O GLOBO
Na época da ditadura franquista, Manuel Bandeira escreveu o poema "No vosso e no meu coração", ao mesmo tempo de exaltação da Espanha e de execração do general Franco. Cantava em cada estrofe heróis e glórias da terra de Cervantes — "Velha Espanha de Pelaio,/Do Cid, do Grã-Capitão!/Espanha de honra e verdade/Não a Espanha da traição" — e terminava sempre com o estribilho "A Espanha de Franco, não!"
Que falta faz o talento! Que impotente vontade de plagiar o poeta cantando a Minas da liberdade, da honra e da verdade, a Minas do Alferes e dos profetas, do gênio do Aleijadinho, a Minas de Nava, Guimarães Rosa e Drummond, de Sabino, Paulinho, Pellegrino e Otto, não a Minas de Silvério, nem de sua rima Valério. A Minas do barroco; a Minas das malas, não.
Nessa semana aqui pelas Gerais, tenho presenciado a indignação dos mineiros contra as insinuações que procuram associar o estado à corrupção instalada no país. "Nada mais injusto", diz em editorial o jornal "Estado de Minas". "Marcos Valério não representa Minas. Por acaso dirige empresas cujas sedes estão na capital. Poderiam estar em São Paulo, Rio, Porto Alegre."
O presidente da Associação Comercial, Eduardo Bernis, foi ainda mais contundente num artigo de "desagravo", disparando farpas com endereço certo: "Não foi aqui em Minas que a trágica justificativa da corrupção contida no 'rouba, mas faz' encontrou terreno fértil para se estabelecer."
É 2006 chegando ao arraial tucano pela velha rivalidade "café-com-leite", do tempo em que, como cantava Noel Rosa, "São Paulo dá café, Minas dá leite" e a Vila Isabel, isto é, o Rio, samba. Bernis acredita que a "campanha de descrédito" é para reduzir o peso e a influência de um estado que "está a comprometer projetos alheios de poder".
Mais do que uma suposta conspiração contra a terra de Tiradentes, o que há de indiscutível é a conjura atual, esta sim infame, comandada por Marcos Valério. Nessa inconfidência às avessas não se encontram mártires nem heróis; ela é composta só dos silvérios da pátria.
Faz sentido em se insistir por aqui que Valério não representa Minas. Aliás, nada menos mineiro não só no conteúdo como no estilo e na forma. Esse esbanjador de grana cuja marca é o desperdício, o exagero, o estardalhaço e a ostentação é a própria traição do espírito de Minas, feito de valores como discrição, parcimônia, recato e cautela.
Viva a Minas de Guimarães Rosa, "plenária, imo e âmago, chapadeira, veredeira, zebuzeira, burreira, bovina, vacum, forjadora, nativa, legalista, legal..."!
A Minas de Valério, não.
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