sexta-feira, dezembro 16, 2005

pelo menos, boa vontade! CESAR MAIA

O GLOBO


Recentemente, o presidente Lula disse que "o governo federal está apoiando o Pan". A mesma declaração fizeram o ministro dos Esportes e seu representante junto ao Pan. Confirmaram, inclusive, com cifras. Mas há um erro primário nas declarações. Os Jogos Pan-Americanos não são um evento municipal apoiado pelo governo federal. São um evento nacional, realizado em uma cidade do país, já que não poderia ser realizado nas nuvens. O nome da cidade-sede tem a ver com a tradição olímpica. Mas, certamente, Atenas não assumiu o gasto de 23 bilhões de euros pelas Olimpíadas de 2004, e muito menos Pequim, de 40 bilhões de euros pelas de 2012. Da mesma forma, Barcelona, Moscou, Tóquio ou Sidney. Os Jogos Pan-Americanos, devido à presença de atletas dos Estados Unidos, constituem o segundo mais importante evento esportivo, depois das Olimpíadas.

O esporte, com seus desdobramentos e multiplicadores, é hoje a principal atividade nos países desenvolvidos. E não se trata apenas da profissionalização de atletas, treinadores, médicos, roupeiros, massagistas etc. Trata-se da sinergia com a indústria de confecções esportivas, com a indústria de calçados (os diversos tipos de tênis já chegam a 30% do total), do valor das páginas diárias de jornais, programas e blocos nas TVs e rádios, do jornalismo esportivo, do indutor sobre a fisioterapia e a reabilitação, das vitaminas, do impacto na ortopedia, da indústria de publicidade, dos hábitos, das salas de ginástica e musculação, da expansão do mercado de professores de educação física, da transmissão de eventos, das marcas associadas, do turismo esportivo etc... Isso sem tratar do papel que cumpre em relação à inclusão social, à expectativa de mobilidade social, ao bom exemplo aos jovens em relação aos vícios.

Todas as grandes cidades que sediam eventos deste tipo, no mundo de hoje, mudam. Seja pela visibilidade internacional que conseguem com a nova atratividade turística, seja por atrair novos eventos internacionais, seja por seus multiplicadores urbanos. O país-sede muda de escala internacional esportiva — vide a Espanha — e, com isso, o multiplicador se acentua.

Parece, no entanto, que, há menos de dois anos do Pan-2007, essa consciência é pelo menos insuficiente. Comecei pelas declarações das autoridades federais, que não se sentem o centro do evento, mas sim o apoio, quase que fazendo um favor.

Recentemente, li uma reportagem na qual a microvenda de terrenos inócuos da prefeitura era relacionada a recursos para o Pan. Acompanho a imprensa esportiva de São Paulo e noto que trata o Pan quase que com uma enorme vontade de que não dê certo, seja por falta de recursos, por ações na Justiça, por isso ou por aquilo. As letras impressas cheiram a veneno. Se fosse com a Prefeitura, tudo bem. Sempre achei que o controle de qualidade da imprensa é básico para que os governos dêem certo. Mas esta não é uma decisão política da prefeitura, é uma decisão do COB.

Como se não bastasse, na Câmara Municipal do Rio foi apresentado um projeto de lei retirando do complexo do autódromo autorizações urbanísticas, numa busca de inviabilizá-lo após a desistência do concessionário. Recebo e-mails criticando a aplicação de recursos públicos no Pan, alegando outras prioridades, como se o desenvolvimento econômico — lato sensu — da cidade e do país não fosse uma gigantesca prioridade. O governo federal declarou que um de seus aportes será a segurança do evento. Mas quando e em que país a segurança de um grande evento internacional não cabe à esfera federal? Não foi assim na Eco-92? Isso é uma obrigação e não uma caridade.

É verdade que o esforço financeiro que está cabendo à prefeitura vai muito além de tudo o que se poderia prever num evento de natureza nacional como esse. Lembro que para a Eco-92 se construiu a Linha Vermelha com empréstimo do BNDES e por indução federal. Agora, no entanto, para se conseguir empréstimo — e não doação — para o Pan, o enquadramento é tão rígido como se fosse uma rotina. A prefeitura conseguiu aprovar em lei garantias firmes, fluxo de mais de 200 milhões de reais do serviço da dívida ativa, por ano. Mas o Ministério da Fazenda resolveu classificar as mesmas como endividamento disfarçado e, com isso, negar em última instância as operações financeiras com aquele lastro.

Certamente, nem esta insuficiente consciência, nem a visão federal desviada, nem o que quer que seja vão impedir a realização do Pan. A prefeitura sempre terá onde buscar os recursos, mesmo com uso da heterodoxia fiscal-financeira, que aprendi desde 1983 como secretário da Fazenda e apliquei recentemente para ajudar o estado. Mas há um obstáculo intransponível: o tempo. Se, além de tudo, por qualquer razão, o cronograma for atrasado por liminares na Justiça, sob quaisquer pretextos, aí não haverá como superar o problema, pois o Pan não é prorrogável. O que se pede hoje não é nada mais nada menos que a compreensão da natureza do Pan, sua importância nacional e local. E, pelo menos, boa vontade!

CESAR MAIA é prefeito do Rio.