O sábio recluso com quem converso periodicamente está perplexo com o estardalhaço provocado pelo vôo do general Francisco de Albuquerque, comandante do Exército. Como se sabe, um avião da TAM foi parado no aeroporto de Viracopos, em Campinas, e dois passageiros trocaram de lugar com o general, para que não perdesse um compromisso em Brasília. Ora, diz o sábio, o general estava em suas funções, não é reformado e sem encargos, tampouco estava de férias. Como qualquer comandante de um Exército nacional, é responsável pela segurança do país e cabe-lhe perfeitamente a prerrogativa de requisitar não só assento em vôos que o levem à capital do país como o avião inteiro, não só em tempos de guerra como de paz (relativa, já que se vive uma guerra urbana no país, com intervenção do próprio Exército). Alguém imaginaria que o comandante do Exército dos Estados Unidos, precisando ir de Nova York a Washington, submeta-se a uma lista de espera em busca de vaga, ficando sentado pacientemente no aeroporto La Guardia, como um turista qualquer? Ou aqui perto, para sermos mais modestos -continua o sábio-, acreditar que o general Reinaldo Castellanos, comandante do Exército da Colômbia, necessitando ir de Medellín a Bogotá, fique na fila do check-in para ver se tem algum lugar para ele? São fatos elementares, diz ele, mas fez-se um estardalhaço confundindo prerrogativas militares clássicas e tradicionais, de requisição de meios de transporte, com atentando à democracia, mesmo se estando em um país pacífico. O general Albuquerque deveria estar em Brasília na primeira hora de quinta-feira, aquele era o ultimo vôo de quarta, ele tinha passagem confirmada, exigiu seu lugar. Cometeu dois deslizes nesse episódio, na opinião do sábio. Primeiro, poderia ter chegado meia hora, e não 15 minutos antes, apesar de ter mandado um sargento despachar a bagagem antes. Se tivesse feito isso, não haveria o problema de mandar o avião voltar da pista. Provavelmente, o atraso do general deve-se à sua mulher, Maria Antonina, que tem personalidade forte. Na fechada corporação militar, mulheres de comandantes às vezes são peças decisivas ou complicadoras nas carreiras dos maridos. Segundo, embora não obrigatório em um fim de semana, a posição especial do comandante do Exército ficaria mais bem servida se o general usasse uniforme militar nos seus deslocamentos, continua o sábio. Oficiais em funções de alto comando precisam ser bem reconhecidos, e os americanos tem o maior orgulho de usar a farda, mesmo quando dispensados dela. Nos aviões e hotéis dos Estados Unidos, vêem-se muitos militares uniformizados e com todos seus galões. Quando entrou no avião, o general teve o dissabor de ser vaiado. Provavelmente nenhum dos passageiros sabia quem ele era e dificilmente teriam vaiado se estivesse fardado. Fora isso, o incidente foi mais lamentável pela reação desproporcional do que pela sua real importância. |