domingo, março 05, 2006

DANIEL PIZA: Escrita para camaleões

OESP
Escrita para camaleões

Daniel Piza

O bom do filme Capote, de Bennett Miller, não é apenas a atuação de Philip Seymour Hoffman, que merece ganhar o Oscar de melhor ator hoje à noite. O roteiro também é admirável porque, ao adaptar a biografia escrita por Gerald Clarke (em relançamento pela editora Globo) optando por se concentrar nos cinco anos em que Truman Capote pesquisou e escreveu A Sangue-Frio, conseguiu sustentar a tensão de uma história que não se destaca pelo entrecho. O filme investe na relação entre ele e seu personagem, Perry, e na questão que surge sobre a própria natureza de seu trabalho como autor.

Hoffman, que já tinha mostrado seu talento como coadjuvante em filmes como O Talentoso Ripley, é excelente porque capta a ambivalência da situação. Capote vê na história do assassinato de uma família numa cidadezinha de Kansas a oportunidade de sua vida, especialmente a partir do momento em que percebe em Perry um tipo humano singular, não o brucutu ou maluco que pode ter esperado. Pontes de identidade surgem entre eles, ainda que um tanto fantasiadas por Capote, que acredita ser também um "outsider", de infância infeliz e sensibilidade aguda; e a história se desenvolve por esse relacionamento.

O drama de Capote, mais do que lamentar a pena de morte sentenciada a Perry e seu comparsa Dick, é saber que está se apropriando de uma história real para brilhar diante de sofisticadas platéias de Nova York. Aliás, o apoio a seu trabalho de jornalista-escritor é modelo: Capote tem uma assistente de pesquisa, encarregada de apurar e checar as informações, afora o time de "fact checkers", revisores, que trabalha na revista The New Yorker; e o editor, William Shawn, aceita os adiamentos e envia dinheiro sempre que necessário. Capote, que não anota nada e confia apenas na memória e na observação, desinteressado de "furos", comete desvios éticos, como subornar o dono do presídio e pagar o advogado da dupla, em nome do livro que sabe ter em mãos.

O resultado, A Sangue-Frio (1966), cujo título apelativo soava o contrário do que ele dizia a Perry que queria retratar, foi muito criticado não só por seu método de, digamos, sedução das fontes, mas também pelos erros de sua versão sobre o crime. De qualquer modo, é o mais célebre "romance de não-ficção", estudado em cursos de jornalismo literário no mundo todo, e abriu as portas para muitos seguidores desse novo gênero. O letreiro final do filme lembra que o livro foi o último que Capote concluiu, o que é exato se excluir coletâneas; mesmo assim, foi uma experiência que levou o melhor de suas energias.

O livro que publicou em seguida foi Música para Camaleões (1981), que acaba de ser editado pela Companhia das Letras. O prefácio já é ótimo. Capote diz que pretendia ir além das inovações técnicas de Filme, de Lillian Ross, considerado em geral o livro fundador do jornalismo literário, e comenta o fato de que Norman Mailer fez em livros como o extraordinário Exércitos da Noite romances de não-ficção, sem assumir o rótulo. E, apesar de seu egocentrismo, reconhece que em A Sangue-Frio não explorou plenamente o potencial de sua história. "Sentia que meu texto estava ficando denso demais, que eu precisava de três páginas para chegar a efeitos que deveria ser capaz de produzir num único parágrafo" - precisamente minha sensação quando o li pela primeira vez, apesar do fascínio inerente ao caso.

Música para Camaleões ficou conhecido pelo delicioso diálogo com Marilyn Monroe, que na foto da capa da edição brasileira aparece dançando com Capote. Mas é injusto não enxergar a força de histórias como a que dá título ao livro, sobre uma visita a uma aristocrata da Martinica que põe Mozart para tocar e atrai uma legião de camaleões que se enfileiram para ouvir. Ou histórias como Uma Luz na Janela, que contistas como Edgar Allan Poe e O. Henry assinariam. Capote atingiu aqui o que desejava: uma síntese das formas literárias que praticara desde a adolescência - roteiros, peças, reportagens, artigos, poemas, novelas - e que convergem para um texto aparentemente "simples, claro como um regato", com as devidas brechas narrativas. Ele também sabe encaixar comentários opinativos como raros jornalistas literários.

