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"Bem antes de estourar a crise do mensalão, a base aliada do governo já não estava conseguindo consenso para votar coisa nenhuma.
Como perdeu o controle da pauta da Câmara dos Deputados, porque o PT não tem nenhum membro na Mesa, o governo só estava conseguindo montar coalizões de veto. Ou seja, reunia sua tropa para obstruir votações e negar quórum, manobras regimentais típicas de oposição, não de governo.
Mas desde a eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara, o governo não conseguia mais construir coalizões de voto, para aprovar medidas.
A crise do mensalão só piorou as coisas. Nunca mais se votou nada, nem se vetou nada. Em suma, a Câmara parou.
O PT perdeu o líder da bancada, o PMDB perdeu o líder da bancada, e no PL e no PP os líderes estão envolvidos na crise do mensalão. Resultado: não se vota coisíssima nenhuma.
Por isso, a votação no Senado da Medida Provisória do salário mínimo pegou todo mundo de surpresa. O governo cochilou, e a oposição elevou o valor do salário, dos 300 reais em vigor, para 384 reais.
Dizem os técnicos do governo que isto gera um gasto adicional de 16 bilhões de reais, estoura ainda mais o orçamento da Previdência, arrebenta o caixa de estados e municípios.
Na oposição, os senadores alegam que a votação foi um troco ao governo, depois do ato explícito de irresponsabilidade do deputado petista Paulo Pimenta, que distribuiu uma lista forjada, dizendo ser a relação dos sacadores das contas de Marcos Valério nas eleições de 98.
Por este ato de total leviandade, Paulo Pimenta muito provavelmente perderá o mandato. E o governo está tendo que correr para resolver o problema criado com a aprovação de um salário mínimo de 384 reais.
A Medida Provisória volta para a Câmara. Ou bem os deputados rejeitam a MP e o salário mínimo volta a ser de 260 reais, valor do ano passado, ou a Câmara aprova o que veio do Senado e estoura todos os orçamentos.
O governo tenta encontrar saídas, talvez a concessão de um abono mensal que mantenha o valor de 300 reais. Mas o mais importante é que as forças governistas na Câmara terão que se mexer.
Será um batismo de fogo para o novo ministro da Articulação Política, Jacques Wagner, que até agora só estava apagando incêndios da crise do mensalão."
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