domingo, março 19, 2006

AUGUSTO NUNES PT vira carrasco de CPIs

JB
 
PT vira carrasco de CPIs

Não convidem o PT e qualquer CPI para a mesma investigação, diria um colunista social. Enquanto o "partido da ética na política" amargou o purgatório da oposição, vivia apaixonado por alguma CPI. Essa história de amor acabou. O rompimento ensaiado desde 2002 consumou-se em junho passado, quando o PT tentou matar três comissões.

Na semana passada, o partido hoje no governo passou da hostilidade ao ódio. Com o endosso do Supremo Tribunal Federal, o PT conseguiu interromper na CPI dos Bingos o depoimento de Francenildo Santos Costa, caseiro do clube apelidado República de Ribeirão Preto. O nome homenageia a cidade que o atual ministro da Fazenda governou duas vezes.

Todos os sócios foram assessores do prefeito Antonio Palocci. Continuam amigos, jurou o caseiro antes da chegada da mordaça. Também afirmou que um dos freqüentadores assíduos é o ministro da Fazenda. Ou "Chefe".

O caseiro mentia ou dizia a verdade? A decisão do ministro César Peluso embargou a resposta. O jurista concedeu a liminar reivindicada pelo senador Tião Viana num documento que revela a alma do novo PT.

O documento pede que a CPI investigue apenas crimes vinculados aos bingos. A apuração de outras bandalheiras só confirma que o objetivo da comissão é perseguir o PT. Vários exemplos são mencionados na ação judicial.

A relação dos supostos desvios de rota da CPI exibe o estilo do redator, que funde a ironia e o deboche. "O assassinato de prefeitos do PT (do PT, claro, sempre do PT)", diz o texto, que desdenha da apuração de vários delitos.

Um deles: "a existência de eventual caixa dois partidário (no PT)". Eventual, vejam só. É muito cinismo. E muita arrogância, ressuscitada por recentes pesquisas favoráveis a Lula. A ação encaminhada ao STF pelo vencedor do campeonato nacional da bandalheira trata com sarcasmo as numerosas acusações que envolvem Palocci e seus amigos do interior paulista.

Tais suspeitas são evocadas pelo redator para provar que o PT é injustamente perseguido. Um exemplo: "as denúncias de superfaturamento na Prefeitura de Ribeirão Preto (na gestão do PT)". Outro: "a vida íntima de agentes públicos e agentes políticos que integram as ostes do PT". Isso mesmo: "ostes", sem o h inicial. A consoante foi furtada.

Antes do episódio da censura na CPI, o Brasil fizera uma constatação constrangedora: o ministro Palocci mente com a naturalidade de quem respira. O silêncio imposto ao caseiro só comprova que o PT quer manter em segredo histórias nada edificantes.

Sempre interessado em novidades, o Cabôco acompanhou com especial atenção o primeiro discurso do homem escolhido pelo PSDB para disputar com Lula o Palácio do Planalto. Ficou muito impressionado com o jeitão de bom-moço de Geraldo Alckmin. E gostou das declarações de amor à família, à tradição, à moral e aos bons costumes. Mas acha que a conversa está mais para púlpito que para palanque. E pergunta: o atual governador paulista quer ser presidente do Brasil ou papa?

Aracruz atacou primeiro

"Jamais esperava este tipo de violência", afirmou Carlos Aguiar, presidente da Aracruz Celulose, ao saber da devastação promovida por 2.000 mulheres, todas militantes do MST, numa fazenda da empresa no Rio Grande do Sul (foto). A frase é pertinente. Mas também teria sido se pronunciada em 20 de janeiro passado, quando 120 agentes da Polícia Federal, apoiados por helicópteros e providos de armas e bombas, foram mobilizados para a destruição de duas aldeias indígenas.

Os 50 habitantes, pertencentes às nações Tupiniquim e Guarani, foram despejados das terras dos ancestrais, incorporadas arbitrariamente ao município de Aracruz, no Espírito Santo. A brutalidade se consumou sem que chegasse aos nativos uma única ordem de despejo. Dois líderes das aldeias foram presos sem explicações. Ficaram feridos 12 dos 50 expulsos. O ataque contou com o aparatoso apoio logístico da produtora de celulose, que providenciou hospedagem gratuita para a tropa.

