terça-feira, março 21, 2006

editorial da folha POLÍTICA NO LABIRINTO

Fragmentação , falta de compromisso programático, intrigas entre caciques, golpes baixos... Esse repertório de significados vem de imediato à mente de quem ouve falar em "peemedebização". Do PSDB, pelo modo confuso como definiu seu candidato à Presidência, foi dito que se "peemedebizava"; do PT, pelo abandono da ideologia e o decaimento ético, idem. Mas um fim de semana bastou para o PMDB dobrar a aposta: aproximar-se de seu "modelo" tornou-se bem mais difícil.
É inconcebível que uma agremiação política não tenha condições de pactuar regras mínimas para realizar uma prévia nacional. Quando as partes que não conseguiram fazer valer seus interesses nas instâncias da legenda recorrem à Justiça, deslegitimam a própria idéia de partido.
O episódio, porém, seria apenas uma anedótica grita de perdedores não fosse a atuação do ministro Edson Vidigal. Ao anular a prévia, não foi a primeira vez que o presidente do Superior Tribunal de Justiça interferiu na autonomia partidária - sempre no interesse da corrente minoritária do PMDB que hoje atua afinada com o governismo. Vidigal, seguindo os passos de Nelson Jobim no Supremo, deve deixar a corte para candidatar-se em outubro. Confirmada a dupla saída, ganhará o Judiciário, ao ver-se livre de figuras que nunca disfarçaram seu apetite, por assim dizer, pela política.
Se saem os ministros, permanece o estigma do PMDB, sempre aberto a negociações. Anthony Garotinho, de passagem pela legenda de Ulysses Guimarães, venceu uma prévia que não valeu -mas valeu para Germano Rigotto, que aproveitou a deixa e desistiu de sua excêntrica aventura presidencial. O presidente da sigla, Michel Temer, que não sabia bem o que fazer com o resultado do evento de domingo, acabou desistindo da batalha na Justiça. Em suma, o partido votou para nada decidir.
Surpresa haveria se o PMDB encontrasse a saída do labirinto e decidisse algo. A indefinição parece mesmo a média ponderada a contentar a todos nessa exótica agremiação que encarna, mais do que qualquer outra, o "programa" do poder pelo poder.