sexta-feira, março 10, 2006

ELIANE CANTANHÊDE Do "mensalão" ao acordão

FOLHA
BRASÍLIA - Dos 19 deputados envolvidos de alguma forma no "mensalão", faltam nove, entre PT, PP e PL. Dois já foram cassados (Jefferson e Dirceu), quatro renunciaram e outros quatro foram absolvidos.
Não há um acordo entre partidos. Os presidentes Berzoini (PT) e Bornhausen (PFL) não se sentaram com uma caneta tinteiro e um tabelião para selar a inocência do petista Luizinho e do pefelista Roberto Brant. Foi um acordão entre camaradas.
Camaradas que se vêem quase todos os dias, varam horas em reuniões e que sabem quem é quem e distinguir os que metem o dinheiro no bolso dos flagrados com a mão na botija do caixa dois de campanha.
Imagine uma CPI para médicos, dentistas e psicólogos que cobram "com nota" e "sem nota", outra para quem compra casa por R$ 200 mil e declara R$ 100 mil. É crime, é feio e "todo mundo faz". Se você faz, seu amigo faz, seu médico faz, seu dentista faz, como cassar só o psicólogo?
Desde o início, mesmo os que defendiam a cassação -por princípio, por ser exemplar e para dar uma resposta à sociedade- sabiam o quanto seria difícil cassar Brant, que é atuante, correto e de primeiro time. Luizinho não tem o mesmo status nem tantos anos na Câmara, mas diga-se tudo dele, menos que seja um corrupto qualquer -como tantos outros ali, bem conhecidos.
No final, pesou uma contabilidade assim: se se livra o deputado do PFL, como cassar o do PT? Salvaram-se os dois. O Congresso confirmou seu corporativismo e avalizou o caixa dois -"que todo mundo faz", como diz o presidente da República. Ao proteger os autores, legitimou os atos. E tirou um discurso da oposição: como é que PSDB e PFL vão triturar Lula, o PT e o governo por causa do "mensalão"? Como explicar que "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa"?
Vem mais cassação por aí. Uns, pelo "conjunto da obra". Outros, porque caixa dois era fichinha. Mas a sociedade queria muito mais. Está chocada e, pior, irritada.
E-mail: elianec@uol.com.br