domingo, setembro 18, 2005

Os intelectuais e a crise: silêncios e palavras Celso Lafer

O ESTADO DE S PAULO

Estamos vivendo uma grave crise política, que eclodiu quando significativos indícios de um turvo relacionamento do poder público e partidário com o dinheiro passaram a ser do conhecimento geral. Estes indícios comprometem a reputação de integridade dos que neles estão enredados. Explicitam transgressões éticas e jurídicas. Põem em questão, em função dos centros irradiadores dessas abrangentes irregularidades, a identidade política do atual governo e do seu partido, o PT. Com efeito, este sempre realçou, na sua trajetória, o elemento diferenciador de uma superioridade moral em relação aos demais atores da vida política brasileira. Daí a depreciação do simbolismo e a erosão da confiança no presidente Lula, em seu partido, seus colaboradores e adeptos.

Integra o poder político dos intelectuais, diz Bobbio, o que se pode fazer com idéias e palavras - por exemplo: incitar, exaltar, aconselhar, educar, oprimir, seduzir, raciocinar, que são meios de formação do consenso ou do dissenso. Por isso a relevância, no momento atual, tanto da palavra quanto dos silêncios dos intelectuais.

No trato da questão do papel dos intelectuais, é sempre útil começar pela origem das palavras. Intelectual, como adjetivo, é o relativo ao intelecto, cuja raiz é o particípio do verbo latino intelligere, compreender, de inter, entre, e legere, colher, escolher, donde o significado de entendimento das coisas, pessoas e situações.

Todas as sociedades tiveram os seus quadros de "letrados" e "peritos", mas a idéia de um papel autônomo para os intelectuais é fruto da modernidade. Daí a partir do século 18, com o Iluminismo, a atribuição do caráter de substantivo à palavra intelectual.

O efetivo espaço para um papel próprio dos intelectuais foi dado pela democratização da sociedade e pela concepção laica do Estado liberal, que, ao deixar de reivindicar o monopólio do poder ideológico, ensejou o pluralismo das perspectivas.

Nas complexas democracias contemporâneas, os intelectuais, como aponta Bobbio, desempenham duas funções de natureza política:

Proporcionam aos que detêm o poder atual ou potencial a mensagem axiológica dos princípios diretivos;

e oferecem os conhecimentos-meio adequados para alcançar um determinado fim.

Ideólogos e peritos são necessários para se adquirir e exercer o poder no mundo contemporâneo. É por isso que encontramos intelectuais que fazem a crítica do poder, os que legitimam o poder, os que influenciam e colaboram com o poder e, por vezes, os que exercem o poder.

No exercício destas funções, há os que lidam com o mundo e suas imperfeições buscando instaurar o domínio da razão, cientes de que não há garantia histórica de progresso, que é, no entanto, uma idéia reguladora da ação. Ocupam-se, assim, de um caminho a ser trilhado com seus elementos de imprevisibilidade, no qual não há pecado original, mas também não há redenção final. Daí o espaço para o "intelectual mediador", que, com espírito crítico e democrático, procura estabelecer pontes entre visões antagônicas para aprimorar a convivência humana, que é, por excelência, a função da política.

Não é esta a visão de uma significativa vertente de intelectuais da esquerda que respaldam o PT. Num engajamento político permeado pela desmedida crença nas suas próprias virtudes, empenharam-se em tudo desqualificar, sem distinguir ou diferenciar. Dedicaram-se a uma crítica ao mesmo tempo moral e ideológica. Contestaram o que é à luz do que deveria ser, culpando as injustiças da sociedade atual e os seus gestores em nome da redenção de uma sociedade futura a ser construída pelo PT, sob a liderança de Lula, na perspectiva do povo. A estes intelectuais cabe uma palavra que vá além do combate político e que não seja, assim, só de crítica aos "desvios de direita" (o "neoliberalismo" da política econômica) ou da conduta de dirigentes do PT; que não se circunscreva a ataques aos moinhos de vento das armadilhas tucanas ou se volte para a formulação de fantasiosas hipóteses do golpe das elites. Cabe também uma análise reflexiva. Nesta seria de esperar que lidem com dois riscos de conduta política nos quais tendem a incidir em função da sua postura e da sua origem.

O primeiro é o do esquematismo das idéias gerais, sem base na experiência, que leva ao a priori dos extremismos simplistas, inimigos da apropriada condução dos negócios públicos e da liberdade política, para o qual Tocqueville chamou a nossa atenção, com certeira antevisão (O Antigo Regime e a Revolução, Livro III, cap. 1).

O segundo é a aceitação, ainda que latente, da especificidade da moral revolucionária marxista paradigmaticamente formulada por Trotsky no texto de 1938 A Nossa Moral e a Deles. Afirma Trotsky que a moralidade tem conteúdo de classe e os preceitos éticos geralmente reconhecidos têm caráter indeterminado. Por isso um revolucionário deve ter completa independência em relação à moral burguesa. A mentira e a violência são condenáveis, assim como a sociedade de classes que as gera. Uma sociedade sem contradições será uma sociedade sem mentiras e violência. Assim os meios podem ser justificados pelo fim que leve à liberação da humanidade. Não preciso lembrar que a História do século 20, com seus desastres, contestou a validade desta posição e que o próprio Trotsky, reduzido à condição de profeta desarmado e exilado, foi por ela vitimado, primeiro pelas mentiras e depois pela violência do seu assassinato a mando de Stalin.

Concluo lembrando, para a conduta política, a pertinência reflexiva de uma observação de Bobbio: "Extrema esquerda e extrema direita têm amores diversos, mas ódios comuns. Um destes ódios é à democracia."