domingo, março 05, 2006

Com vocês, o alquimista Gaudêncio Torquato

OESP


O "Homo brasiliensis" é mais lúdico que sábio, mais festivo que trabalhador. Este tem sido um verniz cultural identificado por estudiosos da alma nacional. Entre as razões que explicam o fenômeno, aponta-se o feixe valorativo que anima o espírito brasileiro: improvisação, cordialidade, jeitinho, transgressão às leis, sentimento de impunidade, falta com a verdade, propensão para a diversão e o extravasamento. Costuma-se dizer que levamos a sério coisas com que nos divertimos, e o carnaval é o melhor exemplo disso, haja vista a competitividade pela disputa do título de maior escola de samba, para não falar da fezinha no jogo do bicho e nas loterias. Como já poetou Carlos Drummond de Andrade para interpretar o brasileiro, "brincar é seu destino, ainda quando há desrazões de ser feliz". Há quem veja ainda na vontade de brincar com a infelicidade a justificativa para a falta de seriedade na política e improvisação na administração pública, o que garante mais um título ao País: campeão da experimentação. O Brasil tem cara de quem está sempre fazendo cirurgia plástica.

Aliás, o conceito de "provisório" é tão brasileiro que se confunde com o antônimo "permanente". Veja-se a velha Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Tornou-se permanente. Seguindo a linha das coisas provisórias, contabilizamos, em 18 anos, de 1976 a 1994, 17 planos econômicos. Se a ciclotimia decorre da frágil institucionalização política, temos de admitir que os nossos homens públicos, ao não primarem pela ética da continuidade, também têm culpa no cartório. Cada um puxa a brasa para sua sardinha e, ao final, sobra mais braseiro que peixe. O governo Sarney foi extremamente experimentalista. Decretou moratória, fez intervenção na economia, congelou preços e salários, mudou a moeda cinco vezes. O governo Collor experimentou o pacote desastroso do confisco da poupança. Pensava-se que, após o Plano Real, implementado ao longo de 1994, o País abandonaria os ciclos das experiências "milagrosas". O governo de Fernando Henrique fincou as bases da estabilidade, a inflação foi controlada e a economia se abriu com o programa de privatização.

Em três anos, Lula, adotando as diretrizes econômicas do antecessor, consolida a estabilidade. Mas os avanços são vergonhosos. Houve, sim, ligeiro aumento na distribuição de renda das classes mais pobres. As exportações apresentam grandes números. Os superávits na balança comercial são significativos. Mas o País cresceu apenas 2,3%, metade do que Lula prometeu e o segundo pior desempenho na América Latina. Em suma, a economia funciona no piloto automático, mas o resto é uma colcha de retalhos. Temos outro governante treinado na arte de inventar. Se a coisa não pega, como o Fome Zero, busca-se outro mote. Essa é a grande profissão de Luiz Inácio: empacotador de presentes. Cada tipo de gente com seu pacote. Para os mais carentes, um pacotão, o Bolsa-Família, dado a 11 milhões de famílias. O laço de lembrança é para ser usado em outubro. Mais um mimo para a turma das gerais: o aumento do salário mínimo. Para a galera jovem, um embrulho escolar, do tamanho de 130 mil bolsas do ProUni, passaporte para ingresso nas universidades. E, para remendar outros furos que ainda restam no tecido social, que tal buscar remédios nos 2 mil balcões das farmácias populares?

Com as margens locupletadas de presentes, o caminhão de brindes se dirige ao centro, em que milhões de brasileiros indignados e descrentes esperam ver para crer. Os primeiros pacotes parecem improvisados. O que se destinava a consolidar o emprego de domésticas, permitindo ao empregador abater da base de cálculo do Imposto de Renda (IR) parcela dos 12% que recolhe para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ficou no ar. Outro, que corrige em 8% a Tabela do IR, é considerado esmola. Para compensar, o dono do caminhão encomenda um contêiner contendo dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para cooperativas de crédito entregarem a pessoas da classe média que desejem adquirir a casa própria. Há R$ 1 bilhão em caixa. E o que fazer para reconquistar a barulhenta categoria dos funcionários públicos, afogada no desencanto dos salários baixos? Ora, entregar-lhe um presente de 29% de aumento salarial médio. Dos 2 milhões de funcionários, milhares poderão voltar à seara lulista.

No tour que faz pelo Brasil, atirando loas pelas beiradas, Lula descobriu que a classe média baixa, de renda entre R$ 800 e R$ 1,1 mil, precisa ser acarinhada. Pois bem, lá vem o pacote das viagens baratas, embrulhado para tirar de casa 20 milhões de turistas até 2007. E assim vai surgindo no horizonte do desencanto com a política um Brasil empacotado. Nem sempre, vale lembrar, os presentes são bem confeccionados. Veja-se o pacotinho do tapa-buracos, que a caravana carnavalesca descobriu ser uma farsa. Os buracos comem o território. Olhe-se aquele do álcool, que deixou de ser barato. Para punir usineiros, diminui-se a cota de álcool na gasolina. Aí o preço do combustível aumenta e a classe média solta a voz. Quanta improvisação! Pois é este país remendado, que mais parece uma colcha de retalhos, que Sua Excelência vai apresentar à comunidade eleitoral. Não será muito questionado. A oposição está com a garganta presa. E a folia não acabou. Imaginem o Brasil inundado no êxtase coletivo caso ganhe o hexacampeonato mundial de futebol. Para que tudo fique nos conformes - afinal, a mulher de César precisa não apenas ser honesta, mas parecer honesta -, o empacotador tem caprichado na visibilidade. O País ganhou o maior pacote governamental de verbas publicitárias de todos os tempos: R$ 903,7 milhões em três anos, 85% a mais do que os oito anos de FHC.

De tudo que se disse de Lula, falta acrescentar uma qualidade: é um alquimista brincalhão. A capacidade de exibir um Brasil-Maravilha (no meio de tanta tormenta) e de dizer que não sabe o que sabe só pode advir mesmo de um espírito folgazão. E, se necessário for, o alquimista dirá que o petismo nunca fez sua cabeça.