domingo, março 05, 2006

LUÍS NASSIF A indústria do entretenimento

FSP
A indústria brasileira do entretenimento pouco se profissionalizou nas últimas décadas. Houve certa febre de parques temáticos, a mudança no formato das salas de cinema, a criação de roteiros turísticos. Mas o entretenimento acabou restrito a um submundo dos cassinos clandestinos, dos bingos e das maquinetas de jogo.
No entanto, a história registra um grande empreendedor, no período dos cassinos, que vai dos anos 30 até 1946: Joaquim Rolla, que, certa época, chegou a ser relacionado por Assis Chateaubriand na relação dos dez homens mais influentes do país.
Rolla era tropeiro e empreiteiro de estradas, protegido de Arthur Bernardes. Em 1932 chegou ao Rio, perdeu todo seu dinheiro nas roletas do Copacabana Palace, voltou para Minas, entrou na concorrência para a construção de uma estrada de ferro e ficou milionário. Pouco depois voltou para o Rio e foi comprando, aos poucos, as ações do Cassino Balneário da Urca. Em breve tornou-se seu proprietário.
Nos anos 30, quando o jogo foi reaberto, julgava-se que o Copacabana ficaria sozinho. Aí Rolla começou a comprar as ações no Cassino da Urca, que ficava em bairro retirado do Rio. Aos poucos foi assumindo o controle. De posse do cassino, promoveu uma revolução sem paralelo na época. Além da Urca, Rolla criou uma Agência Difusora de Anúncios que tinha, como finalidade promover a Urca nos jornais da cidade. Entre os jornalistas havia um time que incluía nada menos que Olímpio Guilherme (ator de cinema e depois, redator-chefe do "Observador Econômico"), Carlos Lacerda e Franklin de Oliveira.
O cassino acabou dominando todo o bairro da Urca. Os funcionários, as bailarinas, as músicas, os croupiers se tornaram parte da paisagem do bairro e as fichas substituíam dinheiro. Nesse ambiente, Carlos Machado -um grande nome da noite até os anos 70-, sem conhecer uma nota de música, tornou-se maestro de uma das mais famosas orquestras brasileiras da época, a Brazilian Serenaders, a banda titular da Urca, que tinha entre seus músicos Laurindo de Almeida, o sax tenor Walter Rosa, o violinista Fafá Lemos, o cantor e pianista Dick Farney, o flautista Copinha, Russo do Pandeiro, os irmãos Gagliardi.
Carlos Machado, aliás, foi um dos mais pitorescos personagens da vida carioca. Gaúcho, de família tradicional, chegou ao Rio de Janeiro em 1930, depois se mudou para Paris onde fez de tudo, de gigolô a sapateador e, depois, amante em tempo integral da grande Mistinguetti.
Eleazar de Carvalho foi diretor musical do cassino e muitas famílias artísticas originaram-se de lá. Os cantores Simone e Nena são pais do ator Ney Latorraca. O cantor Léo Albano era pai de Décio Piccinini, que fez sucesso como jurado do Sílvio Santos. Herivelto Martins e Dalva de Oliveira tiveram o cantor Peri Ribeiro; Herivelto foi pai, ainda, do diretor de televisão Ubiratan Martins. Silvino Neto era o pai de Paulo Silvino; Juan Daniel, de Daniel Filho; o motorista de táxi Benguel era o pai de Norma Benguel e o grande comediante Manuel Pêra pai de Sandra e Marília Pêra.
Depois do sucesso da Urca, Rolla espalhou seus cassinos por todo o país, inclusive investindo uma nota preta em uma construção portentosa, do Cassino Quitadinha, em Petrópolis. Em Poços de Caldas arrendou um cassino, também da Urca, construído pelo banqueiro Walther Moreira Salles.
O Cassino da Urca era tão abrangente que influenciou até a física mundial. Mário Schenberg e o físico russo-norte-americano George Gamow batizaram de "efeito Urca" a uma descoberta que fizeram. Esse efeito relaciona-se com a perda de neutrinos na formação das estrelas. O nome Urca foi dado por Gamow para lembrar o dinheiro que sua mulher perdeu jogando no Cassino da Urca, quando ele aqui esteve no começo dos anos 40.
Em 1946, quando o jogo foi proibido no Brasil, Rolla era dono do Cassino da Urca, do Hotel Cassino Icaraí, da Urca de Poços de Caldas, do Cassino da Pampulha e do de Araxá, do Tênis Clube de Petrópolis, do Hotel Cassino Quitandinha, do Pavilhão de São Cristóvão, feito para feiras e exposições.