Quando tinha 24 anos, publicou seu primeiro romance, Other Voices, Other Rooms, fez sucesso, mas teve de ler reações como a seguinte: "É espantoso que uma pessoa tão jovem escreva tão bem assim." E comenta: "Mas eu só tinha feito escrever, todo dia, ao longo dos 14 anos anteriores!" Na cultura brasileira, então, escrever bem é mais ou menos como um trunfo secundário, um produto casual, e os jovens chegam às redações sem preocupações com estilo nem com gêneros. Sim, talento se tem ou não, mas é preciso muito trabalho.

Por que Capote nunca realizou plenamente seu potencial? Há outra frase do prefácio que indica a resposta: "Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação." Calma, nada de leituras freudianas - e o filme, por sinal, também tem o mérito de não explorar em excesso o tema da homossexualidade. Capote escreve também que seu maior desafio em A Sangue-Frio "tinha sido me deixar completamente de fora", o que sabemos que não é verdade; mas logo se refere ao tom "aparentemente neutro" do livro. Na verdade, jamais conseguiu o distanciamento intelectual - não a neutralidade - que todo grande artista, como Mozart, tem.

O mais divertido no inacabado Answered Prayers (Preces Atendidas, livro de difícil tradução por causa de suas referências), aliás, é a fofoca, as tiradas mordazes que solta sobre personagens da alta sociedade americana da época e que lhe valeram proscrição em certos círculos, assim como Bonequinha de Luxo vive pela personagem extravagante que só aquele lugar e tempo poderiam ter criado. Nas histórias de Música para Camaleões, assumiu de novo a primeira pessoa, mas antes decidiu reconstituir "conversas corriqueiras" para reeducar seu estilo, para lhe dar nova elasticidade, e aprender a dosar suas aparições. Só que aí já era tarde, e o álcool e a paranóia minavam seu ânimo.

Um dia ele havia descoberto "a diferença entre escrever bem e escrever mal"; mais tarde, fez "uma descoberta ainda mais alarmante: havia uma diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; sutil, mas devastadora" - o que é a melhor definição de sua angústia. Da devastação que Hoffman encarna tão brilhantemente, porém, Capote deixou belas ruínas, enquanto a grande maioria dos autores morre sem deixar nenhum vestígio.

CADERNOS DO CINEMA

Woody Allen, que é outro artista americano que sabe o que é "chegar quase lá", fez mais um belo filme, Ponto Final, com Scarlett Johansson no elenco. O cineasta encontrou em Londres uma fonte de renovação; não vemos seu famoso humor neurótico, mas uma sensualidade rara em seus filmes. Críticos já apontaram as referências do enredo, como Theodore Dreiser e Dostoievski, e nossa atenção não se perde em momento algum. Temas como a força do acaso e frieza sob pressão conduzem a reflexão. Mas os melhores filmes de Woody Allen ainda continuam sendo Hannah e Suas Irmãs e Crimes e Pecados. Este tem o mesmo núcleo dramático de Ponto Final, mas é mais rico e imprevisível, com as duas histórias que correm em paralelo e se encontram no final, as atuações de Martin Landau, Anjelica Huston e do próprio Woody e os diálogos memoráveis, com um senso de ironia poucas vezes visto no cinema americano.

Eu daria o Oscar deste ano para Munique ou Capote, mas acho que Brokeback Mountain é que vai levar. A Ponto Final só restou disputar o de roteiro original, que merece com vantagem, assim como Capote o de roteiro adaptado.

RODAPÉ

"Não há fatos comprovados acerca de Jesus de Nazaré. Os poucos fatos que constam da obra de Flávio Josefo, fonte da qual todos os estudiosos dependem, são suspeitos." Primeira frase do primeiro capítulo do novo e interessante livro de Harold Bloom, Jesus e Javé - Os Nomes Divinos (Objetiva).

POR QUE NÃO ME UFANO

A disputa entre PSDB e PT pelos resultados econômicos é patética, uma briga de rotos com esfarrapados. O governo Lula, em média, cresceu nos três primeiros anos menos que o governo FHC no mesmo período, mas mais que nos oito anos de mandato, embora sem as mesmas crises internacionais. O que importa é que o Brasil não conseguiu nem média de 3% nos últimos dez anos. Piada.