O GLOBO
É educado pedir desculpas. Mas o ato polido tem pouca ou nenhuma serventia quando usado por quem detém o poder.
Por definição, o poder não pede perdão — pela simples razão de que não existe resposta adequada da sociedade. Se, numa pesquisa de opinião, o povo respondesse, generoso, que "tudo bem, mas vê se não faz outra", as leis do país não deixariam de ser aplicadas aos penitentes. Na outra hipótese — "desculpa coisa nenhuma, está pensando o quê?" — a resposta também não teria efeito legal ou político compulsório.
Claro, tem sua importância que Lula se declare traído e indignado: há nessas palavras um compromisso implícito de punir os traidores.
Implícito — mas vago. A forma adequada de um chefe de governo provar à sociedade a profundidade de sua indignação com facadas pelas costas (e algumas de frente mesmo) é anunciar o que vai fazer. Para, pelo menos, seu próprio distanciamento dos abusos e dos delitos. Os quais, lamentavelmente, não são enumerados no primeiro pronunciamento público do presidente sobre a conspiração palaciana. Uma pena: por essas e outras, no discurso de sexta-feira do presidente sobra emoção e falta substância.
Parte das falhas pode ser generosamente atribuída à surpresa causada pelo depoimento de Duda Mendonça.
(Breve mudança de assunto: é de pasmar que o publicitário que trabalhou mais de uma vez em campanhas de Paulo Maluf nada tenha aprendido, nesse convívio, sobre remessas criativas de dinheiro para o exterior. Pelo visto, o emotivo publicitário só pensa mesmo em criar campanhas e se divertir com a morte sangrenta e cruel de galos de briga. O trabalho para Maluf, pelo visto e sugerido, era pago contra faturas, em reais — algo parecido com a compra de um sofá nas Casas Bahia.)
De volta ao discurso: praticamente desde as primeiras bufonarias do futuro ex-deputado Roberto Jefferson, acumulavam-se a cada dia os sinais de que a qualquer momento o escândalo chegaria ao Palácio do Planalto — e que seria insuficiente reação dispensar alguns velhos companheiros.
Só os muito ingênuos poderiam esperar que os problemas iriam embora na bagagem de Dirceu, Delúbio e associados. Por isso mesmo, o discurso de Lula já deveria estar escrito, provavelmente pelo ministro da Justiça, bom de texto e de leis —- e lido pelo presidente em momento de sua escolha, sem a pressa nervosa provocada pelo depoimento do publicitário.
Enfim, em vez de agir, Lula reagiu. Como acontece com muitos de nós em momentos de extrema pressão política e emocional, reagiu mal. Devia ao país um pronunciamento substantivo. Ofereceu-lhe uma fala adjetiva, sem compromissos concretos e eficazes.
O presidente deveria ter sido o primeiro a se indignar. Agiu como se fosse o último a ser surpreendido.
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