quinta-feira, março 16, 2006

Editorial O Estado de S. Paulo Chega de timidez





16/3/2006

Controlar a inflação já não é o maior desafio para o Banco Central (BC). Difícil, mesmo, nesta altura, é encontrar bons argumentos para defender a política de juros ultraconservadora. Se algum resultado se esperava dessa política, já foi produzido. Apesar disso, o Comitê de Política Monetária (Copom) continua a exibir cautela excessiva na hora de cortar os juros básicos da economia. Os membros do comitê deveriam dar maior atenção aos analistas do mercado financeiro, em geral tão conservadores quanto a autoridade monetária. As avaliações do mercado, coletadas semanalmente pelo BC, são de inflação em queda, crescimento econômico moderado e considerável folga cambial até o final do ano.

Segundo a pesquisa Focus divulgada nesta segunda-feira, a previsão de alta do IPCA foi reduzida por quatro semanas consecutivas. A nova projeção aponta uma taxa acumulada de 4,55% no fim do ano, praticamente o centro da meta de inflação fixada para 2006. Esse resultado, segundo os especialistas consultados, será compatível com uma taxa básica de juros de 14,5% no fim do ano. A estimativa de juros oficiais para dezembro é a mesma da semana passada, mas a média calculada para o ano caiu de 15,50% para 15,46%, revelando a expectativa de cortes um pouco maiores nos próximos meses.

Essas projeções estão bem sustentadas pelos dados objetivos da economia. Os vários indicadores mostram um forte recuo da inflação, depois de um breve recrudescimento no começo do ano, e os dados da produção e da importação confirmam condições de oferta sem sobressaltos.

Graças à evolução favorável dos preços por atacado em 2005, os preços administrados, sujeitos a indexação, deverão também evoluir moderadamente neste ano. A estimativa revelada na pesquisa Focus caiu de 4,5% para 4,35%. Os preços de serviços públicos terão, portanto, um impacto muito menor que o dos últimos anos sobre o custo de vida.

Isso poderá contribuir para o aumento do consumo, já que os orçamentos familiares serão menos corroídos pelos custos de transportes, telefonia e energia elétrica, por exemplo. Este é um dos efeitos mais importantes da política antiinflacionária. É preciso creditá-lo às ações do Copom. Mas a economia ganhará muito mais, e praticamente sem risco, se a autoridade monetária for mais audaciosa - ou menos tímida - nesta nova fase de sua política.

O mercado vem tomando, lentamente, o caminho da redução de juros. As taxas cobradas do consumidor, em fevereiro, foram as menores desde março de 2001, segundo levantamento da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). Apesar da tendência de baixa, mantiveram-se, no entanto, em níveis absurdamente elevados, tendo caído de 7,58% ao mês em janeiro para 7,54% em fevereiro. Houve recuo em quase todos os tipos de financiamento, mas em ritmo inferior ao da redução dos juros básicos.

As taxas de mercado poderiam cair mais velozmente se o Copom, cortando com menos timidez os juros básicos, permitisse ao Tesouro reduzir seus gastos financeiros. Afinal, a política do Copom atinge mais diretamente os custos da dívida pública. Se esses custos caírem mais sensivelmente, o governo terá mais dinheiro para investir e, ao mesmo tempo, deixará mais dinheiro nos bancos para o crédito aos produtores e consumidores. Além disso, mais atividade e mais empregos deverão reduzir a inadimplência e isso também poderá contribuir para baratear os empréstimos.

A experiência de outros emergentes mostra uma rápida queda de juros reais quando há um fortalecimento geral dos fundamentos econômicos, disse ao Estado, numa entrevista, o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor de Política Monetária do BC. Segundo ele, os juros reais já estão em queda e a tendência pode acentuar-se. O professor Eduardo Giannetti da Fonseca, do Ibmec, faz uma aposta semelhante.

Mas nada disso, obviamente, dispensa o Copom de reforçar os sinais positivos. Esse reforço ocorrerá se a autoridade monetária mostrar confiança na estabilidade e der ao governo melhores condições para reduzir seus custos financeiros.