Reduzida a ameaça aos termos elementares que datam de tempos imemoriais - "eles contra nós" -, os nossos vícios passam a importar menos do que o imperativo de enfrentarmos unidos as forças que tramam a nossa aniquilação. Nessa hora plena de indulgências, os pecados são tratados retrospectivamente como pecadilhos; quem os praticou não pecou, apenas se equivocou - e não em benefício próprio. Certa vez, quando lhe propuseram pôr na Internet as contas do partido de que era tesoureiro, o professor Delúbio reagiu com espanto. "Transparência assim já é burrice", retrucou. Mea-culpa demais também, não falta hoje no PT quem acredite.
Por exemplo, o novo secretário-geral (e ex-ministro) Ricardo Berzoini. Ele foi citado no Globo de segunda-feira como tendo dito, à maneira do recolhido ex-presidente José Genoino, o equivalente a "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Na cartilha de Berzoini, quem ajudou a formar e traçar a rota do trem pagador de Marcos Valério tem de ser expulso; quem nele embarcou e não for capaz de explicar para quê, idem. Mas quem provar que usou os "recursos não contabilizados" legitimamente, isto é, para pagar por baixo dos panos dívidas de campanhas políticas e nada mais, deve levar um pito ou, no máximo, pegar uma suspensão do partido.
Isso significa que, não aparecendo novos nomes e denúncias, dará para contar nos dedos das mãos, ou de uma, o número daqueles sobre os quais recairá a implacável justiça da legenda que "não pode tolerar corrupção", nas discutíveis palavras do secretário Berzoini. Naturalmente, Delúbio será o primeiro, em que pese o negócio que fechou com o pessoal do ex-ministro José Dirceu no Diretório Nacional para que pudesse tomar a iniciativa de se afastar por tempo indeterminado da agremiação, em vez de ser afastado. Outro expulsável seria um certo Josias Gomes da Silva, da bancada baiana, que privatizou os 100 mil valérios que lhe couberam.
Já os que fizeram bom uso do caixa 2, como os deputados João Magno, João Paulo Cunha, José Mentor, Paulo Rocha e Professor Luizinho, já-já voltarão a ser companheiros respeitáveis no partido intolerante com a corrupção. E fraternos baluartes na luta contra as "estratégias oportunistas da direita que quer abreviar o mandato popular, legal e legítimo do presidente Lula", como se lê na resolução tirada sábado pela direção do partido, considerada "pífia" e "tímida" pela esquerda petista. "Onde já se viu?", reagiram, incrédulos, observadores insuspeitos de oportunismo de direita. "Quer dizer que no PT deixou de ser crime mentir ao Fisco e à Justiça Eleitoral?"
Até parece que o presidente Lula nunca disse, naquela sua momentosa entrevista em Paris, que "o PT fez, do ponto de vista eleitoral, o que é feito no Brasil sistematicamente". Além disso, a apartação entre os (poucos) muito culpados e os (muitos) pouco culpados é coerente com o veto de Dirceu que arquivou domingo a iniciativa do presidente petista, Tarso Genro, de negar legenda nas próximas eleições aos deputados do partido que tiverem a cara-dura de renunciar aos mandatos para escapar de eventuais cassações por quebra de decoro parlamentar que os despojariam dos direitos políticos durante uma boa temporada.
Tudo isso deixa poucas dúvidas sobre as intenções dos setores dominantes do PT, agrupados no Campo Majoritário, que representam 60% da agremiação, de promover qualquer coisa efetivamente parecida com uma faxina ética nos procedimentos que destruíram a imagem da sigla perante todos quantos discordam de que os fins justificam os meios. Coloque-se num prato da balança o que o ex-ministro Tarso afirmou a esse respeito, incluindo o seu esperançoso projeto de transição do partido para a sua refundação, e se coloque no outro o que a maioria dos seus dirigentes fez e desfez no encontro do último fim de semana e o resultado será aplastador.
Ficou claro que a supremacia de Dirceu - cuja presença Tarso consideraria depois "constrangedora" - está longe de ser uma página virada: pelo menos entre os seus, ele continua a ditar o rumo, com menos soberba, talvez, mas com os mesmos fins. E estes são os que o escritor Giuseppe Tommasi di Lampedusa imortalizou no Gattopardo, de 1958: "As coisas precisam mudar para que permaneçam iguais." O que permanece igual - a julgar pela transição para o retrocesso - é um projeto de poder que se distingue na cena brasileira por um traço sem o qual não fica em pé: o controle hegemônico do núcleo dirigente sobre o aparato partidário, e do partido sobre a máquina e as decisões de Estado.
Se disso se trata, a anunciada refundação manterá o partido de costas para os valores políticos universais que a esquerda deve ser a primeira a seguir. E, se assim for, se confirmará, lamentavelmente, a previsão do fundador e ex-dirigente petista César Benjamin, em artigo na Folha de S.Paulo. A rede de cumplicidades que a liderança partidária reuniu em torno de si, escreveu, "contamina tão profundamente o PT que uma reforma séria do partido tornou-se inviável".
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