Os agentes utilizaram o heliporto e as dezenas de linhas telefônicas da Aracruz. Tratores da Aracruz arrasaram as moradias. Muitas sumiram antes que os donos pudessem retirar seus pertences. A família real da Suécia, proprietária de ações da empresa, tratou de vendê-las. A imprensa brasileira não deu maior atenção ao episódio. O governo fingiu que nada tinha a ver com aquilo.

A violência exibida pelo MST foi tão chocante quanto o ataque aos índios do Espírito Santo.

Nesta semana a taça vai para...

... o presidente Lula da Silva, pela misteriosa frase que embelezou um dos improvisos do candidato à reeleição:

"Nossa massa encefálica é muito mais inteligente do que vocês pensam".

O júri do Yolhesman gostou de ouvir Lula trocando a primeira pessoa do singular ("Ninguém neste país é mais (...) do que eu") por um generoso "nossa". O resto da frase, nenhum dos jurados entendeu.

Viveiro de amnésicos

O escritor Ivan Lessa afirma que, a cada 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos 15 anos anteriores. Recente pesquisa do Ibope informa que esse fenômeno de amnésia coletiva passou a manifestar- se em ritmo mais veloz: agora, a cada ano o país esquece o que aconteceu nos últimos 12 meses.

Segundo o levantamento do Ibope, apenas 15% dos brasileiros se recordam do mensalão. Jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão tratam teimosamente de casos que envolvem parlamentares corruptos. No carnaval, multidões cantaram marchinhas inspiradas na roubalheira. Nada disso teria chegado a 85% dos brasileiros.

A pesquisa deve ter-se limitado a clínicas geriátricas.

Investigadora se recusa a investigar

O povo bom e amigo de São José dos Campos está devendo essa ao Brasil. Ali começou a carreira política da médica Ângela Guadagnin, vitoriosa em 1992 na disputa da prefeitura. Durante o mandato da militante do PT, o economista Paulo de Tarso Venceslau, secretário municipal de Finanças, denunciou o esquema de arrecadação de dinheiro para as campanhas do PT. Era tudo verdade. Parecia mentira.

Chorando, a prefeita anunciou a demissão do secretário. Sorrindo, chefes do PT comunicaram a expulsão de Venceslau. Nem por isso São José dos Campos deixaria de remetê- la, em 1998, à Câmara dos Deputados. Reeleita em 2002, foi apresentada à notoriedade no annus horribilis.

Médica, especializou-se em saúde pública. Deputada, dedica-se a afetar a sanidade do público que acompanha as sessões do Conselho de Ética da Câmara. Única representante do PT, faz tudo o que o partido quer. Há quase nove meses, dedica-se a atrapalhar os trabalhos do Conselho.

Ou pelo menos retardá-los. Prolongou a agonia do ex-deputado José Dirceu com sucessivos pedidos de vista do processo. Há dias, colocou-se à disposição do companheiro João Paulo Cunha. O relatório produzido pelo deputado gaúcho César Schirmer foi minuciosamente devastador. Ângela avisou que, desta vez, não haveria pedido de vista. João Paulo interrompeu-a para passar o recado: queria ganhar algum tempo. E a parlamentar de 57 anos levou o relatório para casa.

Os eleitores de São José dos Campos terão em outubro uma boa chance de pagar a dívida contraída com o Brasil: devolvam Ângela à medicina. Ou ao recesso do lar. Livrem a Câmara de uma mulher que se limita a obedecer.

Sobrou tiro, faltam luzes

A Guerra dos Fuzis, travada entre o Exército brasileiro e traficantes de drogas que governam os morros do Rio, terminou envolta pelas brumas do mistério. Durante 11 dias, centenas de soldados lutaram nas favelas pelo resgate de 11 fuzis roubados de um quartel. (Bicheiros cautelosos recusaram apostas no 11.) Localizadas as armas, a tropa declarou- se vitoriosa e retirouse das favelas conflagradas.

Ficaram muitas perguntas. O Exército achou o armamento ou os assaltantes resolveram devolvê-lo? Houve negociações entre mocinhos e bandidos? Por que a imprensa não foi convocada para testemunhar o epílogo da guerra?

Muitos cariocas ficaram acordados por tanto tiro. Merecem respostas razoáveis.

augusto@jb.com.br

[19/MAR/2006]