| PRIMEIRA LEITURA |
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| Desculpem-me todos os que se querem moderados, mas a minha paciência com certa ordem de argumentos já se esgotou. Às vezes, sou tentado a achar que não somos mesmo dignos da democracia de que desfrutamos porque mal a compreendemos. Nessas horas, lembro-me de Paulo Francis. Não fizemos nem a Revolução Francesa ainda, aquela dita burguesa, que também tinha suas virtudes, ao lado de ser o início da entronização do terror como política de Estado decidida pela "maioria". Mas ali se consolidou uma idéia de República, de uma instância acima das vontades individuais ou de grupos. Por que este destampatório? Posso até admitir que o impeachment, agora, não seja lá a saída mais tranqüila. Mas o que está me incomodando é a qualidade dos motivos alegados. Os argumentos, que chamarei aqui de "os meios", acabam qualificando os fins. Prestem atenção ao que dizem os que argumentam que não é hora de impeachment: invariavelmente, afirmam, no fim das contas, que falta o "clamor público" para tanto. E as avaliações tortas não partem apenas do PT, não. O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), por exemplo, erra feio quando diz: "Impeachment não é coisa que se proponha para a sociedade. É a sociedade que tem de nos propor". Ok, até entendo que ele não queira tomar a iniciativa se acredita que a maioria da sociedade é contra. Mas também não posso conviver com essa noção de Estado de Direito, que, em último caso, aponta para a rendição da democracia representativa e do Estado de Direito ao petismo. Mandam-se as leis às favas e se decide segundo o clamor público, é isso? Pode parecer incrível, mas a verdade é que, mesmo quebrado e na lata de lixo da história, o PT ainda tem o poder de mudar os códigos do regime democrático. Entendam bem: se Virgílio ou outro qualquer dos que se opõem ao impeachment argumentassem que não vale a pena transformar Lula num mártir porque o resultado poderia ser contraproducente, acho que eu até concordaria. No caso, concordaria, mas recomendaria que não se fizesse tal avaliação em público. A consciência média detesta cálculo político. A inteligência ainda é francamente hostilizada no Brasil. Confunde-se com coisa do capeta. Por isso o país elegeu Lula um dia. Flertamos com a estupidez desde que ela seja cordata e amorosa. Duda Mendonça percebeu isso muito bem. Ok, se fica difícil fazer esse cálculo de razão política em voz alta, não é preciso fazer o outro, que esbulha a democracia representativa. Olhem aqui: se a questão é verificar se as denúncias chegaram ou não a Lula, é preciso ser supinamente estúpido ou cegamente petista para dizer que não. O presidente foi avisado do mensalão pelo menos quatro vezes: uma ele admite, e três outras ele não tem coragem de negar. Fez alguma coisa? Nada. Prevaricou. Valdemar Costa Neto diz que Lula e José Alencar estavam juntos quando se decidiu o preço do PL — dinheiro que foi pago depois da eleição. Ambos não negam. Mas dizem que não sabiam o que se decidia naquele encontro. Claro, não sabiam. Duda Mendonça confessou, ainda que esconda muita coisa, que a campanha do Lula foi paga pelo caixa dois, dinheiro enviado para fora do país. José Dirceu, dizem todos os seus ex-parceiros, sempre soube de tudo. E também sempre disse que jamais agiu sem o pleno conhecimento do presidente da República. Cesar Benjamin, que deixou o PT em 1995, acusa o próprio Lula de ser íntimo da turma heavy metal do sindicalismo que fazia caixa dois no PT desde a campanha de 1994. Estrela do grupo, segundo Cesinha: Delúbio Soares. Um estranho empréstimo pessoal do PT a Lula foi pago Deus sabe como. O partido tem o registro. Paulo Okamotto diz que pagou do próprio bolso. Lula não reconhece a dívida. Um filho do presidente que, havia três anos, era monitor de Jardim Zoológico e instruía as crianças sobre onde ficavam a zebra, o camelo e o asno, torna-se empresário bem-sucedido com a ajuda de uma concessionária de serviço público, de que é sócio o BNDES. Recebeu R$ 2,5 milhões pela parceria e outro tanto pelo que seria a venda da idéia. De monitor de zebra a sócio de uma empresa com capital de R$ 5 milhões, passaram-se dois anos e meio. O tempo que seu pai tem na Presidência. Mas a população é contra? Então o processo político decide ignorar todas as transgressões para assumir como critério único o chamado clamor popular — que, de resto, está sendo superestimado. A população vai para a rua mais facilmente para protestar contra o mau desempenho de seu time do que de seu presidente da República. Jogadores do Atlético Mineiro quase apanharam nesta segunda. Duvido que alguém fosse dar a cara a bater para defender Lula. Não vejo o tal Gustavo Petta, presidente da UNE, sustentando o lulismo no braço. Aliás, nome é nome, mas não precisa ser destino. Ele não deveria manchar a história da UNE, fazendo dela um órgão lacaio de um governo que ousou dividir o poder com Janenes e Mabéis. Isso é peta, Gustavo, com um "t" só. Espanta-me que este rapaz não se envergonhe de dizer que é o Congresso que está sob investigação. Se a entidade não serve para nada, e não serve, que ao menos não cooneste a bandalheira. Não me venham, pois, com essa história de clamor público. Na prática, isso justifica o chavismo. E vejam que beleza de país se está construindo na Venezuela. A Constituição tem suas regras e até mesmo as suas salvaguardas caso um grupo, nem que seja a dita maioria, decida que o que está escrito lá não vale. Espero que ela seja seguida, distante desses argumentos perigosos que pretendem entregar para a "sociedade" a responsabilidade decisória. A "sociedade" é que delegou aos Poderes Constituídos as devidas tarefas, inclusive o monopólio da força. Quando e se tivermos democracia direta, na base do abafa e da decisão das maiorias de ocasião, aí, sim, pode ser como dizem. Se assim for, que se danem, porque estarei longe. Até lá, a institucionalidade conduz a maioria em vez de ser conduzida por ela. Dou um conselho: quem não quiser se mover em favor do impeachment e quiser evitar a pecha de cínico ou de excessivamente racional com assunto tão, como vou dizer?, profundo, que se cale. Mas que não diga bobagens, que não se renda a esse critério petista de entendimento da Constituição. Já nos basta que Lula, até hoje, contrariando parecer do Supremo, jamais tenha empregado a lei contra o esbulho legal praticado pelo MST. Lembro-me de o ministro Márcio Thomaz Bastos, certa feita, ter dito que usava uma espécie de "acomodação" constitucional em relação a tal movimento. De acomodação em acomodação, chegamos até aqui: a maior crise política da história brasileira. Ao Estado de Direito só cabe o lema "non ducor, duco": conduzo, não sou conduzido. E se Lula quisesse extinguir o direito à propriedade privada com o apoio da maioria? Não custa considerar: na história, quando a maioria erra, o erro é sempre monumental. Eis-me aqui então: Reinaldo Azevedo, coitadinho!, contra o golpe da maioria. Reinaldo Azevedo dizendo às maiorias: "Vão se danar". Publicado em 15 de agosto de 2005 |
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