FOLHA DE S PAULO
Recebo e-mail do economista Ignacy Sachs, co-diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) da França. apoiando as conclusões da coluna de ontem, de que o país deveria trabalhar uma estratégia para se transformar em um player mundial na questão do biocombustível. Não se pode pensar pequeno nesse tema, reforça o professor.
Lembra ele que a Unctad lançou em Genebra um programa de biodiesel, que está sendo tocado por um brasileiro, Lucas Assumpção. A intenção é trabalhar na organização dos mercados internacionais emergentes.
Há dois cenários para o fim da civilização do petróleo. O primeiro, uma transição aos trancos e barrancos. O melhor, uma saída organizada, por meio de uma colaboração dos produtores de biocombustível com as companhias de petróleo. O biocombustível é a única saída que permitirá a transição sem desorganização da estrutura petrolífera de distribuição.
Não faz sentido contrapor o biocombustível ao petróleo, diz Sachs. Durante décadas ambos continuaram convivendo, em torno do motor a explosão. Se considerar os biocombustíveis emergentes como concorrentes, a tendência da indústria petrolífera será tentar sufocá-lo. Por isso, o grande desafio consiste em criar pontes entre os dois setores por meio de contratos de longo prazo.
Sachs considera que a maioridade do biodiesel se deve a três fatores: o aumento dos preços do petróleo em razão da curva de crescimento da demanda e da oferta; os custos políticos para os EUA manterem o abastecimento de petróleo do Oriente Médio; e as pressões ambientais, a partir do protocolo de Kyoto.
Ocorre que o mercado brasileiro ainda não está preparado para a internacionalização. Secretário-executivo da Imaflora (ONG que trabalha com sistema de certificação socioambiental), Luiz Fernando Guedes Pinto tentou convencer o setor a trabalhar com certificações ambientais. Esbarrou na resistência dos usineiros, que não aceitam diferenciação de empresários e de produção -mesma resistência dos cafeicultores nos anos 90, quando começaram os concursos de qualidade do café. O setor ainda enfrenta forte passivo ambiental, sofre com denúncias de exploração social, fatores que comprometeriam qualquer tentativa de internacionalização.
Esse mesmo pessimismo é compartilhado por Antonio Carvalho Neto, da Petrus Commodities, que escreve à coluna. Segundo ele, o setor não se vale das boas práticas da concorrência, tem evitado o uso de tecnologias como a mencionada hidrólise do bagaço da cana, para não aumentar a oferta. E não se preocupa com a qualidade.
Segundo ele, a Mitsubishi decidiu desenvolver um carro híbrido gasolina-eletricidade porque teve problemas de contaminação em uma partida de álcool adquirida de um grande grupo brasileiro.
Por tudo isso, uma política eficaz para o biocombustível tem que envolver o Inmetro, para certificação, identificar as lideranças modernas do setor, para estabelecer estratégias de parceria com a Petrobras e outras petrolíferas, e definir estratégias de entrada em outros países, para comandar o processo de criação de novos pólos produtores.