quarta-feira, março 08, 2006

Celso Ming - Dedetização na indústria

Celso Ming - Dedetização na indústria


O Estado de S. Paulo
8/3/2006

D e quando em quando aparecem palavrassíntese cujo objetivo é tentar explicar dificuldades da indústria e exigir remédios mágicos.
A do momento é "desindustrialização". Anos atrás, preferiam dizer "desnacionalização" ou, então, "sucatamento do parque produtivo nacional".
A idéia é que a indústria brasileira está sendo dizimada, como insetos sob dedetização. Às vezes o agente suspeito é a política cambial, pela competitividade que tira do produtor; outras, é o insuportável custo Brasil, mais focado na excessiva carga tributária; outras, a concorrência desleal do contrabando ou do "importabando" (importação fraudulenta); ou, então, as excessivas concessões à China, cujo resultado é o sufocamento da indústria; outras, ainda, os juros exorbitantes que valorizam o real, favorecem o contágio da doença holandesa, tiram competitividade da indústria e bloqueiam investimentos.
Quem mais vem insistindo na tese da "desindustrialização", comprada com sofreguidão pelo Iedi e pela Fiesp, é o ex-ministro Rubens Ricupero. Domingo, na
Folha de S.Paulo, juntou quatro casos que, segundo ele, comprovam o desmanche: a proposta de transferência da unidade de motores Tritec, instalada em Campo Largo (PR), para a China; o fechamento de nove fábricas do grupo Bunge; deslocamento de operações da Azaléia para a Argentina e para a China; desistência de investimentos no Brasil pelo Grupo Black & Decker.
Indústrias nascem, crescem, definham e morrem todos os dias. O Grupo Matarazzo já foi o maior complexo industrial do Brasil, que já teve a Gurgel, a Trol, a Engesa, a Sharp, a Admiral e a Cobertores Parahyba. A história da indústria brasileira é um cemitério de marcas e de empreendimentos, desde os tempos do barão de Mauá. E ninguém até agora precisou agarrar-se ao conceito de "desindustrialização" para explicar o curso natural da vida produtiva.
O fenômeno da transferência (off-shoring) de unidades inteiras ou de investimentos para a Ásia é universal. A General Motors anunciou em novembro o fechamento de 12 fábricas nos Estados Unidos e a Ford, 14. Como efeito da crise da indústria de veículos dos Estados Unidos, a Dana, gigante de autopeças, acaba de pedir concordata, como já havia feito a Delphi em outubro.
A indústria de aparelhos domésticos começou nos Estados Unidos e na Europa, migrou para o Japão e agora está na Coréia do Sul e na China. A indústria têxtil começou em Manchester, na Inglaterra, e mudou para No 
 
 
Culpar problemas internos e ignorar o vendaval asiático é auto-engano 
 
 
va Inglaterra, nos Estados Unidos. De lá foi para as Carolinas, atrás do algodão. Hoje, concentra-se na Ásia, especialmente na China, na Coréia do Sul e em Bangladesh, onde a mão-de-obra é baratíssima. A edição da revista
The Economist de 25 de fevereiro (pág. 73) mostra que a indústria têxtil e a do couro localizadas na Lombardia (Norte da Itália) estão sendo varridas. A mortalidade acontece não em conseqüência do câmbio ruim ou da "desindustrialização". Acontece porque a China é o gigante de cujo despertar já falava Napoleão.
O desmonte de cadeias produtivas segue a globalização, a expansão do comércio mundial, o emprego crescente de Tecnologia de Informação e a incorporação de bilhões de asiáticos ao mercado de trabalho. Culpar o câmbio, os juros, a falta de política industrial e, ao mesmo tempo, ignorar o vendaval asiático é mistificação e auto-engano.
No mais, desindustrialização pode não ser outra coisa senão a perda de participação da indústria no bolo nacional. Turismo, setor financeiro, transportes, serviços de informática, internet, ensino - tudo isso junto tem crescido muito mais do que a indústria, em todo o mundo e não apenas no Brasil.
Em todo o caso, se há desindustrialização, é preciso antes entender do que se trata. Exigir a implantação de um desenvolvimentismo baseado na substituição de importações e na preservação cega de qualquer fábrica leva ao risco de sucatear de antemão todo o parque industrial, até mesmo as empresas que precisam ser preservadas.