FOLHA DE S PAULO
Luiz inácio Lula da Silva passa seu pior e seu melhor momento. Depende de como consiga enxergar o futuro imediato. Se tivesse sabedoria, aceitaria prontamente propostas que estão lhe sendo encaminhadas de desistir da reeleição, desligar-se do PT (para tornar-se árbitro, longe das paixões partidárias), montar um superministério de coalizão, sem pensar em maioria comprada, e uma agenda efetiva de reformas.
O momento é agora. Analista que melhor consegue sintetizar a visão estruturalista com a de mercado, o presidente da BB DTVM, Nelson Rocha -que foi do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e do mercado financeiro-, tem rodado feito um pregador, mostrando o caminho:
Na sua avaliação, a onda internacional positiva criou uma situação privilegiada. O Brasil está bem colocado em todos os conceitos utilizados historicamente para avaliar a economia, inclusive nos conceitos cepalinos -da escola de pensamento de Celso Furtado e Maria Conceição Tavares.
Mesmo com os problemas do câmbio, o grau de abertura da economia aumentou 35% nos últimos 24 meses. Vai se perder o ritmo com o câmbio. Mesmo assim, tudo isso tornou-se possível em razão de mudanças nos conceitos antigos da divisão internacional de trabalho.
Há uma relação de trocas bastante favorável ao país, quase auto-suficiente e em breve exportador de petróleo, bons preços dos commodities agrícolas, com quedas meramente sazonais, a possibilidade de tornar-se um gigante em agronegócio, em energia, açúcar e álcool.
Há uma mudança estrutural de balanço de pagamentos, com a enorme redução da dívida interna cambial, e a redução da dívida externa, particularmente a dívida pública.
O passo seguinte consiste em mudar o mix de combate à inflação. Rocha identifica quatro componentes relevantes:
1) Há um fator monetário e fiscal bastante discutido. A partir do momento em que se apresentar equilíbrio fiscal permanente, saudável, permitindo uma sinalização de redução da carga tributária, a economia responderá em pouco tempo, com a volta dos investimentos.
2) Inflação inercial: há agora a chance de desindexar as tarifas, aproveitando a baixa do IGP-M (Índice Geral de Preços ao Mercado). Com a política fiscal crível e o balanço de pagamentos sob controle, o real será aceito como unidade de conta e reserva de valor pelas concessionárias.
3) Fatores estruturais, de prazo mais longo, especialmente estrutura tributária completamente esquizofrênica, gargalo de infra-estrutura e má distribuição de renda.
4) O quarto ponto é a expectativa dos agentes, que é favorecida pela melhoria das outras variáveis.
O momento histórico é muito relevante. Mesmo com o terremoto político, as expectativas de inflação estão caindo, assim como os custos de captação. O grande nó é ainda o peso muito elevado da política monetária.
O governo precisa avançar urgentemente na solução do nó político e na mudança do mix da política econômica, antes que algum choque externo altere o câmbio e traga de volta o componente inercial.
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