sábado, fevereiro 11, 2006

Miriam Leitão O fim do risco

O GLOBO

Esta semana terminou em plena calmaria, confirmando o que se lê nos relatórios dos bancos ou se ouve dos analistas financeiros. O dólar caiu a níveis sempre inesperadamente baixos e o risco chegou ao patamar mais baixo da História e continuou em queda. Há fatores conjunturais melhorando o clima e os indicadores, mas isso, nem de longe, significa que o risco acabou. Há muito em jogo.

Quem olha os dados fica com a impressão de que o risco acabou no Brasil. Este ano, a bolsa subiu 10,3%, o dólar caiu 7,4% e o risco-país baixou 79 pontos; foi de 305 para 226. A semana terminou com o dólar a R$ 2,16. Isso num ano eleitoral. Parece inédito e não é. No começo de 2002, o dólar e o risco caíram. O movimento nada indicava sobre o ano tenso vivido pelo país. Em abril, o dólar caiu para R$ 2,30, depois de ter chegado a R$ 3.

Este ano, será menos tenso, mas a volatilidade vivida em 2002 deveria servir de alerta. Este ano, há avanços concretos. O quadro externo é completamente outro. Há dinheiro sobrando no mundo e o ajuste externo feito pelo Brasil transformou déficit em transações correntes em um consistente superávit; o país reduziu dívida externa, aumentou reservas cambiais, encerrou o acordo com o FMI. O Brasil exportava a metade do que exporta agora e tinha 28,9% do saldo que acumulou nos últimos 12 meses. O quadro é tão diferente que é até espantoso que os juros reais estejam no mesmo nível.

Isso explica parte do interesse em investir no Brasil. O país melhorou seus fundamentos financeiros, mas continua disposto a pagar a mesma taxa de juros reais aos seus financiadores. No fim de 2002, com toda aquela turbulência, os juros reais eram 11%. Agora é um pouco mais. Do ponto de vista financeiro, é irracional. É por isso que o risco despenca. O Brasil sempre pagou uma taxa, em seus papéis, 100 pontos acima da Turquia, agora os títulos estão sendo negociados abaixo do preço pago pelos turcos.

A queda do dólar e do risco nos últimos dias tem motivos de curtíssimo prazo: o anúncio de que o Tesouro pode isentar investidor externo, indica que haverá mais fluxo vindo de fora; a decisão de recomprar dívida externa melhora ainda mais o quadro de curto prazo. As notícias, da perspectiva do investidor financeiro em Brasil, são as melhores possíveis.

Mas o mundo financeiro é apenas uma ilha em todo o resto, onde existem turbulências e incertezas. Não há melhora concreta no país em nenhuma outra área. E estamos distantes do tempo em que poderemos dizer que o risco acabou no Brasil.

A dívida é menor, mas ela diminuiu, em grande parte, pela mudança cambial. A dívida/PIB não caiu tanto quanto poderia ter caído diante do superávit primário mantido pelo governo em níveis cada vez mais altos.

O governo Lula manteve uma política econômica que nunca defendeu em seu programa partidário; o Banco Central teve uma independência sempre contestada pelo governo e pelos partidos governistas; o ministro Antonio Palocci, fiador da política econômica, está sob bombardeio interno e externo e ainda tem sido cogitado para coordenar a campanha. Se o fizer, ficará ainda mais na berlinda.

A avaliação do mercado é tranqüilizadora. O que os analistas dizem é que basta substituí-lo por Murilo Portugal, clone com vantagens, que tudo permanecerá na mesma. Os dois não são a mesma pessoa. Palocci é um político e dos quadros do PT. Murilo é estrangeiro ao partido e a tudo o que ele sempre defendeu. Curioso imaginar que o PT, na refrega pelo segundo mandato, entregará o poder do mais forte ministério a um estrangeiro a que mal conhece e que pouco fala com o presidente. Se o fizer, é o caso de se perguntar: quanto tempo durará? O nome cotado para escrever o programa do segundo mandato é o de Marco Aurélio Garcia, que, em entrevista a pesquisadoras americanas, informou que o presidente esteve para mudar várias vezes a política econômica. Difícil imaginar que Marco Aurélio e Murilo Portugal compartilhem a mesma visão sobre economia, função do Estado, papel do Banco Central, austeridade fiscal, dívida pública. Ou bem Murilo Portugal seria biombo para enganar o mercado, ou bem Marco Aurélio escreveria um programa para enganar, de novo, o eleitor tradicional do PT. Ou ambas as coisas.

Há riscos fiscais hoje no governo Lula. O superávit primário foi alimentado por carga e arrecadação crescentes. O gasto corrente aumentou todos os anos. A máquina, que havia passado por ligeira redução no governo anterior, voltou a ser inchada. As estatais estão tomando decisões dentro do que supõe o governo ser o interesse estratégico do país. A estatização aumentou. Isso não combina em nada com aquelas curvas simpáticas, feitas pelos analistas, de queda da dívida/PIB nos próximos anos até o nível sustentável abaixo de 40%. Não há horizonte fiscal que sustente este cenário.

O PSDB, dividido na mesma facção paulista, não tem programa, não avisa como pretende enfrentar os vários desafios que o país tem e as poucas declarações feitas pelo candidato que está na frente, José Serra, indicam que ele fará mais intervenção na política econômica. Não se sabe de que natureza. Os tucanos não têm uma tática ofensiva. Apenas reagem ao governo e se atracam com os petistas em algumas escaramuças. No PMDB, há um pré-candidato com idéias conhecidas e insensatas e o outro com idéias desconhecidas.

Para quem tem uma visão mais ampla do que seja risco basta lembrar um detalhe: o Brasil cresceu no ano passado e crescerá este ano bem menos que o mundo. Isso não é atestado de saúde. Pode ser aviso de fragilidade.