A manobra gerou muita discussão. E pelo menos um prejuízo imediato e irrecuperável para a já desgastada imagem do Congresso. Diante da disposição e rapidez com que agiu para proteger Dirceu e Mabel, Severino Cavalcanti mostrou que pode dividir com ambos o manto da suspeita sem qualquer objeção ética. Se não estava envolvido até agora com as denúncias que há mais de dois meses chocam e revoltam o país, se associou ao pior efeito dessa crise didática. A percepção de trabalhar com afinco, usando o regimento interno, para impedir não a punição dos culpados, mas que o sejam apenas aqueles de menor expressão, a carne magra jogada aos leões.
A sociedade, indignada com as proporções intermináveis da roubalheira, já desconfiava que alguma articulação estava em andamento. Tocar apenas quatro dos nove processos por quebra de decoro, usando o argumento de que a ''ordem cronológica impediria que se formasse juízo de valor'', é um sofisma insustentável diante do cabedal de provas já tornadas públicas. O festival de mentiras igualmente ajudou a forjar o juízo que o presidente da Câmara dos Deputados não vê, embora cristalizado ao seu redor.
A decisão foi um sinal de que a máquina política reagiu para frear a velocidade do escândalo. Quer que corra o suficiente apenas para permitir que as rédeas do processo sejam recuperadas. Tenta programar cada passo para que, no fim do caminho, se apresente como um resultado diferente, algo que, em síntese, tem o mesmo valor. Como se diz nos corredores da Casa, ''mexe-se para não se mudar nada''.
Ignorar a opinião pública, cujo sussurro nas ruas exala impaciência e um perigoso fastio, não é só erro, mas desafio. As lições da História estão pródigas em exemplos de governantes que deram as costas ao povo e acordaram tarde demais.
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