FOLHA
Procuro sempre construir algumas imagens, buscadas no mundo real de cada um de nós, para facilitar a compreensão dos fenômenos econômicos. Recentemente usei a imagem de um coração novo -o balanço de pagamentos- para explicar a fase nova que vive a economia brasileira. Instado a discutir recentemente a política econômica de um eventual governo tucano, me veio à mente uma outra dessas comparações. Procurei mostrar a meus interlocutores que a economia de um país pode ser associada a um desses computadores que hoje fazem parte de nossas vidas, composto basicamente por três itens principais: o chamado hardware, o sistema operacional e os aplicativos.
O hardware é a parte física dos computadores, formada pelos componentes eletrônicos que permitem a manipulação dos dados e informações; o sistema operacional é o "pensamento" que comanda a máquina e a faz útil para o homem; e os aplicativos são os programas que permitem aos usuários realizarem suas tarefas de maneira mais eficiente e fácil.
No PC imaginário que associo à economia de um país, o hardware é o conjunto de estruturas físicas e regras legais que formam o arcabouço institucional. Fazem parte também desse conjunto os agentes econômicos -empresas, consumidores e governo. No mundo de hoje, tecnológico e competitivo, o sistema educacional também compõe o hardware.
Já o sistema operacional que faz a estrutura básica funcionar de maneira harmônica e inteligente é o que chamamos de política macroeconômica. Ele é integrado pelas políticas fiscal, monetária, de comércio exterior e por uma serie de políticas públicas que visam interferir no funcionamento da economia -incentivos fiscais e controle da concorrência, por exemplo.
Os aplicativos são principalmente subsistemas da economia, tais como a gestão da previdência pública e de programas sociais para combater problemas de pobreza e saúde publica.
Quando se pensa o programa de um novo governo é preciso construí-lo a partir desses três elementos. Como o funcionamento das economias de mercado evolui ao longo do tempo, é preciso um contínuo processo de modernização e adaptação do hardware a essa nova realidade. Um descuido em relação a essa preocupação pode custar caro a uma sociedade, na medida em que torna a economia menos competitiva, gerando, no médio prazo, perda de renda e de bem-estar social. Um exemplo claro desse risco no Brasil atual é o nosso sistema educacional, que não responde mais às demandas do mundo contemporâneo. Outros pontos críticos são a infra-estrutura física deficiente -portos, estradas, sistemas de geração de energia elétrica-, a fragilidade institucional, a morosidade da Justiça etc.
Mas gostaria de me concentrar hoje na política macroeconômica, o sistema operacional de nossa economia. Na minha opinião, o primeiro grande desafio de um novo governo é mudar esse sistema, pois o atualmente utilizado pelo governo Lula está errado e faz com que o computador funcione com pouca eficiência e gere problemas de longo prazo. O governo, nos seus três anos no poder, aumentou de maneira contínua seus gastos correntes, praticamente zerou os investimentos em infra-estrutura e buscou manter um superávit primário elevado por meio de um brutal aumento de impostos, asfixiando a atividade privada e impedindo o país de aproveitar plenamente a excepcional conjuntura mundial que estamos vivendo.
Para compensar essa política fiscal expansionista, o governo foi obrigado a manter a taxa de juros elevadíssima que, com seu filho bastardo que é a valorização do câmbio, serviu para tratar da questão da inflação. Com isso, o crescimento da economia foi pífio, principalmente quando comparado com o de outras economias, resultando no baixo crescimento da renda do trabalhador nos últimos anos. A incapacidade do atual governo de ter uma visão integrada da política econômica pode ser associada a um vírus que está impedindo a economia brasileira de funcionar a plena capacidade.