.” O que vem a ser isso? Quando a revista continuou a pergunta, Lula se enrolou ainda mais e disse que defendia principalmente o interesse das nações mais pobres. A função do presidente é de defender os interesses do Brasil e, para o Brasil, a redução das barreiras comerciais contra exportações agrícolas é excelente, mas é também boa a abertura do nosso próprio mercado na área industrial. Isso vai aumentar a competitividade brasileira e reduzir o poder remanescente dos cartéis. Pequena correção estatística: Lula disse à revista inglesa que 25% da mão-de-obra brasileira estão no campo. Era assim há dez anos. De lá para cá, vem caindo e hoje é 19%. Não é um erro tão grave e não invalida o argumento de que, para nós, a agricultura é mais importante do que para a Europa, porém um pouco de dever de casa, antes de falar para a revista que é lida pela elite mundial, viria bem a calhar.
Na pergunta sobre educação, o presidente Lula revelou a face de um velho problema brasileiro: a inversão da ordem. O correspondente perguntou sobre a necessidade de reformas que dessem mais autonomia aos diretores das escolas na educação brasileira e Lula respondeu que a reforma universitária dará autonomia administrativa às universidades. E o jornalista lembrou: “falava de educação fundamental, presidente.” Lula respondeu que, no Brasil, ela é atribuição dos estados e municípios. E o repórter: “Eu sei, mas o senhor tem um papel nisto.”
Para explicar o fiasco do crescimento do ano passado, o presidente afirmou o seguinte: “No Brasil, nós não estamos com pressa de ver a economia decolar.” Nós quem? Foi ele que falou em espetáculo do crescimento. Lula, de novo, explicou o baixo desempenho pela suposta crise que teria herdado. Segundo a versão que apresentou de seu governo, em três anos nenhum imposto foi aumentado no Brasil. O fato é que ele criou imposto sobre importações e tentou aumentar o imposto pago pelos prestadores de serviços, mas foi derrotado no Congresso.
Sua melhor declaração à “The Economist” é que os governantes da Europa não deveriam pensar na próxima eleição e, sim, nos próximos 30 anos. Realmente. Os governantes europeus e o brasileiro. Mas aqui, o que Lula nos diz é que um político deve fazer campanha político-eleitoral 365 dias por ano. Com tanto palanque para subir, Lula não tem tido tempo para seguir seu próprio conselho aos governantes europeus. É uma pena.