quinta-feira, março 09, 2006

Alberto Tamer - Inglaterra compra e não investe

Alberto Tamer - Inglaterra compra e não investe


O Estado de S. Paulo
9/3/2006

Presidente vai, presidente vem, mas a Inglaterra não se anima investir no Brasil. Até Geisel esteve lá, Fernando Henrique também, e todos voltaram mais ou menos de mãos vazias. A Inglaterra é o país que mais cresce de forma consistente na Europa, tem enorme presença no mercado internacional, mas o Brasil tem sido deixado de lado. Quando mais um presidente está em Londres, é oportuno tentar compreender a razão desse relativo desinteresse. O ex-embaixador brasileiro em Londres Rubens Barbosa confirma que os ingleses importam mais do que exportam para o Brasil, mas investem muito pouco.

OPORTUNIDADE PERDIDA

“Quinta maior economia do mundo, com um PIB de US$ 1,6 trilhão, e terceiro maior mercado importador, com compras de cerca de US$ 460 bilhões, o Reino Unido tem no Brasil seu principal parceiro comercial na América do Sul. O intercâmbio comercial em 2005 subiu a cerca de US$ 4 bilhões. O Brasil exportou US$ 2,6 bilhões com um crescimento de mais de 22% sobre 2004 e importou US$ 1,4 bilhão, com um crescimento de 1,5% em relação ao ano anterior, gerando um superávit de US$ 1,2 bilhão”, diz Barbosa.

Mas não é só isso. Há enormes oportunidades. “Podemos ampliar nossas exportações em setores em que temos produção competitiva e nos quais o Reino Unido representa um mercado crescente, como veículos, carnes, calçados, biocombustíveis, açúcar, produtos siderúrgicos e minerais entre outros. Por seu turno, as empresas britânicas não exploram o crescimento das importações brasileiras, nem a possibilidade de fazer do Brasil uma plataforma de exportação para a América Latina.”

Esta é o que a coluna classifica como uma “esplêndida oportunidade perdida”. E não há visita presidencial que resolva...

INVESTEM MUITO, NÃO AQUI

Com relação ao investimento, segundo dados da Unctad, o Reino Unido é a segunda principal fonte de investimentos diretos externos com US$ 65 bilhões em 2004. Em relação ao Brasil, segundo o BC, o Reino Unido tem US$ 1,5 bilhão em estoque e em 2004 investiu cerca de US$ 250 milhões! Para a coluna, esse valor praticamente insignificante impressiona. Para a coluna, eles praticamente não investiram nada. Há algo de errado.

Uma área pouco explorada no Brasil é o mercado financeiro de Londres. Não ocorre a ninguém no Brasil pensar em lançar ações na City. Talvez seja o caso de as empresas passarem a considerar Londres como alternativa para captar recursos.

E o que fazer? A pergunta é apenas formal, pois a resposta é clássica, todos conhecem o caminho, falta só não só iniciativa, mas também ação.

Para Barbosa, “do lado britânico, será necessário maior foco setorial. Escolher alguns setores da economia brasileira e concentrar esforços para atrair empresas em associação com companhias brasileiras. Energia, infra-estrutura, especialmente a modernização de portos, são dois exemplos de áreas em que o Reino Unido poderia investir. Missões comerciais organizadas conjuntamente poderiam gerar novos negócios. Do lado brasileiro, no momento em que se busca expandir o relacionamento bilateral e despertar o interesse das empresas para a ampliação do comércio e dos investimentos, talvez uma forma de tentar atrair empresas britânicas para investir no Brasil em investimentos diretos, seja adotar uma política ativa e discutir projetos específicos”.

Por seu turno, as empresas britânicas não exploram o crescimento das importações brasileiras, nem a possibilidade de fazer do Brasil uma plataforma de exportação para a América Latina. Embora crescentes, as relações econômicas estão muito aquém das potencialidades dos dois países.

Mas por que o inglês hesita tanto em investir no País?

Barbosa esclarece que o principal obstáculo é a falta de conhecimento das potencialidades do Brasil. “A Inglaterra – que teve uma participação importante na economia brasileira e foi nosso principal parceiro até meados de 1920 – foi gradualmente perdendo espaço e informação relevante sobre o Brasil, sendo substituída pelos EUA. O reduzido número de empresas britânicas operando no Brasil é um exemplo concreto. A América do Sul e o Brasil não estão nas prioridades dos empresários e dos governos europeus.”

Mas, se quisessem, onde poderiam investir?

“Será necessárioum esforço dos dois lados para identificar áreas em que há vantagem competitiva de médias empresas britânicas para associar-se com empresas brasileiras, sobretudo em alta tecnologia. Biotecnologia, software, nanotecnolgia, por exemplo, oferecem excelentes oportunidades de joint ventures.”

Há muito a fazer, mas as relações entre os dois países passam por uma fase muito boa. Agora, é agir, persistir e seguir em frente.