sexta-feira, dezembro 16, 2005

Editorial de O GLOBO

Riscos eleitorais

As duas mais recentes pesquisas eleitorais — do Ibope, sob encomenda da Confederação Nacional da Indústria, e do DataFolha — agravam as perspectivas sombrias das pretensões reeleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tornam mais dura a disputa entre os tucanos José Serra, prefeito de São Paulo, e Geraldo Alckmin, governador do estado, pela preferência no PSDB para concorrer ao Planalto em 2006.

As duas sondagens colocam pela primeira vez Serra à frente de Lula já no primeiro turno. Mas também retratam o fortalecimento do governador paulista Geraldo Alckmin, que nas duas pesquisas deu um salto de seis pontos. Como tem grande potencial de crescimento, por ser pouco conhecido fora de São Paulo, ele aumentou o cacife na disputa interna tucana.

Lula, por sua vez, parece retroceder para a faixa de 30% do eleitorado, nicho tradicional petista — pelo menos era dessa dimensão o voto cativo no partido antes do escândalo do mensalão e do propinoduto. Ferido o PT no órgão vital da ética, ninguém sabe ainda qual o real resíduo desse eleitorado fiel, pois o escândalo continua a ter desdobramentos.

Intrincados — e perigosos para o país — são os prováveis desdobramentos de uma persistente perda de substância eleitoral do presidente da República. O risco está no fortalecimento das teses populistas existentes no governo e no PT. Caso o cenário das pesquisas se repita, a tendência é o aumento das pressões para atos de irresponsabilidade fiscal e monetária.

Será um erro capital, um suicídio político de Lula e do PT, pelo recuo que provocará no país. Se forem por essa via, o presidente e os petistas arruinarão o que construíram até agora. Os defensores dessa alternativa se esquecem que inflação baixa transformou-se em patrimônio da sociedade.

Não fosse o populismo um caminho equivocado em si, as pesquisas mostram um fato crucial: Lula perde espaço também no eleitorado de renda baixa. Ou seja, o Bolsa Família não "compra" votos, como alguns devem apostar. Talvez por uma razão: seriam de outra natureza as causas da corrosão das pretensões eleitorais de Lula. O desgosto com a crise ética do PT e a ineficiência administrativa do governo parecem soterrar o manejo político-eleitoral do assistencialismo.