quinta-feira, março 09, 2006

ELIANE CANTANHÊDE Linha de tiro

FOLHA
BRASÍLIA - O Exército entrou na linha de tiro: subiu o morro no Rio para uma operação necessária, mas de resultado incerto, passou pelo vexame de ver seu comandante envolvido num "carteiraço" no aeroporto de Viracopos e, enfim, sofreu o suicídio de dois generais num espaço de meses, o que não é nada trivial.
Tudo isso justamente no mês em que mais um ministro da Defesa está para deixar o cargo, desta vez o vice-presidente da República, José Alencar. Vai se desincompatibilizar para concorrer a alguma coisa que nem ele mesmo sabe qual é.
Daí uma teoria conspiratória às avessas. Antigamente, a população civil é que via bruxas em todo o canto, e com forte dose de razão. Agora, são as Forças Armadas imaginando que, por trás dessas coisas todas, há uma espécie de inimigo oculto e pronto para o ataque.
Bobagem. Fantasias são fantasias. Teorias são teorias. E fatos, afinal, são fatos. O quartel do Rio foi mesmo negligente, para não dizer cúmplice, ao permitir que bandidos entrassem, roubassem dez fuzis e uma pistola e saíssem por aí, lépidos e fagueiros.
E o general, mesmo que não tenha determinado expressamente que o avião interrompesse a decolagem, passou pelo vexame "caronear" 14 outras vítimas de overbooking, usurpar as cadeiras de um casal e ser vaiado por passageiros que sofreram um atraso de 40 minutos.
Albuquerque é um sujeito simples, direto, desses que conversa olho no olho e passa credibilidade. Mas não é a primeira vez que se vê pivô de confusões neste governo, e ninguém esquece que seu ex-chefe, José Viegas, caiu por causa de uma nota elogiando a ditadura militar que foi o pessoal dele, Albuquerque, que divulgou.
Agora é bom fazer tudo direitinho no Rio e rezar para que o Exército recupere as armas, desça o morro e volte para casa logo. E que, no confronto entre soldados e bandidos de alta periculosidade, não acabe sobrando bala perdida para civis. Especialmente para mulheres e crianças.