A crise política se agravou com o depoimento do publicitário Duda Mendonça em que ele desvendou a existência de uma conexão externa no propinoduto de Marcos Valério/Delúbio Soares e outros. Ao admitir ter recebido o equivalente a R$ 10 milhões numa conta nas Bahamas, por meio de uma remessa de outros bancos no exterior, o ex-marqueteiro-mor do PT abriu definitivamente a porta do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a crise entrar.
No dia seguinte ao depoimento de Duda e da sócia Zilmar Fernandes à CPI dos Correios, não houve alternativa ao presidente Lula a não ser declarar-se publicamente "indignado", "traído" e — de forma constrangida, mas pelo menos de cabeça erguida, de olhos fixos na câmera — pedir desculpas. Embora não tenha sido feito na primeira pessoa do singular, o ato de relativa humildade e reconhecimento de alguma culpa na crise ampliou os estreitos espaços de manobra para Lula.
A evidência de que a vitória em 2002 deve ter sido financiada, em parte que seja, por dinheiro ilegalmente remetido para o exterior — e de origem desconhecida dentro do país — passou a servir de argumento mais forte para os defensores da instalação do processo de impeachment. Trata-se de um erro, e o mesmo equívoco embala propostas delirantes, como a antecipação das eleições.
Como declarou o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio, "o Brasil precisa aprender a ir até o fim da linha". E ir até o fim da linha significa aguardar o desfecho das investigações em curso e depoimentos a serem tomados. Os detalhes contados pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sobre a reunião em que literalmente vendeu a José Dirceu e Delúbio o apoio do partido a Lula não são suficientes para colocar o país na rota turbulenta do impedimento do presidente. Que também independe da popularidade de Lula ou de, no fim do túnel de um eventual impeachment, que atingiria o vice, estar o líder do baixo clero para vestir a faixa presidencial por 30 dias.
Lula se diz traído. Portanto, se declara desconhecedor da traficância financeira. Salvo prova que o desminta, o presidente merece crédito. Mas precisa novamente vir a público para ser mais direto, falar sem plurais majestáticos e revelar o sujeito oculto na frase da traição.
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