sábado, março 11, 2006

É assim que começa AUGUSTO FRANCO

É assim que começa

Diz-se que no Brasil não há base objetiva para a chamada “venezuelização”. No entanto, começam a aparecer alguns indícios, muito preocupantes, de divisão, digamos, de sensibilidades no seio da sociedade brasileira. O resultado da pesquisa do Ibope, divulgada pelo O Globo, como salientou Cesar Maia na sua newsletter IOCM de ontem, pode estar revelando uma tendência perigosíssima: “32% concordam com o MST e 12% não sabem! 41% são contra que a policia garanta o direito de propriedade e 6% não sabem”. Há quase um empate. O que isso significa?

O instituto perguntou aos entrevistados se as ações do MST trazem mais resultados positivos ou negativos para a reforma agrária. Na opinião de 56% dos entrevistados, elas trazem mais resultados negativos do que positivos para o processo, 32% consideram que os resultados são mais positivos do que negativos e 12% não sabem ou não opinaram. Para 53% dos entrevistados, a polícia deve ser utilizada pelo governo para retirar integrantes do MST quando ocupam propriedades rurais. São contra 41% dos consultados e 6% não opinaram.

Pode-se dizer que isso significa, antes de qualquer coisa, não a adesão ideológica ao ideário revolucionário do MST e, sim, que revela um descrédito nas instituições do Estado de direito. Mas é tão grave quanto. É assim que começa. Se as instituições não prestam, estamos autorizados a apoiar qualquer aventureiro que pretenda desfazê-las com o propósito de reconstruí-las sobre novas bases.

O MST conseguiu esse prodígio de assentimento às suas práticas criminosas e antidemocráticas não por seus próprios méritos, mas porque está imerso num clima de desconstrução institucional que vem sendo promovido pelo PT.

Sim, o PT não acredita na atual institucionalidade. Tanto é assim que sua militância não se abala com a roubalheira promovida por seus dirigentes. Ora, devem pensar, tanto faz. Está tudo podre mesmo. Então vamos agora lutar com todas as armas para virar o jogo. Para a cultura autoritária petista, a corrupção é uma arma como as outras. Se não é possível praticar a luta armada para desalojar as elites de um poder que monopolizam secularmente, vamos usar tudo o que estiver disponível, inclusive a corrupção, por que não? Afinal não foram as elites que instauraram a corrupção? Pois agora que provem da sua receita.

Enquanto tal pensamento aético restringe-se à militância petista, vá lá. Mas quando setores expressivos da população começam a aderir a ele, vamos entrando na perigosa senda que leva à autocracia.

Não adianta querer negar, com argumentos sociológicos retirados de uma análise da estrutura e da dinâmica social da Avenida Paulista, da Vila Madalena, dos Jardins ou de Higienópolis: uma opinião pública polarizada nesse nível – se isso se generalizar – carrega água para algum tipo de “venezuelização”.

Cada vez que um Palocci é protegido, cada vez que um Azeredo não é repreendido, cada vez que um Brant ou um Luizinho são absolvidos, mais o ambiente institucional se torna favorável à chutação de balde por parte da opinião pública, que vai identificar Lula como o grande chutador, como aquele líder capaz de virar a mesa.

Por isso, como venho dizendo, poderia haver tudo menos colaboracionismo e leniência das oposições em relação ao maior processo de desconstituição das instituições republicanas de que temos notícia em nossa história. Por isso não se poderia deixar passar impune a formação de quadrilha no governo para assaltar o Estado. Por isso era preciso cortar na carne. Por isso não se poderia empurrar com a barriga, adiando as providências e trocando a aplicação das leis pela temerária aposta numa sanção eleitoral futura.

As oposições não estão a altura de entender a ameaça que paira sobre nós. Vão pagar por isso. Porém, mais do que elas, vamos pagar todos nós, sem termos feito nada para merecer tão triste destino.